O pit bull e o cômodo

Devil Dog — Keith Negley

Elis adotou o pit bull que lhe seguira até em casa em um dia deserto e quente fora do normal. Sempre quisera um animal de estimação quando criança e a carência pós término fez parecer uma boa ideia. Era como se aquele pit bull tivesse aparecido na hora certa. Depois de todas as recomendações realizadas quando se adota sem pensar muito, o maior desafio estava por vir: educar. Ele era meio bruto, além de grandão e forte. Não obedecia à muitas ordens da companheira e destruía a casa durante o dia. Quando ela estava indo comer algo ele sempre atrapalhava e quando ela colocava suas músicas para tocar ele começava a latir aparentando não gostar. Tirando esses e alguns outros incômodos, acreditou que seria uma boa ideia permanecer com ele, pois tinham alguns momentos bons.

A única coisa que não suportava mesmo era que ele insistia em tentar entrar no único cômodo da casa que Elis não permitia entrarem. O mais próximo que alguém chegou de entrar foi Josué que permaneceu parado na porta e observando o que tinha dentro. Aquele cômodo era o que Elis considerava ser o mais íntimo que alguém poderia conhecer de sua existência, e quem ali ela permitisse entrar, mudaria o resto da sua vida já que seria inesquecível essa abertura. Desde a mudança do pit bull para sua casa aquele cômodo permanecia fechado. Combinou com ele, acreditando que ele entendia, que se ele comprovasse por meio de atitudes que estava mudando, ela pensaria em deixar a porta aberta e quem sabe convidaria-o a entrar, sendo ele o primeiro oficialmente.

Uns meses se passaram e Elis começou a acreditar que o pit bull tinha mudado, que estava mais educado. Um dia em específico, ao chegar em casa e ver que estava tudo incrivelmente no local, abriu uma garrafa de vinho e pôs-se a tomar na companhia do pit bull. Colocou suas músicas para tocar e nada do animal latir. E relaxou. Talvez tenha tomado mais taças de vinho do que estava acostumada, pois não percebeu quando o pit bull saiu de seu lado interrompendo o carinho que dava. E um susto a fez levantar do nada. Um estrondo. Outro estrondo. Quando caiu em si do que se tratava já se pôs a gritar pedindo para ele parar. Tentou tirá-lo uma, duas, três, quatro, cinco vezes dali. Incontáveis vezes em vão. Ele não parava. Estava determinado, concentrado. A porta foi perdendo as forças, assim como Elis, e cedeu. Entrou e desbravou todo o território. Revirou tudo. Destruiu o cômodo mais secreto dela. O êxtase de ter entrado no cômodo proibido o cegou e o fez ficar incontrolável. Todo o zelo de Elis tinha virado uma bagunça, um caos. Aos prantos, continuava pedindo para ele parar, já totalmente sem forças de tentar tirar aquele animal monstruosamente grande, pesado e bruto do cômodo. Não demorou muito para que o pit bull olhasse ao redor e ficasse satisfeito com o que tivera realizado ali, saindo do cômodo como se nada tivesse acontecido, deixando Elis ir repousar e indo repousar no seu local de sempre.

Após todo o susto, Elis não conseguiu ajeitar a porta e alguns dos objetos do interior do cômodo. Não conseguia mais confiar no pit bull também. Vez ou outra ele apareceu no cômodo, derrubando e estragando algumas coisas, mas nada que Elis não conseguisse parar e colocá-lo para fora por algum tempo. Surgiu uma força interior dela que nem ela sabia que existia e não permitiria ele fazer mais destroços naquele cômodo tão especial.

No final, aprendeu a lidar com o animal, impondo limites severos. Este, cansado do tédio da casa após perceber que não teria mais o que destruir por ali, já que tinha explorado tudo, fugiu. Nunca mais se viram. Anos se passaram e as feridas feitas no cômodo, no coração e na mente de Elis, jamais sumiram.

Não sou contra Pit Bulls.