Todo mundo tem a sua Laura

Laura. Laura é um soco no estômago e um cafuné em seguida. Ou o contrário. Ou o soco e o cafuné ao mesmo tempo. Ela me faz querer a morte, ela me faz sentir a vida. Eu tento incessantemente esquecê-la, mas sempre algo me faz lembrá-la. Como fã de Clube da Luta que sou, se eu tivesse um tumor eu o chamaria de Laura.

Outro dia encontrei a Laura na rua. Nos olhamos fixamente para, em seguida, fingir que nunca nos conhecemos. Antes fosse. Se eu pudesse desconhecer alguém eu desconheceria a Laura. Mas se eu pudesse conhecer alguém de novo eu conheceria a Laura.

Outro dia eu vi a Laura gargalhando naquela mesa de bar, acompanhada por alguém que deve ter conhecido por aí. Ela fazia aquilo de sempre: se inclinava para a pessoa e jogava o cabelo com uma mão enquanto a outra segurava um cigarro. Eu odeio cigarro. Odeio cheiro de cigarro, gosto de cigarro, gente que cheira a cigarro. Mas a Laura tinha um cheiro ótimo, um gosto ótimo e eu nem ligava quando ela fumava. Ela o acendia e ficava mais longe de mim para não me incomodar. Às vezes esticava o braço para tocar meus dedos, que sempre ficavam gelados perto dela. Talvez aquele fosse o jeito dela de me dizer que se importava.

Mas eu não me importo mais. Não dou a mínima para a Laura e quero que ela seja muito feliz bem longe de mim. Apesar que outro dia eu encontrei a Laura naquele bar onde tivemos a nossa penúltima conversa e eu só quis abraçá-la. Ela andava do mesmo jeito, com os mesmos amigos, abrindo o mesmo sorriso e me fazendo sentir aquela mesma coisa estranha no estômago.

Eu queria que a Laura sumisse do planeta para eu nunca mais correr o risco de revê-la. Eu queria que a Laura aparecesse agora dizendo que ainda gosta de mim e que sente minha falta para eu nunca mais correr o risco de perdê-la. Eu sinto raiva da Laura porque eu sinto falta da Laura. Eu odeio a Laura porque eu amo a Laura.

(...) Laura!
Que saco, Laura!
Que saudade, Laura!
(...)

Outro dia estava conversando com um amigo e descobri que alguém também fazia ele se sentir desse jeito. O nome dela era Camila. No fim das contas, ela era a Laura dele.


Ilustração: Lucas Garcia