“Água?” — amor e ódio na piscina e na praia


Com os olhos vidrados no copo, pronunciava “água”. A cabeça trêmula era sinal de alegria, sentimento recorrente quando ele assistia à qualquer forma de exposição do líquido precioso.

“Água?”, questionava levando a mão de sua mãe à porta da grade que envolve a piscina. “Sim filho, é água”, respondia ela, enquanto o observava com os olhos entreabertos em consequência do sol escaldante sobre suas cabeças. Decidido a invadir a piscina, repetia o ato e a fala, estes negados pela mãe — que preocupada com uma possível insolação do filho, o levava de volta à sala de estar.

Na televisão, as ondas eram cortadas pelos surfistas que procuram o equilíbrio nas pranchas de espuma e poliuretano. Ele, emocionado com as imagens, balançava as mãos para cima e para baixo, aproximando-se da TV como quem pretende invadir a tela de LED. Tamanha a paixão que as sílabas se dobravam em som cantado “aaaguaaaa”.

Não podendo subir em pranchas, surfava na beirada do mar, entrecortando a espuma dos vestígios de onda com seus dedos longo e finos. Sentado no raso da praia, chegava a quase dormir ali, só não o fazia pela areia que lentamente infiltrava sua sunga, causando-o incomodação. Isso sempre terminava com a veste caída entre as pernas, expondo seu membro por não mais do que 30 segundos, já que a família corria para de poupá-lo dos olhares daqueles que não entendiam e nem faziam questão de entender. Adentravam o mar, livrando-o da areia invasiva.

Quando não na praia, e em horários que sua mãe considerava adequados, esquecia do mundo na piscina. Não precisava expressar “água”, não sentia necessidade disso. Até porque muitas vezes não tinha companhia e isso não o incomodava, pulava das bordas sem dar fodas para o mundo exterior. Apesar da independência, era aberto à qualquer um que aceitasse brincar na piscina, não sabia diferenciar se a brincadeira era com ele, divertia-se como se fosse o centro das atenções. A piscina, além de tudo, tinha um ponto extremamente positivo em relação à praia: não era necessário usar sunga — se ele soubesse falar, diria “Fuck the Police”.

Dinheiro para comprar brinquedos não faltava à família. Ele ganhava tudo o que quisesse ou, no caso, parecesse querer. Mas, nem Habro, nem Mattel, nem as crianças da China ou da Malásia conseguiriam ultrapassar seu ‘brinquedo’ favorito, que custava apenas dois reais: a garrafa de d´água 500ml. Se tem uma coisa que considerava infinitamente divertida era a garrafa d’água. Cheia ou não, ela servia para os mais diversos jogos, era bola de futebol e até mesmo instrumento musical — geralmente, um chocalho.

Água era tão essencial na vida dele que a desidratação era um problema tão grande quando o inchaço pelos litros e litros de soro. Tão importante que o primeiro órgão a se prejudicar fatalmente foi o rim. Nessa relação de amor e ódio, a água era tão puta traidora quanto uma companheira essencial. O tempo foi passando e a dosagem desse amor foi se complexando, com acontecimentos dignos de Shakespeare e Luce de Gat. No fim, uma coisa é certa, do seu dialético básico e rudimentar, a palavra mais falada, é essa tal de “água”.


Esse breve texto é, de certo modo, um perfil do meu irmão, Gabriel J. Vieira.