Das Tripas ao Coração

Exarcados por uma densa poça de sangue escurecido, os cacos de vidro da vitrine de vestes plus size brilhavam sob o feixe de luz da lanterna. O alarme não apitou e as câmeras não filmavam direito, a fiação estava com problemas há mais de duas semanas. Os pisos sofriam com umidade excessiva a nível do mofo dominar todas as quinas do teto e chão. Tamanha era a precariedade do local que mal deu meia noite e o sangue já infiltrava o gesso rumo ao andar de baixo.

Os manequins da vitrine vestiam das tripas ao coração do cadáver graúdo. A maior parte da gordura, que compunha os mais de 100 quilos do morto, estava esparsa por todo o chão, misturando-se ao sangue e alguns doces esmagados sob corpo. A bizarra combinação destes três elementos formava uma espécie de mingau ferroso com textura esponjosa. Com os órgãos esparramados pela região, era natural que a área abdominal murchasse plenamente em menos de 10 minutos.


“Por que”, era a única coisa que eu conseguia pensar enquanto observava aquele circo mórbido. Nem o mais cruel dos homicidas seria capaz de fazer isso. O pior é que eu sequer lembro de como cheguei até aqui. Numa hora tava sentado no meu posto de vigilante noturno do shopping mais decaído dessa cidade, algumas sonecas depois, tô vendo a cena deprimente de um balofo rasgado…

Tava tão nervoso que minha mão tremia tanto quanto no dia em que vi meu pai matar minha mãe a pancadas. Ainda ecoam na minha cabeça os gritos dele, “sua gorda escrota. Vou te quebrar se tu não me dizer com quem tu tá me traindo! Aposto que é com o padeiro, vaca obesa. Nossa, vou te bater até tu emagrecer!”. A visão do sangue tomando o chão enquanto ele chutava seu rosto já queimado pelo café fresco… Saudades dessa sensação de ter uma família.

Mas, ficar lembrando desses momentos não me ajudava em muito. Precisava descobrir o que aconteceu ali, ou seria demitido. Se ao menos o alarme e a câmera funcionassem…

Pra acabar mesmo, os caras são muito miseráveis, não mandam consertar nada nesse lugar. Não sei se ele tá caindo aos pedaços porque não investem ou se não investem porque tá caindo aos pedaços. Merda de trabalho. Se eu tivesse estudado não tava nessa miséria, vendo pintura de interior de gordo.

Cheguei mais perto do cadáver — queria saber se conhecia o presunto — , sempre tomando cuidado para não pisar nas poças de sangue e gordura. Levantei a cabeça do cara e reconheci na mesma hora, era o próprio dono da loja. Esse velho tinha a mania de ficar até depois arrumando os manequins pra ver se alguém se interessava pelas coleções de plus size. Sempre achei essas roupas muito engraçadas, parecem uns paraquedas de tão grande, inclusive, brincava de pular do telhado com as camisetas da minha mãe.

Apesar de tudo, o cara até que era legal, vivia me oferecendo umas barrinhas de chocolate. Gordo é foda. Só pensa em comida, o cara era diabético e vivia com chocolate no bolso. Não é a toa que o sangue dele é tão grosso, parecia chantilly essa porra. Vai ver ele não era tão legal assim. Bem, uma coisa é certa, cedo ou tarde ia morrer mesmo. Porém, o que mais me chamou atenção não foi a identidade do tio, mas as minhas mãos. Não tinha notado que, dos dedos ao antebraço, eu estava encharcado de sangue.

Lá vou eu procurar um mendigo pra culpar por isso tudo. Quero ver como que eu vou explicar isso pro meu psiquiatra. “Lembra do meu problema com sonambulismo? Então… dei uma de herói sonolento, matei um gordo.” Saudades, papai.