Sangue, Suor, Cachaça e Gozo.

Bêbado, ele toca a campainha. A chuva lá fora, vem acompanhada de trovoadas cujo barulho se espalha por pelo menos 7 bairros. As lâmpadas do corredor começam a piscar como sirenes da Polícia Militar. Bêbado, ele toca a campainha. Ninguém atende, mas, de dentro do apartamento vem o som de The Neighbourhood, “ Little Death”. Lentamente, fica impaciente.

No carro, que está no lado de fora do prédio, seu primo o espera, ficando cada vez mais preocupado. A chuva o deixa apreensivo, formado em engenharia, ele sabe que um raio não atinge quem está dentro de uma estrutura metálica como um carro, mas, é difícil não se assustar com trovões tão poderosos. Fã da mitologia grega, começa a contar piadas sobre Zeus, mesmo que sem alguém para ouvi-las.

Bêbado, ele toca a campainha. Impaciente, espanca a porta até que a pele da sua mão direita comece a descascar e um pouco de sangue comece a escorrer pelo punho. Ela ( dona do apartamento) sabe quem é, não precisa nem olhar no “olho mágico”. Apreensiva, acende um cigarro, preenche o pulmão com nicotina e CO2 e o esvazia, pronta para receber o passado em sua casa. Porém, antes de abrir a porta, abaixa o volume de seu som e avisa à sua amante, que chegou uma visita surpresa. A amante, que bebe vinho nua no sofá da sala, pergunta “quem é o louco que aparece de surpresa na sua casa às 2 da manhã?”. O silêncio de instaura no ambiente , as chaves viram, ele entra.

“Porra, achei que nunca irias me atender” diz, já entrando no apartamento que um dia fora seu também. “Quem é essa daí?” pergunta com rispidez.

“Não te interessa, são 2 da manhã. Que merda você tá fazendo aqui?” responde tragando seu Malboro Blue Ice.

“ 2 fucking anos sem te ver e é assim que me recebes?” seu tom de voz aumenta gradativamente. O sangue de sua mão pinga sobre o tapete de recepção; “sua mão está sangrando, tá tudo bem?”. Surpreso, ele olha para seu

punho e vê sua pele pintada de sangue vivo. “Não sei. Mas, agora que você falou, tá doendo mesmo.”

A amante se levanta e caminha ao quarto. Ele volta ao seu estado de ciúmes e começa a caminha em sua direção. “Volta aqui. Tá fugindo do que? Ela não te falou de mim ?!” grita.

“Cala a boca, Vitor!” grita ela com raiva.

“ Ah, qual é, Fernanda? Sua namoradinha não te ama de verdade?” enquanto grita, observa um quadro recém pintado. A tinta fresca chama tanta atenção quanto os famigerados traços. Por fim, percebe quem é. “ Que bom, trocou esse jornalista de merda que voz fala por uma pintora famosa. Parabéns, amor, namorando a Isabelle de Lamour”

“ Te trocar?! Você ficou 2 anos sem falar comigo, desde a reportagem em Minas Gerais!” grita com rancor.

“ Porra, Nanda. Tu quer acabar comigo, né? Você largou a matéria no meio do caminho, me deixou sozinho naquela cidade, tudo por conta de uma outra namorada!”

“ Caralho! Sabes muito bem por que saí de lá. Sabes muito bem o que fizemos!”

Se antes o sangue pingava sobre o tapete, agora as lágrimas mútuas molham o chão da sala de estar. Isabelle abre a porta do quarto e sai com sua bolsa, dando passos largos rumo ao seu quadro recém terminado. “ Isso é meu.” olha para o dois com desdenho e diz “ Sabia que você era puro drama”. Vitor põe uma cadeira contra a porta e caminha até Isabelle, com delicadeza toca seu rosto. Ela começa a sentir medo e Fernanda não faz nada, mantendo-se imóvel. “ Escute aqui” diz pegando no quadro, “você nunca. NUNCA. Falará assim dela de novo, entendido?”. Isabelle concorda com a cabeça, é difícil não ficar intimidada por um homem de 1,80, barbudo e com hálito de cachaça.

Fernando toma o quadro para si e o joga contra a janela ( o apartamento fica no sétimo andar).

“ Porra!” grita Isabelle.

“ Meu deus, que merda que você tá fazendo?” Pergunta Fernanda, que retoma consciência da situação e sai de sua transe. Ela caminha até Vitor e dá um tapa na sua cara. Triste, ele desconta seus sentimentos na parede, rasgando sua mão esquerda. Sangue escorrem por ambas suas mãos, Isabelle chora de raiva, observando a janela quebrada e seu quadro rasgado no chão chuvoso. Fernanda vai à cozinha e toma um copo d’água gelada, nervosa, toma outro.

“ Você estragou meu trabalho de um mês!” grita Isabelle para Vitor, que agora observa suas mãos, sentado chão.

“ Você estragou o sentimento de um anjo” responde cabisbaixo.

“ Ela não é minha namorada, mal é amante. Nunca quis nada sério comigo” diz Fernanda, calma.

“ Ah, lá vem você com essa caretice de novo…” responde Isabelle, ainda com tom de voz alterado.

“ Todos aqui já estamos nos nossos trinta. Somos meio velhinhos para brincar de pega-pega, não? Cansei de pessoas que não querem nada com nada.” Reclama Fernanda, cabisbaixa e sentando-se ao lado do Vitor, que apoia sua cabeça em seu colo.

“ Vocês são loucos. Vou sair desse hospício antes que destruam mais alguma coisa minha. “ ela pega sua bolsa e caminha à porta. Antes de tirar a cadeira do lugar, olha mais uma vez para o antigo casal sentado no chão e diz “sinto pena de vocês, caretas apaixonados. “

Vitor se levanta, caminha à Isabelle, mais uma vez, abre a boca para falar e… vomita nela. Tonto ele cai contra a parede, sujando-a de sangue.

“Porra!” O prédio inteiro consegue ouvir seu grito de raiva e nojo. Enjoada, corre ao banheiro, onde se tranca, dando de ouvir apenas o barulho do chuveiro.

A campainha toca novamente, Fernanda fica apreensiva.Cansada e triste, caminha à porta, retira a cadeira e ao abri-la, dá de cara com o primo de Vitor. “ Olá, Felipe. Quanto tempo?” nas pontas dos pés abraça-o, Felipe tem 1,90 de altura e ela 1,56, com saudades.

“ Vim buscar essa criatura, aí no seu chão.” aponta para Vitor, caído.

“ Como vai o restaurante?” pergunta, genuinamente curiosa.

“ Faliu.” responde rindo.

Um raio cai a 10 metros do prédio, o trovão vem junto, quase instantaneamente. A rua inteira fica sem luz. Do banheiro, Isabelle grita “ Porra! Essa porra ficou gelada, caralho!”

“ Só o que me faltava” murmura Fernanda.

“ Sua namorada?” Pergunta Felipe.

“ Não. E, cada vez mais eu agradeço por isso.”

Em menos de 3 minutos, Isabelle sai do banheiro, com uma toalha enrolada nos peitos. Ela caminha ao quarto e em menos de 2 minutos, sai vestida com uma tomara que caia preto, da Fernanda. Seus seios são consideravelmente maiores que os de Fernanda, ficando claramente apertados na roupa.

“ Um dia te devolvo ele. Ou não, tais me devendo essa mesmo.” por fim, atravessa a porta para nunca mais voltar.

“Nem gostava daquela roupa mesmo.” murmura com ironia. “ Lipe, podes tirar o Vitor daqui logo?”

“ Sem problemas.” ele pega Vitor, que dorme no chão, pelo braço direito e o carrega para fora do apartamento, rumo ao corredor igualmente escuro.

“ Eu te amo.” murmura o bêbado. Fernanda e Felipe conversam algo que ele não consegue entender.

“ Adeus” responde ela, fechando a porta com tristeza e raiva.

No dia seguinte, Vitor acorda no sofá do apartamento que eles alugaram. Lembra-se de tudo o que acontecera na noite passada. Observa suas mãos com ataduras. “Felipe?”” ele grita.

“ Eaí, bêbado?” Responde Felipe, vindo da cozinha, já são 11 horas.

“ Obrigado.” diz carinhosamente.

“ Nada. Já imaginava que as nossas férias em São Paulo era por isso. Enfim, vou tomar um banho na piscina no prédio.” antes que Vitor possa responder, Felipe atravessa a porta e segue rumo ao seu nado matinal. Cerca de 5 minutos depois a campainha toca.

“ Esqueceu a chave?” pergunta Vitor, caminhando lentamente à porta. Ele a abre, desatento. É ela, Fernanda, que entra devastando qualquer sorriso de seu rosto.

“ Que merda foi aquela ontem?” Pergunta ao mesmo tempo que dá um tapa na cara de Vitor.

“ Porra! Eu to com dor de cabeça!” Grita triste e surpreso. “ Foi… sei lá. Antes de ir embora em Minas, me deu seu endereço…”

“ Esperei você por 1 ano. Não era para demorar 2 anos e chegar na minha vida como se eu fosse sua propriedade!” diz, chegando cada vez mais perto de Vitor.

“ Desculpe, ok? Eu demorei para perceber que… que era o certo.” diz, evitando olhar em seus olhos.

“ Eu te odeio tan…” é interrompida por um beijo violento, que desmonta sua pose.

Ela se joga em seu colo e prende suas pernas em torno de sua cintura. A mão dele sobe por sua blusa e tira o sutiã. De repente, estão na cama, retirando de seus corpos qualquer sinal de saudade. Molhando os lençóis com suor e gozo. Um amor abastecido com sangue, suor, cachaça e gozo.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.