AVISO. ESSE TEXTO É IRÔNICO E SATÍRICO. NADA AQUI É REAL. TUDO TEM SEU PORQUÊ. ASSUNTO SENSÍVEL.

Vermelho é a cor mais quente

Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência


Essa é a história de como eu me tornei presidente do Brasil. Fui para a cidade maravilhosa que é Floripa arranjar umas fodinhas e, eventualmente, estudar Educação Física. Meio às praias e festas universitárias, aprendi uma lição valiosa: lixo não se leva sozinho.

Cresci sem lavar uma louça sequer, nunca levei meu lixo e até hoje não sei o significado de centrifugar. Logo, não é de se surpreender que meu apartamento, no qual morava sozinho, fedia mais que pé de atleta. Sinceramente, sinto muita falta da Rosana, a empregada. Digo, a melhor empregada que minha família já teve. Aquela mulher era quase uma segunda mãe. Ela nunca me deixaria acumular lixo num canto da cozinha por mais de dois meses.

Porém, numa sexta feira, dois de setembro, tudo mudou. Nesse dia, eu pretendia receber uma cocotinha para jantar (entenda como quiser). Eu tava cansado das meninas sempre recuando ao entrar no meu apartamento com cheiro de feto. Decidi então dar aquela geral, leia-se: levar o lixo. E cara, não tinha sacola que pudesse segurar tanta tralha. Puta que pariu! Provável que tivesse umas cinco toneladas de lixo ali.

Comecei a limpeza às duas da tarde, terminando de separar o lixo todo lá pelas seis e meia. Tinha algumas horas livres ainda — a gata só ia chegar às onze da noite. Eu só tinha que descer as dezenas de sacolas até a lixeira do prédio, tomar um banho e cozinhar alguma coisa chique que, na verdade, eu acabaria comprando em um restaurante qualquer da minha rua — morava na Mauro Ramos, uma ruazinha no Centro da cidade. Ao invés de seguir essa perfeita e lógica lista de afazeres, tirei um cochilo de duas horas.

Acordei babando no meu pijama vermelho. Quando notei que já havia escurecido, optei pela decisão mais corajosa e não olhei o relógio. Catei um carrinho de compras roubado do Big, pus o lixo e desci para a lixeira do prédio que fica do lado de fora do muro. Me surpreendi ao ver a rua cheia de pessoas com máscaras, levantando bandeiras vermelhas e gritando que um tal de Temer (hoje sei quem é ele) tinha que cair fora. “Coitado desse cara”, eu pensava.

Não liguei muito, apenas fui pondo sacola a sacola dentro daquela vala fedidona. Na metade do caminho daquela tarefa árdua, algo estranho aconteceu. Um puta som agudo tomou conta da rua. Fiquei tonto, sem saber o que fazer. Meu ouvido zunia. Finalmente entendi o que era ser um soldado no Call of Duty.

Fiquei parado, incrédulo com toda aquela cena. Só conseguia focar no som das pessoas gritando de medo. Vagabundo é foda, grita por qualquer coisa, eu pensava. Ouvi um pequeno estalo e quando olhei para o chão, uma granada de gás lacrimogêneo caiu ao lado do meu carrinho. Nossa, aquilo sim é dor. Em menos de meio minuto meus olhos começaram a arder e minha garganta a coçar e secar como boceta das cocotas que já tentaram entrar no meu apê.

A fumaça branca sumiu em uns cinco minutos, mas o efeito durou quinze. Acredite se quiser, eu ainda não havia saído do lugar. Ouvi um grito grosseiro vindo do horizonte “comunista!”. Era um policial todo de preto da tropa de choque, que olhava fixamente para mim. Seus colegas apontavam as armas na minha direção e se aproximavam lentamente. Fiquei assustado e joguei uma pedra neles. “Vermelho nojento!”, gritou novamente. Jogaram mais uma granada de gás sobre mim, porém, consegui chutá-la contra os policiais quando ela ainda se encontrava no ar.

Os caras não aceitaram minha atitude bem, começaram a atirar balas de borracha contra mim. Estavam em cinco e mesmo assim não me acertavam. Lentamente, as pessoas foram parando de correr para observar o que muitos diziam ser falta de mira deles, enquanto alguns acreditavam ser sorte minha. Não sei dizer o que era, só que ao fim do primeiro round, nenhuma borracha chegou até mim. Até tentaram jogar mais uma granada, mas meus chutes continuavam perfeitos. Eu havia atingido um alto nível ninja.

Os policiais recuaram para uma rua vazia. Os manifestantes me cercaram, diziam que eu era um gênio guerrilheiro. Não conseguia nem responder, estava com sede e pressa, não queria perder minha fodinha.

Porém, a loucura voltou a tomar conta da minha noite. Os policiais voltaram com a cavalaria. Oito homenrrões montados em cavalos que só sabiam cagar em todo lugar que passavam. “O comunista!” gritavam pela milionésima vez. As pessoas, para minha surpresa, fizeram uma barreira entre eu e os homi. Estavam ali uns 100 militantes protegendo um desconhecido que sequer sabia quem é Temer. Não tinha bomba de fumaça que pudesse separar aquelas pessoas.

A minha contemplação daquele momento foi interrompida por um asiático meio nerd.

“Hey, cara. Você tá que tá hein… não tá afim de se juntar às Guerrilhas Populares?”

Estranhei e continuei em silêncio.

“Que foi? Tá todo mundo se juntando, bora.”

A essa altura, eu já tava começando a notar que ele vestia sobretudo.

“Então… eu meio que tenho pressa, não tem como eu me juntar a essa coisa aí outra hora não?”, respondi.

“Qualé? Tem momento melhor pra isso que agora? Bora cara, tá todo mundo se juntando. Pelo menos uns minutinhos, vai.”

Fiquei um tanto receoso, mas já tava enjoado de ver aquelas pessoas levando pau da PM por minha causa, coisa sem graça. Segui o nerd asiático e percebi que estava sendo levado pra um bar. Não lembro o nome do lugar, mas lembro bem que todo mundo ali presente vestia a camiseta das Guerrilhas Populares. As paredes do bar eram a prova de som, só podia ser, afinal, não era possível ouvir os gritos dos trouxas lá fora.

Demorei a perceber, mas, na verdade, eu não sabia o que eram as Guerrilhas Populares. Olhei aquelas pessoas se divertindo. Perguntei o que eram, o nerd asiático respondeu “nós somos um grupo político.”

“De que tipo?”

“Popular”, respondeu, voltando ao seu copo de cerveja.

Como eu sempre gostei muito de ser popular, decidi entrar no grupo. Na época eu não tinha entendido o que queria dizer, achava que eles se davam bem nas festinhas e comiam as cocotas. Inclusive, achei bem estranho aquele pessoal espinhento ser tão popular ao ponto de ter camisetas com o nome do grupo. Mas, né?

Chamei o nerd asiático,“ok, quero fazer parte dessa coisa aí”.

“Perfeito! Você vai ser nosso presidente.” Ele estava bem animado.

“Como assim?”

‘ “Você não viu como se saiu lá fora? As pessoas te adoram! Nem se preocupe, é um trabalho bem fácil. Basta ir em umas reuniões, tirar umas fotos e Bum! Temos um garoto propaganda.”

Não vou mentir. A ideia de fazer propaganda me atraia muito. Pensei que ia virar o novo Cauã Reymond em comerciais das Havaianas. Bem, vida que segue.

Não sei dizer o que se passou no resto da noite. Dei um P.T. tão forte que a única lembrança depois dessa conversa é de alguém falando que vermelho é a cor mais quente. Verdade seja dita, retomei consciência era segunda feira no banco do passageiro de um carro. Na minha mão direita, uma garrafa de vodka quase no fim, na esquerda, um baseado da grossura do meu dedão. O nerd asiático tava no volante, era de noite e ele dirigia rumo ao Centro da cidade de novo.

Ao descer do carro, me deparei com uma multidão duas vezes maior que sexta feira. Porém, o surpreendente era que todos vestiam pijamas vermelhos assim como eu, que mantinha a mesma vestimenta desde então. Lentamente as pessoas me reconheceram e quando me dei por conta, um caminho se abriu entre elas. Tive que caminhar por um corredor de gente que terminava em uma barreira da PM. De repente, me senti Noé ou Moisés. Sei lá.

Pelo o que fiquei sabendo, foram policiais de todo o estado. Estavam com medo, podia ver em seus olhos. Brincadeira, alguns estavam com raiva mesmo. O capitão Vital, responsável por toda a operação, se aproximou de mim, “tão rapaz, hoje não vai ter folga não. Seus robozinhos vão se foder. Aqui não é terra de vagabundo não”.

“Concordo plenamente com o senhor. Mas o que eu tenho com isso mesmo?”

“ Só o que me faltava, ainda por cima é irônico.”

Eu tava confuso, muito confuso, até lembrar que eu era o líder de uns caras populares lá. Olhei por cima do ombro do oficial e vi um outdoor com a minha imagem. Nele, os dizeres “JUNTE-SE À CAUSA. SEJA POPULAR VOCÊ TAMBÉM! VERMELHO É A COR MAIS QUENTES. GUERRILHAS POPULARES.”

Fiquei bem puto quando vi a foto. Usaram meu perfil esquerdo, sendo que o direito é o melhor, não aparece tanto que o meu nariz é torto.

Enquanto eu refletia sobre o outdoor, o capitão gritava e cuspia na minha cara. Cuspia tanto quando falava, que me senti obrigado a por a mão na boca dele. Ficou muito irritado. Me empurrou e ordenou que os caras descessem o cacete no pessoal.

Não adiantou. Negada apanhava forte, mas não se mexia. Eles eram muito resistentes, nossa, se eram. Não podia ficar ali parado, né? Subi num caminhão e fiz o que me coração mandou. Mijei em todos os policiais que passavam por mim. As pessoas gritavam meu nome, criaram até gritos de guerra com meu sobrenome. Quanto mais eu mijava, mais as pessoas — não fardadas — me adoravam. Inclusive, alguns black blocs começaram a mijar também. Admito que, lembrando disso agora, até me dá uma peninha dos poliça.

Os caras, entretanto, não deixaram barato e mandaram os bombeiros jogarem um puta de um jatão d’água na gente. Antes que eu pudesse fazer algo, o nerd asiático apareceu para me puxar pelo braço e guiar até algum lugar seguro. É nosso plano salva-vidas, ele dizia.

Em questão de dois minutos, estávamos no bar novamente. Dei outro PT.

Pra ser sincero, isso se repetiu por muito tempo. A única coisa que mudou foi que as Guerrilhas se expandiu e, de repente, estávamos viajando o país todo. Mijo aqui. Mijo ali. Pijama vermelho? Até as criancinhas usavam para ir ao shopping. Em questão de meses, o país inteiro estava domado pela febre do pijama vermelho e do mijo em PMs e figuras de autoridade em geral.

O ápice do meu sucesso pré presidência foi quando fui entrevistado pela Fátima Bernardes. O programa tava tematizado no look vermelho nas manifestações. Foi uma loucura, a Fátima até experimentou um pijama no final. Sérgio Malandro tava lá também. Seu intuito era apresentar sua nova carreira: músico de rodeio. Ele terminou cantando Bruno e Marrone em ritmo de “Bate a Mão e Bate o Pé”. Porra, que dia aleatório.

O ano de 2017 começou comigo na capa da revista Time, como o homem mais influente do mundo. E, enquanto minha carreira de celebridade crescia, a do Temer, que eventualmente descobri quem era, ia de mal a pior. Teve até um dia em que umas 20 mil pessoas invadiram a casa do velho pra mijar lá dentro.

A Guerrilhas aproveitou o momento e se oficializou como um partido político. O slogan “vermelho é a cor mais quente” tava mais forte do que nunca. Os caras tavam ganhando tanto dinheiro que até marca de pijama vermelho criaram. A parte boa é que 20% das vendas ia para mim, a parte ruim é que… não tem parte ruim, esquece. Continuemos.

Um dia, o Temer me chamou para um debate ao vivo. Eu fiquei meio temeroso, perguntei ao nerd asiático se ele entendi o porquê daquilo, já que eu nem era candidato a presidente ou algo assim. Ele olhou nos meus olhos, “cara, você é o nosso candidato.”

“Como assim? As eleições não são ano que vem?”

“Não. As ‘diretas já’ funcionaram. Você não viu a notícia?”

“Não vejo notícia há alguns dias.”

“Alguns dias quanto? Dois meses?”

“O que?! Que mês é esse?”

“A gente tá em Julho.”

“Droga. Não fiz minha rematrícula.”

“Cara, foco.”

“Tá, beleza, mas não tem idade mínima pra ser presidente?”

Ele me olhou com malícia e disse que já haviam resolvido isso, me entregando uma certidão de nascimento falsa. Agora, eu tinha 60 anos e meu cirurgião plástico era muito bom. Doctor Ray Hollywood tomou a fama pra si.

Não quero entrar nas nuances do debate, mas digamos que houve mijo pra caralho e que eu comi a Marcela Temer ao vivo.

Bem, o público foi à loucura. Virei presidente do Brasil. Sabe, nós fizemos coligação com o PMDB, PSDB e até com o PP e, mesmo assim, meu único arrependimento, único na vida, é: não ter levado o lixo inteiro. Aquela merda deve estar fedendo a frente do meu prédio todo.

Mentira, tenho outro arrependimento. Esse lance de mijar não me deu muito certo pra minha vida sexual. Toda mina que me aparece quer um golden shower. Meu deus, não aguento mais chuva dourada.

Ao menos, eu posso ficar usando pijama pra sempre, isso é até que bem legal. Só não sou tão fã do vermelho.


Um texto sobre o que há de errado com a esquerda e com a direita brasileira.