Até onde desconstruir
Vivemos na era das desconstruções. Desconstroem-se tabus, conceitos, ideias. Antigos preconceitos — de vez em quando, com um ou outro. Desconstruímos quem somos diariamente. Paradoxos, dicotomias, certezas, verdades, mentiras e limites: desconstruídos. A desconstrução chegou ao “isso é relativo” e até ao “essa é minha opinião”. Hoje discutimos, podemos discutir, queremos discutir. Discordar não é mais suficiente, concordar é quase sempre imbecilidade, um ponto comum não satisfaz, uma diferença muito menos. É um dos chamados fenômenos da sociedade moderna: vamos destruir tudo que há de arcaico em nós e nos que rodeiam. O que é velho não serve mais a juventude.
Este é obviamente um ponto de vista de quem vive diariamente as desconstruções. ‘Desconstruir’, o nosso atual verbo preferido — empate com ‘problematizar’, devo dizer. Mas a pergunta que permeia minhas noites de sono tem sido “até onde desconstruir”? O que seria, na verdade, desconstruir? O dicionário responde essa: destruir, desfazer. Mas a definição mais importante, com certeza, deveria ser “desfazer para reconstruir”. E é a única coisa que não fazemos. Sim, desconstruímos vários primitivismos e velhos vícios sociais. Antes o que era condenável com pedras por uma sociedade, hoje é condenável por meia. A humanidade viveu sempre no “certo ou errado”, que hoje se transformou no “cada um faz o que achar melhor”. Claro, sem redundâncias ou comemorações: a sociedade, a nossa sociedade principalmente, ainda é vigida por um pensamento extremamente moralista e conservador. Mas repito: pra cada “bandido bom é bandido morto”, temos alguém citando Paulo Freire. Enaltecemos essa singela melhora.
De qualquer forma, ao se desconstruir algo, espera-se que algo seja construído no lugar. Funciona para um teto tão bem quanto para uma ideia. Mas e quando a construção não ocorre? Quando nos transformamos apenas em várias e várias ideias soltas, que antes eram um pensamento e hoje não são nenhum? Eis a síndrome dos textos sagrados: a livre (e má) interpretação. Do que adianta derrubar sem levantar? Do que adiantam conceitos sem significado, literalmente desconstruídos? Nada. Absolutamente nada. E, recorremos a filosofia, sabendo que nada é nada e isso é tudo, com o que somos deixados? Ideias que entendemos como queremos, sem um ponto em comum de concordância ou significado? Isso é um perigo. Ideias soltas que nada representam não representam nada além de nada: o que é tudo. E se tudo significa nada, qual o sentido da desconstrução?
Que haja responsabilidade para que sejam desfeitas ideias. Desconstruir não é suficiente, é como começar algo e não terminar. Não devemos nem pensar em desconstruções e sim em ressignificações. Um novo significado para uma ideia que hoje não se aplica mais. Deixemos de transformar o passado em nada e transformemos o hoje em tudo. Quando nos livramos do significado das ideias, elas se tornam obsoletas, sem serviço. Não atendem a ninguém quando querem atingir uma sociedade inteira. Mudar velhos conceitos é necessário. Mas destruí-los não é o caminho. Veja bem, ‘ressignificação’ é um termo próprio da neurolinguística, que conceitua a experiência de atribuir um novo significado a acontecimentos através da mudança de sua visão de mundo, o que obviamente soa muito melhor que desfazer uma experiência prévia em função de uma mudança de visão de mundo. Por isso, recorremos ao bom senso: desconstruir não é o caminho, não nos serve a longo tempo e ainda pode por acabar a adicionar criacionismos indigestos. Não demos continuidade às eternas más interpretações de ideias que nos assolam há tempos; aproveitemos o tempo de mudança e ressignifiquemos o desconstruir, para que então o nada seja um tudo sobre o qual podemos sempre debater e nunca encerrar o processo.