Que horas ela volta?

Tulio Rodrigues
Jan 12, 2016 · 3 min read

Eu vi o filme “Que horas ela volta?” ano passado no cinema. Sessão normal, sala nem cheia nem vazia, mas nada que caracterizasse um fracasso ou sucesso do filme seja de critica ou de público. Aliás, naquele momento o filme não teve uma imensa repercussão.

Achei o filme simples, mas bem escrito e dirigido. Uma história do nosso cotidiano e que mostra o preconceito social velado que ainda predomina na sociedade, um preconceito que se esconde lá no quartinho de empregada e é “glamourisado” na sala de estar da patroa que apresenta as “Vals” de nossas vidas como “Ela é praticamente da família”.

Hoje quando o filme começou a ser exibido na Rede Globo, eu no Twitter disse o seguinte:

Mas após rever o drama, entendo um pouco do porquê disso. Parte daquela história me é real, vivi um pouco daquilo, mas em menos proporções. Diferente de Val, minha mãe nunca precisou sair de sua cidade e partir pra outro estado trabalhar, mas minha mãe, talvez tenha deixado a si mesma para num primeiro momento batalhar pela sobrevivência dos seus filhos. Sim, minha mãe já foi empregada doméstica, acompanhante de idosos e dormiu em muitos quartinhos de empregadas!

Não tenho vergonha de escrever sobre isso, é minha história, a nossa história. E muitas vezes gestos como esse, me mostraram que eu deveria trabalhar honestamente e que qualquer outra forma era errado. Claro que nunca necessitei ir morar com minha mãe no seu local de trabalho e passar pela situação que Val e Jéssica passaram.

Não sei se minha mãe passou por esse tipo de preconceito ou se “Ela foi praticamente da família” de alguém. Nunca conversamos sobre isso. Ela viu o filme outro dia, mas sempre se mostrou interessada nos direitos trabalhistas das empregadas domésticas. As pessoas muitas vezes passam por questões na vida não por quererem, mas por necessitarem e Val se sujeitava a certas coisas por necessidade.

Uma coisa que o filme mostra é que não há condição social que compre sentimentos, o que nos eleva é o sentimento, é o amor… Isso Val dava ao Fabinho, filho da patroa que só percebeu que o filho tinha em Val o que ele não teve com ela muito tardiamente e compensou esse hiato mandando o filho pra Austrália fazer intercâmbio. O mandando pra mais longe! Dela!

Val faz o oposto! Como quem pede sua carta de alforria, ela pede demissão e vai morar com a filha. Vai ficar mais perto e dar o amor que ficou ausente por 10 anos entre ela e sua filha que se perguntava “Que horas ela volta?” quando Val sai em busca de algo melhor pra vida.

Mesmo com todo glamour, dinheiro, sofisticação, aquela família rica era desestruturada, vazia, calcada em falsos valores morais, sociais e sentimentais.

Voltando a minha mãe, o orgulho que tenho dela não tem tamanho! Ela é sensacional! Ela sempre voltou! Sempre! Se ela teve que passar por muitas coisas que mostram no filme, mais ainda me orgulho, pois sei que ela colocou a necessidade e a felicidade de seus filhos sempre a frente dela, e de suas vaidades!

O filme é grande! É denso! É verdadeiro! Por isso a grande repercussão lá fora em diversos países na América Latina e na Europa. Dizem que ele deveria ter sido indicado ao Oscar, não sei, mas afirmo que Regina Casé é gigante no seu papel, na nossa Val! É a nossa história de cada dia! Por ser uma rotina é banal quando ganha grande produção, mas é profundo dentro da gente.

O que cabe num quartinho é talvez muito grande para uma sala de estar! O amor é tão inexplicável que ele não tem glamour, condição social, cor, mas é de um valor inestimável para quem tem!

Tulio Rodrigues

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Poeta, blogueiro, flamengo, trovador, sonetista, cronista, ateu, fundador e colunista do @blogserflamengo. www.poetatulio.com.br