p o é t i c a M u n d i.
Nov 6 · 4 min read

Carta Romântica.

Meu amor,
Gostaria de escrever isso com tinta preta e fina.
De tanto procurar embebedar-me de conhecimento para solucionar as questões que outrora não sabia resolver, amontoei-me intelectualmente com a teoria de tudo, incluindo o pedaço em mim que produzia-me o romance da poesia, permitindo corroer-me de amor, contemplando a madrugada sofrida do poeta que sabe -como ninguém- inventar as mais belas dores de amores, que tanto alimentam a arte de chorar a melancolia. Que tanto permitia abrir essa toca derradeira de emoções que sinto, como uma dor carinhosa e singela.
Fui abduzida pela paranóia de compreender tudo, e hoje é preciso fazer sentido para ser sentido. Não mais consigo rasgar-me deliciosamente de tanto sentir-e deixar sentir-aquele desespero imaturo que o drama romântico me proporciona e que tão prazerosamente o sinto e o incendeio para que se transforme em arte.
Ah! Como eu gostaria de ser segura de mim ao ponto de enrolar meus dedos em teus mínimos detalhes, em suas dores. Vale ressaltar que estou te passando de graça nesta montanha emocionalmente analítica porque eu sei que sua sensibilidade será lógicamente ativada com esta maldita carta.

Abençoada seja toda e cada lágima que derrubei por nosso amor hoje, meu bem. Foi um deleite. A chuva estava nos planos também, aposto.

Mas… isso não faz o menor sentido. Sofrer de amor não faz sentido.

E, de repente, sou arrastada ao abismo existencial, no vale do paradoxo, que tenho o hábito de cair. E eu juro para você que esta é uma carta de amor.
Recordo da sensação assustadora que senti quando veio-me à mente teu beijo, pela primeira vez. Eu sofri. Sofri porque não era lógico te querer, mas eu queria.
Quando a noite e o sereno brincaram conosco, nos escondemos nos lençóis de minha cama, e novamente, nada fazia sentido. Mas não há como negar que senti. Ainda sinto o tremor que você causou em minhas pernas aquela madrugada. Eu ainda sei qual é o teu cheiro quando fecho os olhos sem que niguém esteja olhando, na intenção de materializar o “você” que existe na minha cabeça. Eu ainda lembro do seu gosto. Eu te senti, mesmo não fazendo sentido.
Mas todo orvalho seca com o despertar o sol, que obriga a natureza a firmar e se enrijecer para que o dia se torne suportável. Gastei um maço inteiro escrevendo estas linhas. E eu choro, amor. Choro muito, por não conseguir largar a razão. Eu me esforcei para me desintoxicar do ultrarromantismo que me acolheu em outros tempos, e agora percebo que tudo o que fiz foi adormecer minha identidade. Deixei de ser poeta porque deixei de sentir a dor livremente. E não há poeta sem dor. Mas isso foi até você chegar.
Que falta me fazia morrer de amor e renascer com a sensibilidade apurada.

Nem as cartas me dizem mais sobre você. Por que você começou a fazer sentido para mim, e isso aruinou tudo. Oscar Wilde escreveu uma vez que “A beleza da arte vai até as margens do intelectualismo. Conceituar o belo é tirar a metalinguagem da beleza. É belo porque é belo, e isso basta.” Seria assim ao amar-te também?
Eu já entendi o papel que tens em minhas páginas e já entendi minha escrita em tuas linhas, mas eis um segredo: não quero ir embora. Não quero que te transformes em um aprendizado, ainda. Não quero usar do discernimento e não quero montar uma teoria sobre o que fomos.
Eu quero perder a noção das significações e coerências e apenas sentir você.

Como na noite em que entreguei a ti tudo que há de mais valioso no plano terreno: meu corpo e meu amor. Você é um homem sofrido e bom, mas te falta intensidade (menos na cama). Quando amanhece, você me coloca em uma caixinha de deveres cumpridos. Você me racionaliza, que nem eu costumava fazer. E eu não quero isso
Foda-se os bons costumes!
Eu quero amar forte!

Quero que você venha me ver. Que rompa teus padrões e tua rotina. Que me escreva. Que me desenhe com teus dedos na areia da praia. Que pense em mim, não como um tópico dentro de tua lista, mas como algo que te instiga a rasgar essa porra de lista e correr para onde te espero, também. Viver o momento da paixão. Mesmo que venha a rebordosa. Eu costumava ter medo dessa palavra, mas hoje me sinto mais viva com ela. As pessoas conseguem se apaixonar e continuar vivendo, e eu vivo pela paixão e por isso escrevo!

Almejo ver você se derramar em mim, como estou fazendo agora. Quero que se lambuze do nosso universo particular, sem se importar com o que vão pensar. Não quero ser a última tarefa do teu dia e muito menos o teu lazer. Quero ser o que você deseja, e desejar é sentir fazendo sentido.

Você é a poesia que deixei pela metade porque não consegui acompanhar minha própria linha de raciocínio. A parte da música que me seguro para não chorar. Para de procurar sentindo em mim, meu bem. Sinta-me.

    p o é t i c a M u n d i.

    Written by

    Mulheres fortes, literalmente poesia. Poéticamente literário. Profundamente sentimental. A parte legal da aula de Literatura.

    Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
    Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
    Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade