Os beijos que não dei

História 2. Lucy o que ? Meu nome é Camila. Parte 2.

Continuando …

Lembro como se fosse hoje o momento em que Sandra me apresentou Tom. Haviam muitos alunos de outros colégios (como eu) visitando a feira. No cantinho da sala em que estávamos, ao lado da porta, tinha um Mini System (rádio gravador) daqueles que rodava FITA CASSETE. Na ocasião em que Sandra segurou Tom pelo braço e pediu para me apresentar (como se isso fosse a coisa mais discreta e normal do mundo) tocava Quando a Gente Ama dos Travessos que acabou se tornando a primeira música da nossa trilha sonora. (Ps: ele nunca soube que “nós” tínhamos uma trilha sonora”. Na verdade nunca houve nós além de na minha mente. )

PAUSA PARA UMA OBSERVAÇÃO

Poderia resumir a história dizendo que me fudi, como sempre, afinal já da para deduzir o enredo de um amor cuja trilha sonora começa com os Travessos. Não pode significar outra coisa além de TRAGÉDIA.

A verdade é que minha memória é muito boa. (para meu desespero). Se fechar os olhos agora, consigo lembrar o corte de cabelo de Tom naquele dia, a corrente de prata que usava e o timbre roco de sua voz.

Depois de apresentados ( eu ja estava bem satisfeita com os dois beijinhos no rosto e isso era o mais perto que eu chegava dos garotos) cada um foi para seu canto. Retornei para a escola e para vida normal completamente insadecida por Tom. E foi assim que começou a minha trajetória como stalker profissional.

Hoje, com internet, facebook, instagram , etc , é muito fácil para qualquer um da geração Nutella descobrir sobre a vida do crush. Puxado mesmo era ser stalker raíz e fazer isso na década de 90 , principalmente se tratando de mim, uma garota cujo único lugar que frequentava além da própria casa era a escola. Nessa época a gente trabalhava com INFORMANTES. E nesse sentido Sandra que fazia Ensino Médio cientifico comigo e estudava contabilidade com Tom , me deixava atualizada sobre tudo relacionada a ele.

E eu fiquei boa na coisa. Em pouco tempo já sabia onde ele morava( bairro rua, numero da casa), o nome completo dele e dos pais, o número do telefone, a data de aniversário. Você não sabe do que é capaz até ter um informante e LISTA TELEFÔNICA da TELEMAR nas mãos.

O desafio depois de colher tantas informações era saber usá-las de maneira sagaz (quase caguei de rir. se até hoje não sou sagaz imagina com 16 anos)e ter dinheiro pra comprar cartão telefônico. Sinceramente não sei onde achei tanto cartão na vida. Nera mais fácil agir naturalmente, como uma adolescente normal, filar umas aulas,passar uns gloss de morango da Avon e ir com Sandra como quem não queria nada no colégio de Tom e jogar a real? Ou marcar um encontro ? Talvez. Mas é meio difícil fazer isso com autoestima zero.

Então, o que sobrou de opção para mim? Investir em uma paquera telefônica. Até pra falar com Tom por telefone eu criei um pseudônimo porque não suportava a ideia dele me descobrir (o que aconteceu de todo jeito) e me rejeitar por eu ser “feia”. Olha como a gente tem a cabeça fudida desde muito cedo. Percebem?

A primeira vez que liguei pra Tom, eu estava na escola. O orelhão ficava ao lado da secretaria e provavelmente todo mundo da gestão deve ter ouvido minha tentativa fracassada de estabelecer um diálogo. E foi assim, nesse desespero de não poder me identificar que Camila nasceu. Camila era a projeção do do desespero mais profundo e da ânsia de poder ser amada por Tom. Camila era minha zona de segurança, onde poderia ser eu mesmo em alma , a despeito da aparência.

Depois de Camila Tom não teve mais sossego. Eu ligava muitas vezes ao dia, mas na maioria delas era só para ouvir a sua voz e colocar uma musiquinha dos Travessos para ele ouvir. (quem nunca?), Nas outras vezes a gente conversava também. O nosso papo geralmente era sobre a escola, quem eu era de verdade, o que fazia. Tom tinha uma áurea muito levem e um quê de humor que eu gostava muito.

Nessa fase da vida conseguia me contentar com pouco .O flerte telefônico estava ótimo. Uma ou outra vez ia visitar Sandra na escola que Tom estudava ( dizia/mentia a minha mãe que ia na biblioteca)e quando ele passava do perto de mim, o mundo abaixo dos pés simplesmente sumia. Era uma paixão que chegava a doer. E doía mais ainda ele sequer dar uma olhadinha para mim. Olha que louca a vida. Você ali do lado esperando um único indicio de que o outro sabe que você existe . Foda.

Por isso eu precisava de Camila. Camila representava a possibilidade. Camila era a parte de mim que poderia se aproximar de Tom. Camila era a esperança , a ilusão que eu adorava nutrir. O tempo passou, a paixão aumentou, a pilha de cartões telefônicos aumentou, a trilha sonora aumentou (não necessariamente melhorou). Incluida na lista estava Belo, Sandy, Kelly Key, Rouge, Angélica (pode me julgar você tem esse direito). E tinha também musicas autorais que estão guardadas até hoje.

Se tem uma coisa que aprendi ao longo da minha vida amorosa desastrosa é que você não pode adiar porque a vida ela te fode na primeira oportunidade. E eu me fodi. Todo o meu sonho rosa de princesa sustentado pela figura de Camila foi atropelado. Acontece que a IURD aconteceu. Se eu já havia perdido para minha auto estima, já havida perdido para a covardia, já havia perdido para a sociedade que fazia acreditar que pessoas como eu não podiam ser amadas, veio a igreja do Titio Macedo e nocauteou todas as minhas possibilidades. ….

Continua na 3 e ultima parte. I promess ;)

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