Os beijos que não dei

História 1. Vou morrer de saudades ….

2004. Universitária. 21 anos. Duff do pavilhão de exatas. Senta na primeira cadeira. Metida a evangélica. Nutre uma paixão platônica de 5 anos pelo pastor da Iurd( Igreja Universal). Especialista em passar vergonha.

Se tivesse que me descrever na época que ingressei no mundo acadêmico, com uma palavra diria que fui corajosa. Claro! Apesar do histórico de preterimento e paixões não correspondidas de fazer inveja a qualquer protagonista nerd de filme colegial, eu não desistia.

Eu era a típica “feia” legal. O fato de ser engraçada e inteligente me salvou do fracasso completo. Resumindo: não era popular, ninguém me queria e logo não tinha propriedade nenhuma no quesito flertar, beijar ou se comportar de maneira normal a menos de 1 metro do Crush.

Aos 21 anos eu meio que não sabia ainda que era adulta. (Acho que continuo não sabendo). O fato é que com essa idade eu já podia ter um celular e com ele fazer cagadas mais modernas. Graças ao chip oi 31 anos tive a chance de chegar bem perto de ser uma garota normal e saber mais ou menos como é quase beijar um crush.

Como disse antes, eu era corajosa. E quando digo “corajosa” significa que desejava só o que estava bem distante do meu alcance, tipo para a queda ser maior. Dessa vez o tombamento foi de quase dois metros de altura. Depois de 5 anos de amor platônico e uma tentativa fracassada de me tornar obreira da Iurd pra casar com o pastorzinho, resolvi que ia gostar de outros boys.

O plano era bom. Poderia até ter dado certo se eu tivesse um pouco de auto-estima e semancol. Na faculdade estudava, sei lá, uns 500 boys, mas eu queria quem ? quem ? quem ? O jogador de basquete do pavilhão de ciências biológicas, no auge de seus 1,90m de pura melanina. Estilo NBA, sabe? Além de ser lindo, o Chocolate sabia tocar violão e cantar. Ou seje, o famoso koo virado pra lua.

O único problema era:

1. Todo mundo queria ele

2. Ele não sabia que eu existia

Como eu era uma pessoa bem loka das ideias, consegui os contatinhos do boy e finalmente dei uma utilidade a meu nokia 3310 ( já que eu só usava pra jogar snake) e em um domingo qualquer resolvi ligar — leia-se dar um toque pro cara e esperar ele retornar porque no caso quem tinha chip oi 31 anos era ele- .

Para minha surpresa o papo fluiu. A gente se falava todo dia e toda hora. Sempre que o celular tocava ( ceis lembra que a gente podia compor a música nesse celular que nem tinha som polifônico? ) eu meio que entrava em estado epiléptico. Me tremia toda. As vezes nem tínhamos mais o que conversar e só nos falávamos para matar a saudade e ouvir a voz um do outro mesmo. Rolou sentimento, mas eu não parei né porque aí não seria eu. Se não for pra me estabacar no chão eu nem me apaixono. E quem nunca namorou por telefone só lamento. Ceis nem podem me julgar.

O auge do meu romance telefônico aconteceu em uma madrugada. Depois de contar sua história, suas fragilidades, de trocar confidências, Chocolate começou a cantar pra mim com o seu barítono lindo: “Você, é algo assim, é tudo pra mim … não não…Lucy, vou morrer de saudades”. Claro que me borrei toda. O estômago tinha se autodigerido. Não eram mais borboletas que voavam em minha barriga. Estava mais pra dragões cuspindo fogo. Eram quase 5 da manhã e eu tive a certeza. Estava perdidamente apaixonada. A ponto de retribuir o carinho cantando Se de Djavan para Chocolate. (Djavan, perdoa eu por estragar sua música).

Estava tudo lindo e tudo certo se não fosse um pequeno detalhe: nos encontrarmos pessoalmente. Cada vez que Chocolate tocava no assunto eu dava uma de doida. Porque né, eu me achava a treva, meu histórico de decepções era infinito e eu nem conhecia a palavra empoderamento naquela época. Além dele ter comentado numa de nossas conversas que gostava de menina estilo patricinha. Na minha cabeça, era melhor curtir a fantasia do que estragar tudo com a realidade. Mas, como todo bom apaixonado fiquei completamente retardada e aceitei a proposta dele da gente se ver rapidamente no intervalo do culto.

Cuidado, aqui começam relatos fortes do meu vexame.

As minhas roupas de ir para igreja eram pavorosas. Se tivesse um imagem de Jesus pregado na cruz no altar naquele domingo, certamente ele estaria revirando os olhos por me ver em um estado tão catastrófico. Lembro que usei uma saia vermelha abaixo do joelho, estilo anos 20 e uma blusa branca que parecia uma safona toda cheia de dobrinhas. Meu cabelo estava amarrado em um coque bem mal feito (porque o mundo é uma bosta e faz a gente acreditar que cabelos crespos são feios e precisam ser alisados ou escondidos. ). Agora insira nessa imagem uma cara sem maquiagem. No máximo um gloss da Avon .

Conforme combinado, no meio do culto Chocolate ligou e ficou me esperando na esquina da rua. Ainda dava tempo correr. Mas eu acreditei que alguém poderia gostar de mim para além da aparência física. Afinal, a gente já havia se envolvido emocionalmente, nera? E eu fui. E lá estava ele, em pé. Um deus de ébano me aguardando. Tudo que lembro é que a gente se abraçou. Ele me conduziu até parte mais alta da calçada e ficou embaixo (imagina alguém com 1,50m perto de outro alguém com 1.90m)e nos abraçamos. E nesse momento esqueci meus medos, a insegurança com a aparência e todas as outras coisas que me travavam. Não deu tempo sequer de pensar em beijo. O abraço dele me bastava. Era tudo que importava.

Se fosse uma comédia romântica terminaria nessa cena.Seria perfeito.

Mas na vida real as cenas não congelam no melhor momento de nossas vidas. As cenas tem continuidade. E a vida segue. E pra meu desespero não houve um depois. Esse momento foi o máximo que consegui com Chocolate.

Como os amigos dele o esperava no carro a gente teve que se despedir logo e ele se foi. Voltei pra igreja naquela noite, depois pra casa com a sensação estranha de que não haveria depois. A quietude sentida durante o abraço transformou-se em uma espécie de angustia. No fundo eu sabia como essas coisas funcionavam. Primeiro as ligações diminuem e ele diz que é porque está muito ocupado até que não haja mais ligações. E foi o que aconteceu.

Nem preciso dizer que sofri. Que chorei. Que ouvi Tim Maia até desidratar a alma. Como na época eu não bebia álcool, me conformava com os litrão de coca na barraquinha de frente da faculdade . Na maioria das vezes eu filava aula de geometria espacial para ir chorar na quadra. Vira e mexe cometia o deslize de ligar pra ele com o número confidencial pra ouvir a voz até que um dia uma moça atendeu. Depois soube que ele estava namorando. Mais choro e ranger de dentes. Não é de se espantar que eu tinha apenas 40 kg nesse período.

Se você pensa que o sofrimento parou por aí você está enganado. Eu encontrava Chocolate praticamente todos os dias nos corredores da Universidade. Que é pra não esquecer. E nesses momentos a gente fingia que não se conhecia. O que me machucava mais. E continuou sendo assim até eu deixar de me importar.

O que quero dizer é : se eu pudesse voltar no tempo, viveria isso tudo de novo porque as decepções nos fortalece e porque sei que o rapaz em questão estava tão afetado pelos padrões sociais e estereótipos quanto eu. É tão cruel tudo isso, de maneira que as pessoas não se permitem amar quem esteja distante desse ideal imposto pela sociedade.

Se pudesse voltar no tempo, escolheria a noite que conheci Chocolate. Eu olharia para mim mesmo com 21 anos e deixaria um recadinho assim :

“Bicht, relaxa. Vai ter Salon Line para crespas , vai ter youtubers negras, vai ter miss Universo Negra, vai ter box braids colorida, vai ter empoderamento. Você é linda. Solte os cabelos. Se ame. Não se esconda. Mande os padrões sociais á merda. Vai ter facebook. Vai ter jornalismo. Vai ter cachaça. Você vai ser amada. Você vai aprender a escrever sobre suas dores. Você pode fazer outras meninas entenderem que não é o fim. Que a gente sobrevive aos amores que nos são negados.

A gente sobrevive a esse padrão social de beleza que fazem as meninas negras sofrerem tanto. Você não sabe disso ainda, o boy também não. Perdoe. Mas olha, se quiser tentar beija-lo durante aquele abraço, vai fundo. Afinal, o que é um peido pra quem já ta cagada? Agora, passa bem longe daquela saia vermelha e daquela blusinha do capeta. Volte a ouvir Tim Maia que ele não tem culpa de nada . Coloca um reboquinho na cara, um salto alto e confie em seu poder. Afinal, você é o poder pretinha. ”

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