Terapia com um Fantasma

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Duzentas páginas devoradas em poucas horas. Desespero de quem não sabe pedir nada, inclusive socorro. Por puro deboche da vida, somente os finados lhe escutaram no escuro da madrugada. E nas letras paridas há 30 e poucos anos, ela fez o seu divã, onde se deixou esvaziar sem medo de se sentir mais insana do que de costume. Aquelas palavas, ditas na crueza e loucura do homem que as imortalizaram, pareciam terem sido escritas em um instante de premonição, como se ele, há décadas atrás, soubesse que seriam necessárias a ela no futuro.

Através de uma brecha no espaço tempo, forjada por tinta e papel, um psiquiatra anarquista morto atendeu uma jovem paciente apavorada com a vida e consigo mesma.

Com a sabedoria e perícia dos que já não pertencem ao plano da existência material, e por isso mesmo despido de pretensões e urgências humanas, o ancião a ouvia pacientemente. Letra por letra. Quanto mais ela lia, mais falava de si. E mais se reconhecia nas cicatrizes que o velho possuía em seu espectro. Ao final da sessão podia jurar que ela mesma havia escrito com próprio punho e sangue aquelas páginas.

Soube então que não estava tão sozinha no mundo quanto imaginava. Sentiu-se aliviada ao ver o falecido psiquiatra lhe observar sorrindo, tal qual um mestre que cumpriu com excelência a missão de conduzir o aprendiz ao conhecimento.

Agora ela sabia. Tinha certeza. O livro que ele escreveu, aquele ensaio sobre sua existência no mundo, não era para ela ou para salvá-la de si mesma. Aqueles escritos era sobre ela. Porque de alguma maneira inexplicavelmente absurda, eles eram a mesma pessoa.