Dunkirk — Quando o cinema é fundamental

Zé Luiz Sykacz
Jul 27, 2017 · 7 min read

Em plena divulgação de seu longa, o drama de guerra baseado em fatos reais Dunkirk, o renomado diretor Christopher Nolan virou notícia mundo afora por declarações polêmicas sobre sua forma de enxergar o cinema. Sem papas na língua, o cineasta defendeu ferrenhamente em uma entrevista a importância de termos a experiência de assistir a um filme no cinema, e não na tela de uma TV. Sobrou até para a queridinha do momento Netflix, criticada por Nolan por lançar seus longas diretamente para o serviço de streaming sem necessariamente exibi-los na telona, uma conduta que, segundo ele, transforma as obras audiovisuais em algo que não é necessariamente digno de ser chamado de cinema. “Como cineasta meu único objetivo e compromisso é criar experiências que só podem ser vividas na sala de cinema”, afirmou o diretor, inflamando debates acalorados sobe o tema ao redor do mundo.

Particularmente não simpatizei muitos com as declarações de Nolan, um diretor que costumeiramente gosto muito. De meu humilde ponto de vista, esta era uma visão preconceituosa e um tanto exagerada. Há filmes feitos para que o ápice da experiência aconteça apenas diante de uma tela gigante do cinema? Sim, sem dúvidas. Mas isso não necessariamente faz com que todos os longas do mundo necessitem dela para fazer pleno sentido. Qualquer forma de tentar encaixar uma manifestação artística em um conceito muito “quadradinho” me parece mesquinha e míope.

Fato é que depois de ter comparecido a uma das pré-estreias brasileiras do longa Dunkirk escrito e dirigido por Christopher Nolan fui obrigado a rever meus conceitos. Sim, eu ainda penso que o diretor exagerou um pouco ao generalizar as diversas facetas que um longa metragem pode ter, mas ele definitivamente consegue provar em seu mais recente filme que há certas experiências cinematográficas, principalmente aquelas calcadas nos aspectos técnicos, que só farão pleno sentido diante de uma tela gigante. Mesmo!

Dunkirk conta uma história baseada em fatos reais ocorrida no início da Segunda Guerra, famosa para o povo inglês mas relativamente pouco conhecida ao redor do mundo. Cerca de 400 mil soldados britânicos estavam em solo francês quando se viram acuados por tropas nazistas na praia de uma cidadezinha que dá nome ao filme e fica ao norte do país. Sem condições de baterem de frente com as forças alemãs, eles precisavam ser evacuados rapidamente de volta para a Inglaterra para evitar um massacre. Com poucos recursos, e sob a mira constante de bombardeios inimigos, os ingleses deram início a “Operação Dinamo”, missão de resgate que visava salvar o maior número de homens da impiedosa mira nazista e que se tornou celebre na história do conflito.

O filme não perde muito tempo contextualizando a situação, e nos atira diretamente para o meio da batalha. Somos apresentados a três diferentes núcleos de personagens, cada um deles envolvido de alguma forma com o conflito e buscando sobreviver a todo custo. Logo de cara, nos primeiros segundos do longa, os estampidos secos e assustadores das balas nazistas ecoam na sala de cinema dando o tom exato do que iremos acompanhar ao longo daquelas duas próximas horas: o objetivo principal de Dunkirk é nos colocar dentro da guerra (Nolan chegou a dizer que gostaria de proporcionar uma “experiência de realidade virtual sem óculos”), de forma que cada som, cada disparo de arma, cada barulho ensurdecedor dos rasantes dados pelas aeronaves inimigas nos perturbe e nos oprima.

Aliás, eis logo de cara aquele que é para mim o grande destaque do longa de Christopher Nolan: o design de som. Poucos filmes usam tanto e tão bem este recurso para nos contar a história quanto Dunkirk. Os momentos de ação filmados com a costumeira qualidade e criatividade do cineasta são impressioantes, mas não teriam sequer uma fração do impacto que possuem se não fosse pela maneira intensa com que cada explosão chega aos ouvidos do público. Não era raro observar no cinema pessoas instintivamente se encolhendo nas poltronas diante dos sons impactantes que surgiam quando menos se esperava.

Outro mérito fundamental do filme é a excelente trilha sonora de Hans Zimmer, figurinha carimbada nos projetos de Nolan. A música evoca uma tensão constante, mesmo em cenas que sugerem uma aparente calmaria, algo que me lembrou bastante o tema do compositor para o personagem Coringa no longa “O Cavaleiro das Trevas” — também dirigido por Nolan. A música ajuda a construir um clima de tensão absoluta, que vai crescendo lenta e sistematicamente à medida que os personagens se veem diante do perigo, só saindo de cena para dar lugar às brutais explosões dos combates navais e aéreos.

Contando com pouquíssimos diálogos ao longo de 1h46 minutos de duração, não é exagero dizer que a trilha sonora de Zimmer é um personagem à parte dentro de Dunkirk, fazendo-se fundamental para evocar em nós a angústia constante do cerco promovido pelos nazistas.

Se o som do longa tem lugar de destaque, o mesmo pode ser dito do competente trabalho de Nolan na direção.

Costumeiramente criticado por não ser um dos diretores mais hábeis para conceber a geografia das cenas de ação que produz, o cineasta faz um bom trabalho aqui principalmente quando nos coloca o mais próximo possível do foco da ação. Quanto mais críticas e agudas as situações retratadas em tela vão se tornando, mais “dentro” delas ele põe seu público, seja no convés de um navio afundando, dentro do cockpit de um caça em combate ou mesmo em um tiroteio intenso dentro de um espaço fechado e apertado. Não são raros os momentos em que me peguei literalmente segurando o ar diante da “claustrofobia cinematográfica” promovida pelo diretor. Em contrapartida, Nolan também faz um bom trabalho ao nos apresentar a longos planos abertos dos cenários de combate retratando com competência não apenas o isolamento espacial daqueles soldados diante de suas opções de salvação, como também o clima cada vez mais desesperador de um perigo que mesmo quase invisível sempre se mostra próximo, principalmente quando observarmos na praia as longas e numerosas cortinas de fumaça no horizonte.

Aliás, este é um aspecto interessante do longa de Nolan, que se utiliza de um curioso recurso cinematográfico popularizado por Steven Spielberg no filme “Tubarão”, de 1975: embora sejam numerosos os momentos em que os soldados das tropas aliadas são atacados e bombardeados pelos nazistas nós nunca vemos de fato a “face do monstro”. Ouvimos e observamos o som e o estrago de seus tiros e explosões, mas jamais — salvo por uma cena curtíssima nos momentos finais do longa — vemos de fato o rosto dos alemães. Tal escolha é inteligente por transformar a ameaça enfrentada pelos ingleses ainda pior, já que desumaniza o inimigo e faz com que nos importemos ainda mais pelos soldados que podem ser atacados a qualquer momento. As tropas nazistas são quase como fantasmas que mesmo invisíveis fazem sua presença aterrorizante ser sentida o tempo todo, não permitindo que os personagens — e o público — tenham trégua do medo e da angústia que sentem. A fotografia dessaturada é outro evidente recurso visual usado para escancarar o clima de profunda tristeza e desilusão presente no conflito, deixando ainda mais opressivo o cenário do longa.

O roteiro em si não nos entrega nada de excepcional em termos de história, mas este definitivamente não parece ter sido o grande objetivo do projeto. A impressão que fica é que tudo gira em torno do espetáculo visual e auditivo da guerra, com algumas pinceladas de dramaticidade aqui e acolá. Embora pareça pouco diante de um filme desta magnitude, no fundo estamos tão ocupados apreciando os aspectos técnicos do longa que, admito, sequer senti falta deste apreço maior pelo roteiro.

O elenco conta com velhos colaboradores do diretor inglês, como os sempre competentes Cillian Murphy e Tom Hardy, os veteranos Kenneth Branagh e Mark Rylance (olho nele em futuras premiações), e os jovens Fionn Whitehead e Harry Styles. Se nenhum deles tem tempo de tela e diálogos suficientes para arrebatarem o protagonismo do longa, ao menos fizeram um trabalho competente o suficiente para não gerar qualquer desconforto ao espectador. Todos em cena são muito coesos e entrosados, fazendo um trabalho satisfatório diante das não muito vastas possibilidades dramáticas que o roteiro lhes dá.

Capaz de impressionar não apenas por seu belíssimo visual mas também pelo absoluto clima de tensão que promove do primeiro ao último minuto de película, Dunkirk é outro excepcional trabalho de Christopher Nolan. Não dá para negar que o diretor conseguiu provar magistralmente seu ponto de vista: há filmes que, sim, PRECISAM ser vistos no cinema e eu não consigo pensar em um exemplo melhor do que Dunkirk para demonstrar isso. Não há como sentir sequer um nível próximo da opressão promovida pelo longa se não for grudado/encolhido na poltrona do cinema com a maior tela que você puder encontrar. Falta um pouco de maior apreço pela narrativa e os personagens? Sim, mas este é um dos raros casos em que este pode ser considerado um pecado menor diante da inegável competência técnica do longa.

É uma experiência que vale cada centavo e que se não vai te fazer concordar integralmente com a visão meio radical do cineasta apresentada na entrevista no início deste texto, ao menos te fará soltar mentalmente algo próximo de um “Ok, Nolan. Eu meio que te entendi”.

Como é bom estar errado.

P.s.: este é um filme especialmente bom para se assistir em Imax. Vale o investimento.

*O jornalista foi convidado a uma sessão de pré-estreia do filme, em Curitiba.

Zé Luiz Sykacz

Written by

Jornalista. Dublê de escritor. Voyeur de diálogos alheios. Humano.

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