“Master of None” 1ª temporada — Uma ode ao sorriso

Por José Luiz Sykacz

De todos os gêneros literários, cinematográficos e televisivos, talvez o mais subjetivo seja o humor. O fato de caminhar sempre pela linha tênue e afiada do “gosto pessoal” faz com que frequentemente coisas capazes de arrancar gargalhadas entusiasmadas de alguns, gerem apenas indiferença ou — pior — desconforto em outros espectadores/leitores. A graça, literalmente, está nos olhos de quem vê, e admito que sempre soa um tanto equivocado para mim ver gente classificando certos produtos culturais como “genuinamente engraçados”, ou “hilários” sem reconhecer que tal opinião é baseada num arcabouço bem particular de gostos pessoais.

Dito isso, e assumindo o risco de cair em contradição ao longo desse texto, não acho exagero afirmar que “Master of None”, série protagonizada pelo ator e humorista Azis Ansari e lançada pela Netflix em novembro de 2015, provavelmente não conseguirá lhe arrancar grandes gargalhadas ao longo dos 10 episódios da primeira temporada, mas ainda foi uma das melhores novidades do gênero na TV mundial em muito tempo.

Com duração média de 30 minutos por episódio, a série acompanha a rotina de Dev (Aziz Ansari), um jovem ator americano de ascendência indiana e as desventuras cotidianas de sua vida na cidade de Nova York ao lado de seus amigos. Se inspirando no tom mais realista de séries aclamadas como “Louie”, “Master of None” lida com temas comuns à geração de jovens adultos que cresceram numa cidade grande na década de 90, e que ainda estão à procura de um “norte” para a própria vida. Relacionamentos, amizades, trabalho e família são apenas alguns dos pontos abordados pela série, que consegue achar espaço para tocar em assuntos mais polêmicos — como racismo e sexismo — sem abrir mão do mesmo tom leve e descontraído que permeia o projeto. Não há aqui grandes acontecimentos ou situações apoteóticas que irão guiar a trama. Toda a narrativa é acompanhada de um clima quase documental, sutil, que diverte justamente por fazer o espectador se sentir refletido nela, seja por experiência própria ou por conhecer alguém que já passou algo parecido. O encontro mal sucedido, o bate-papo de bar revelador com os amigos, a entrevista de emprego fracassada, a discussão banal com a namorada… Situações como essas, típicas da vida de todos nós e já tão abordadas por outras mídias são tratadas aqui com um frescor contagiante.

Parte desse clima agradável pode ser atribuído ao exótico elenco da produção. Mesclando atores pouco conhecidos — Destaque para a simpática Noël Wells — com participações frequentes de personagens interpretados por amigos e parentes de Aziz — como seus próprios pais, por exemplo —,a série carrega um ar de improviso frequente que, mesmo que transpareça uma certa artificialidade em algumas poucas cenas, no geral funciona bem e contribui para o tom naturalista do projeto. O próprio Aziz Ansari, conhecido pelo jeitão elétrico de seu personagem na série “Parks And Recreation”, cria aqui um protagonista que conserva parte da energia de seu papel mais famoso sem excessos, tornando Dev uma figura simpática e cativante.

Ainda assim, mesmo entre os muitos itens dignos de destaque, não é exagero afirmar que a grande estrela da série é o texto, criado a quatro mãos por Alan Yang e Aziz Ansari (que além de criador, produtor e protagonista, também assina a direção de alguns episódios). Delicado na abordagem, mas contundente nas críticas e observações que faz sobre a rotina de seu protagonista, o roteiro consegue cavar interesse no espectador até mesmo nos terrenos mais áridos. Apesar de não ter reviravoltas surpreendentes e/ou grandes acontecimentos que norteiem o rumo da trama, “Master of None” surpreende por nos entreter onde normalmente só seríamos capazes de ver situações banais de nossa rotina. E os méritos são ainda mais evidentes e dignos de destaque ao constatarmos a facilidade com que temáticas de cunho político são encaradas e debatidas com sutileza e naturalidade, como no episódio em que Dev percebe como está perpetuando um comportamento machista de seu chefe depois de ser confrontado e alertado pela namorada, ou quando questiona as supostas justificativas dadas por um poderoso produtor de Hollywood para não apostar numa série de TV com dois astros de origem indiana. E mesmo que tenha afirmado anteriormente que o tom de humor mais incidental do projeto faria com que “nem todo mundo desse gargalhadas ao longo dos episódios”, cenas esporádicas como o diálogo inspiradíssimo entre Dev e seu amigo Arnold (Eric Wareheim) envolvendo teorias a respeito de uma música do rapper Eminem podem facilmente fazer minha previsão ir por água abaixo.

Vale ainda destacar também a excepcional e variada trilha sonora que sempre se destaca ao criar um clima intimista para cada episódio, e o belo trabalho de fotografia de Mark Schwartzbard, que transforma Nova York em um cenário — ainda mais — belo e convidativo.

Arrebatando críticas positivas ao redor do mundo, “Master of None” é mais um gol de placa da Netflix, que conseguiu incluir em seu catálogo uma série digna de figurar na mesma escala de projetos aclamados como “Louie” e “Broad City”. Uma comédia diferente e divertida que pode não arrancar gargalhadas o tempo todo, mas nos deixa com um inconfundível sorriso de satisfação do início ao fim de cada episódio.

*Texto produzido em Novembro de 2015 para projeto editorial independente.