Finlândia ❤ educação, imagine.

Michael Moore, aquele cineasta americano que adora nos fazer repensar o que está estabelecido, produziu em 2015 um filme dedicado a reconhecer boas práticas de outros países que os EUA poderiam adotar.

Where to Invade Next? (“Onde invadir da próxima vez?” Tradução super livre) foi até a Finlândia para utilizar o modelo de educação básica deles como referencial. E esse registro é… emocionante.

Especialmente porque ele começa esse trecho do filme traçando um retrospecto do que era a educação nesse país e nos mostra que nem tudo que é bom hoje foi sempre bom. Mostrar a transformação dá um pouco de esperança para gente que tem vivido o caos da educação no Brasil.

Mostra também que o sucesso da educação não ocorre por acaso, que há mudanças que precisam ser implementadas, há intencionalidade em fazer as coisas de uma maneira diferente para se ter resultados melhores. E Michael Moore foi em busca exatamente de descobrir o que eles fazem diferente lá que torna os resultados deles tão melhores.

Algumas dessas coisas são:

1. “Não temos lição de casa”

Krista Kiriu, ministra de Educação da Finlândia, choca logo no início com essa frase. Afinal fomos educados em um sistema que enxerga a tarefa de casa como essencial para a aprendizagem. “É assim que você forma o hábito do estudo”, “quanto mais tempo as crianças passarem sentadas e escrevendo em livros e cadernos mais inteligentes serão” são algumas das ideias comumente repetidas por pais e educadores para justificar uma crescente carga de tarefas passadas para casa.

A Finlândia partiu de outro referencial, a ministra afirma que as crianças e jovens devem ter mais tempo para ser crianças e jovens. Parece meio óbvio quando se ouve dessa maneira. Mas quem pensa assim hoje? Imagina quanta resistência uma escola enfrentaria se ela ousasse defender tais ideias?

Mas o que as crianças fariam com tanto tempo livre?

Pasi Majasaari, diretor de uma escola de ensino médio, responde “eles têm um monte de outras coisas para fazer depois da escola: como estar juntos, estar com a família, praticarem algum esporte, tocar instrumentos, ler”. Ou melhor dito, serem crianças, livres. O currículo pessoal não deveria ser menos importante do que o currículo escolar formal. Aprender a ser não deveria ser menos importante do que aprender matemática e português.

2. As crianças passam poucas horas na escola

As crianças na Finlândia, passam em média 20h na escola. Pausa dramática para digerir o choque.

Não sei se uma realidade como essa funcionaria no Brasil, na Finlândia as crianças possivelmente podem passar mais tempo nas ruas sem tantas ameaças violentas como as que vivemos aqui, mas fica a reflexão aí, em tempos de luta por escola em tempo integral, devemos nos preocupar que mesmo “protegidas” pelos muros escolares, as crianças e os jovens tenham garantidos o seu direito ao ócio, o seu direito a serem crianças/jovens além de tarefas e aulas.

3. Não há avaliação de múltipla escolha

As famosas “questões de marcar” aquelas que os professores dão 5 alternativas e você escolhe a correta e marca um “X”.

Mas por que essas questões seriam tão prejudiciais assim ao processo educativo?

Acho que o grande ponto aqui não é o tipo da questão, mas qual o conceito de avaliação que está por trás disso. Avaliação é um processo natural, nos avaliamos, nos comparamos, somos avaliados o tempo todo. Mas o processo de avaliação escolar tem nos mostrado que avaliar tem hora para acontecer, que nós devemos armazenar um série de informações na memória para nos darmos bem na vida e que alguém deve decidir por nós o que é importante saber.

Não precisa ser assim, juro. :/

Avaliação escolar pode ser algo processual, pode ser algo combinado. Pense aí você, você decidiu aprender algo, passa um tempo pesquisando e depois de alguns dias você apresenta o seu trabalho para um especialista no assunto e ele lhe sugere ajustes ou pontos que você deixou de abordar. Você ajusta e pronto. Imagina que felicidade, aprendizagem não faria mais sentido assim?

-Ahhhh mas não é assim no vestibular?

E até quando a gente vai direcionar a maior parte das horas dos jovens para um momento só? Uma prova só? Que tal se a gente começasse a pressionar por novas formas de avaliação? Ou desse menos importância a estar matriculado em uma Universidade Pública e mais importância formar seres humanos mais humanos.

4. A escola é lugar de aprender o que te faz feliz

Fomos ensinados a associar aprendizagem com sacrifício. Aprender é chato e necessário, e se divertir é livre, por pouco tempo, mas é livre. Mas todo mundo tem coisas que você teria prazer em aprender, todo mundo tem interesses. A gente esqueceu disso, mas nós somos seres curiosos. As crianças são ainda mais.

O modelo escolar nos distanciou tanto dessa nossa curiosidade natural que hoje a gente acha que não gosta de aprender. Mas pense bem, você não gosta de aprender ou você não gosta de aprender coisas que estão fora do seu interesse?

Imagine se a escola conseguisse combinar nossos interesses e nossa curiosidade natural proporcionando um ambiente seguro para aprender? Isso não seria maravilhoso? Imagine se as escolas fossem o lugar para aprendermos educação emocional, artes, sistema político brasileiro, educação financeira, direitos humanos, sustentabilidade, eletricidade básica, hidráulica básica, culinária, música e tudo o mais que facilite a nossa vida em conjunto?

5. A melhor escola é aquela que fica mais perto da sua casa

Embora nós estejamos bastante familiarizados com a ideia de avaliarmos a escola a partir de quantos alunos ela “consegue aprovar” no vestibular. Esse não deveria ser o nosso único parâmetro de avaliação. Pensando bem: esse deveria ser um parâmetro para se avaliar a qualidade de uma escola?

Imagina se todas as pessoas do seu bairro, ou da sua rua, estudassem na mesma escola. Todas mesmo, das mais ricas às mais pobres, imagine se elas estudassem juntas e tivessem acesso à mesma qualidade de ensino, aos mesmos métodos, ao mesmo espaço físico, se elas tivessem que aprender uma sobre a outra e fossem obrigadas a conviver com as diferenças. Imagine se de repente todos os pais conhecessem a realidade da escola pública e lutassem para que ela fosse a melhor educação possível porque é lá que os seus filhos estudarão?

Aí sim, poderíamos dizer às crianças que elas podem ser o que elas quiserem quando crescerem. Hoje vendemos uma mentira pras crianças, repetimos que se elas forem à escola elas serão mais bem sucedidas e sabemos que isso não necessariamente é verdade. Não estamos dando igualdade de oportunidades se partimos de escolas diferentes. Não basta estar inserido em uma escola, é preciso estar inserido em uma excelente escola para que ela expanda a sua capacidade de ser. E não proporcionamos isso para a maioria das crianças e jovens brasileiros.

E talvez seja por causa dessa mentira, que eu, pedagoga e amante da educação, preferi fugir do ambiente escolar.

Mas será que dá pra fazer diferente disso?

Acredito que sim, embora isso demande uma dose extra de coragem. É preciso ousar colocar suas ideias no mundo, senão ele nunca será transformado.

Segue aqui abaixo o trecho do filme que fala apenas sobre a Finlândia, tá disponível no Youtube.