Sobre o Esforço do Agora, ou Pensamentos Perdidos em Águas Frias

Agora será diferente. Agora, toda pergunta não nos fará carregar mais o peso da necessidade da resposta, pelo contrário — questionar a vida será, por si só, um simples exercício de existir. O liame entre o nosso começo e o fim do mundo será tão leve quanto a poeira das estrelas, e assim o digo porque somos feitos de tal poeira, e você me questiona: somos, então, leves? Que você continue me questionando, mas lembre-se: uma pergunta é apenas uma pergunta, até conhecermos a resposta. Viva o pensamento! Vivam minhas dúvidas que me fazem envelhecer para além das rugas invisíveis de uma juventude que, de tão perdida, se encontra dentro de si mesma (vivam os millennials!), vivam os pequenos passos que damos enquanto caminhamos para o abismo, e viva o abismo porque agora, ele é a nossa única saída — viva, portanto, nossa união, que nos faz destemer a escuridão que nos engolfa (a beleza de corações inebriados é poderosa). Viva a vida! Viva sua vida.

Quanto mais nos conectamos, mais sinto que o vínculo entre nossos seres se enlanguesce; os segundos já não são mais a medida perfeita para intentarmos estabelecer um ponto de intersecção dos meus sentidos com os seus sentidos — de fato, não precisamos gastar tanta energia com tal tarefa, já que o que nos liga é, também, o que nos rompe. Meus sentidos me dizem que a resposta para toda e qualquer pergunta é a empatia; por um nanosegundo os seus também falam sobre a mesma coisa, mas, logo em seguida, a Terra muda de posição e meu coração já não tem a força necessária para continuar agarrado ao seu, sem desistir, sem temer. E nós precisamos continuar a viver: querendo desistir, sentindo nossas veias congelarem com o medo, não importa. Numa coisa concordamos — precisamos aprender a aceitar que nossos tempos não são precisos, nossos planetas não giram na mesma órbita e, ainda assim, dependem da mesma luz solar. Concordamos sobre concordar em algo, apenas para nos sentirmos próximos a um propósito de existência qualquer. O que eu desejo para nós, mais uma vez, é que a vida continue nos tirando o fôlego para que possamos continuar lutando. Sua existência me tira o fôlego, e eu gosto, afinal.

Minha avó segura forte minhas mãos, e comenta como o tempo ainda não passou pra mim, e como o tempo fora cruel com ela. Ela conta o tempo usando suas rugas e os calos de seus dedos, eu conto o tempo usando as preces que faço todas as noites para que seus 80 anos de idade virem 90, tornem-se 100. Ela diz: o tempo seca nossas mãos, e seca mais ainda as mãos das mães que vivem sofrendo. Vovó, é inevitável que o tempo transforme nossas mãos em verdadeiros mapas, e que as veias que saltarem na pele que se agarra aos ossos, sem a carne que o tempo já consumiu, se tornem as linhas que limitarão as histórias que teremos para contar. Nenhuma outra ruga em qualquer outra parte do corpo, diz a sabedoria, é tão dolorosa quanto à secura das mãos, porque as mãos sempre querem produzir, e a mesma sabedoria teme não ser capaz de continuar criando suas raízes no âmago de sua própria história se as mãos começarem a falhar. É por isso que rezo para qualquer divindade, rezo pedindo esclarecimentos o suficiente para discernir a produtividade vazia da verdadeira criação dos sentidos de nossas vidas.

Imagino o humor moderno como uma caverna sem saída, na qual estamos entrando constantemente. No começo, a escuridão e a umidificação do enclausuramento provocam uma sensação de que seremos sufocados, que passa rapidamente quando nossas mentes curiosas começam a questionar razões e motivos para ali estarmos. E, como nunca encontramos a resposta, passamos um bom tempo dentro da caverna tentando entender a onda de pequenos sentimentos que nos invade. Só depois de nos cansarmos bastante da incerteza da escuridão é que decidimos tentar encontrar um caminho para dela sair, sem perceber que temos apenas a mesma porta pela qual entramos. É um ciclo vicioso: essa caverna tem e não tem fim, e quando nos parece que estamos definitivamente mais próximos de encontrar a saída, descobrimos um novo tipo de cristal brilhante num pedregulho no canto esquerdo mais profundo do buraco, nos empolgamos com a descoberta, e nos perdemos na imensidão das dúvidas novamente. É sobre nossos corações gostarem de se embriagar com incertezas, apenas para entorpecer nossas dores. Às vezes perco horas dentro da minha caverna, às vezes as horas que perco com você dentro do seu esconderijo passam tão rápido que me parecem poucos minutos. Às vezes me pergunto se existirá, um dia, a convergência perfeita, que tanto desejamos, de nossos tempos.

Agora não será tão diferente assim — nascerá o mesmo Sol de um novo dia, e dentre os raios tímidos por conta da tempestade que vive à espreita, não encontraremos tempo para ler todos os livros que gostaríamos de ler, tomar todos os litros de café que gostaríamos de tomar, sonhar todos os sonhos de amor que ainda nos é permitido sonhar sem pagar nada. Dizem que a juventude morre conforme vendemos todas as células de nossos corpos pelo preço da sobrevivência. Pelo menos por uma coisa eu posso agradecer: ainda vejo os sonhos vivos em seus adorados olhos caídos.

Remende suas asas, coma sua proteína: de verdade, eu não sei o que será do agora.

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