Sobre A Beleza das Cicatrizes, ou Dê-me Erros

Talvez a concepção moderna mais perigosa, que tornou-se algo além de uma simples ideia, um simples conceito, e agora assemelha-se mais a um objetivo de vida contemporâneo do que à uma vertente da subjetividade humana, é a de perfeição. É quase impossível, atualmente, nos permitirmos identificar e aceitar as diferentes noções do perfeito que cada um de nós possui quando o padrão é uma pílula para a dor de cabeça cotidiana — não culpo mais esse padrão pelo estado de falta de originalidade humana no qual nos encontramos, entendo que em muitos casos a corrida desenfreada para alcançá-lo é bem mais uma forma escapista de lidar com a cegueira diante da realidade do que qualquer outra coisa. Dói menos para a mulher que não se encaixa no padrão de beleza lutar para que se encaixe, do que abrir os olhos para o controle que o padrão de beleza exerce sobre todas nós. Dói menos para o pobre acreditar que com muito esforço poderá ser rico um dia, do que abrir os olhos para o controle que o padrão econômico exerce sobre todos nós. Dói menos ser ignorante do que ser esclarecido. Dói menos viver na escuridão da insipiência do que ter que aprender a assimilar a claridade da erudição. Ser masoquista, como vocês podem perceber, ainda não é a regra geral.
Não é que eu odeio a ideia de perfeição, mas o imperfeito é muito mais interessante aos meus olhos. O que o padrão dita ser defeito me parece, em realidade, o que delimita a unicidade de cada um de nós. Não dá para aprender nada com a perfeição. Uma vez atingido este nível de excelência, tenho a impressão de que uma monotonia cinza percorrerá todos os caminhos pelos quais o ser humano plenamente virtuoso irá escolher atravessar. Nada ele poderá aprender com as imprecisões que encontrará nestas estradas e, por mais que possua toda a magistralidade do mundo, não acredito que ele poderá escapar da inevitável prepotência de quem tudo sabe, dificultando, assim, a transmissão dos segredos dessa perfeição. Em suma: a perfeição é o tipo de solidão que, se pensarmos bem, mesmo enquanto introvertidos, não a queremos. O perfeito não tem lugar algum para ir, afinal de contas. Porque o motivo pelo qual andamos por aí (às vezes sem rumo, noutras já sabendo bem o que queremos) é porque algo dentro de nós nos impulsiona a desejar desbravar o desconhecido, a querer melhorar o que consideramos ser necessário melhorar, a querer simplesmente conhecer. Se fôssemos seres sem nenhum tipo de erro interior ou exterior, subjetivo ou objetivo, de nada precisaríamos dos intricados percursos que o mundo nos oferece. Perfeição é uma solidão entediante.
Acredito que a perfeição não seja a resposta para todas as nossas dúvidas, porque aquele que não mais possui a necessidade de questionar-se perde a função essencial que dá toda a graça de se viver. É como o homem demasiadamente jovem para compreender as mágoas que lhe aflige, ele passa por estes momentos sem tomar conhecimento da realidade que o rodeia. Para ele está tudo bem, tudo em ordem e ‘perfeito’, mas há a tristeza que permeia todos os que com ele se relacionam, por este ou aquele motivo, e ele não consegue perceber este sentimento alheio. É isto que significa encontrar-se em estado permanente de perfeição, você perde a sensibilidade com relação a tudo o que diz respeito ao mundo que a nós, indignos, pertence. Perguntam-me como posso ter a certeza de tais fatos, se estou longe de alcançar o nível mínimo de perfeição. Acontece que mais do que defeituosos, os tipos com as quais mais temos que lidar são os que acreditam possuírem a alma tão esplêndida que nada mais lhes é necessário para evoluir. São os falsos perfeitos que, como os falsos profetas, exalam uma noção equívoca do que é sublimidade; são, apenas, perfeitos em fingir que conhecem da perfeição, e por conta disso deixamo-nos enganar frequentemente. E eu, como uma perfeitamente imperfeita, sempre tentando aprender ou aprimorar o que já sei, penso que é nossa obrigação tirar uma ou outra lição da existência dessas pessoas. Entre ser perfeito, imperfeito e fingir ser virtuoso, o que você prefere? A imperfeição, pelo menos, é honesta.
Repito-me: não é que odeio a perfeição, apesar de lutar contra padrões. Só penso ser muito triste a forma com que a modernidade nos obriga a acelerar nosso processo de crescimento na busca de arquétipos de virtudes que não correspondem com a totalidade da diversidade de quem somos. Penso que os defeitos nos completam e que, mesmo quando estamos livres deles, somos capazes de transmitir a quem ainda os enfrenta tudo o que com eles aprendemos, porque ainda assim continuamos seres imprecisos. Não há nada de errado em demorar-se em seus erros. É preferível, inclusive, que as pessoas levem o tempo que acharem necessário para saborear os dissabores das consequências de sermos tão inconsequentes. Só assim seremos capazes de aprendermos a sermos nós mesmos ao invés de imitarmos padrões.
É bem simples, se não fôssemos tão apegados ao complicado: há perfeição na imperfeição.
