Sobre A Beleza Incerta, ou Amável Estranheza

(Willem de Kooning — Attic)

“O que é bonito é para ser mostrado”. Como uma boa jovem de coração revolucionário que luta diariamente contra a covardia (de que adiantaria este coração?), tenho minhas restrições com relação a esta frase. Acredito que todos nós que buscamos ir e sentir além do que nos fazem acreditar serem os lugares ideais e os sentimentos necessários básicos para se levar uma vida normal (se querem nos ver passar mais um feriado na praia, preferimos ficar em casa lendo um bom livro; se querem nos ver presos em um relacionamento mesmo quando o amor acaba, preferimos nossa liberdade. Não que exista algum problema com praias e relacionamentos cômodos. É só nossa preferência mesmo. Quando falamos de preferências, isto não nos faz diferentes do outro.), não conseguimos concordar plenamente com o que vem a ser a beleza implícita nesta frase, ou até que ponto esta beleza deve ser exibida, considerando que a beleza é relativa, e a exibição é um perigo iminente do egocentrismo. Eu gosto de ver o mundo todo sempre belo, mesmo com os desvios de águas límpidas para oceanos poluídos, mesmo com o ódio obscurecendo o amor — sim, talvez o que eu veja não seja a beleza em si, mas a possibilidade dela existir em qualquer lugar, sob quaisquer circunstâncias. É um mecanismo de sobrevivência, do contrário eu estaria num estado permanente de desespero.

Mas vejo a beleza também no que é majoritariamente considerado feio, o padrão de beleza é algo que deveria incomodar a todos nós, diariamente, a todo instante. Porque vejam só, quando algo que deveria possuir uma fluidez natural porque existe sob a influência da volatilidade humana, por lógica, não deveria ser estático e imutável, sendo “afrontado” com as quebras de paradigmas, como o conceito de beleza moderno o é. É sempre assim: minha avó adora o sol escaldante do meio-dia, aquele sol que não te esquenta, mas te queima, ela acha sua luz linda, ela adora o dia que brilha no fogo; eu, contrariamente, detesto este sol e prefiro dias chuvosos e nublados, tempestades de gelo com raios e trovões, acho linda a água da chuva caindo pesadamente, fazendo aquele barulho ensurdecedor que é uma bela canção de ninar para meu sono. Mas eu acho o sol da minha avó maravilhoso quando ela sorri pra ele. Essa é a relatividade da beleza. E, no fundo de nossos seres, todos nós a reconhecemos, todos nós sabemos que tudo o que há de supostamente feio já foi ou será belo um dia e que, por este motivo, não pode realmente ser considerado feio, simplesmente porque é um conceito transmutável e instável em sua própria concepção. Todos os homens, e todos os seres e todas as coisas do universo possuem uma beleza que se convergem para criar o caos harmônico, a desordem que é reconhecida e contra a qual lutamos diariamente — diga-me, então, não há beleza na nossa união desordenada? Eu digo que há: a confiança que deposito em você é tão bela quanto seu cabelo oleoso e suas pequenas espinhas vermelhas na testa.

A melhor prova de que a beleza é fluida é a nossa própria história. O que fora belo um dia, hoje já não é mais assim visto, apenas porque existem forças que influenciam uma maioria para que assim ela aja de acordo com seus interesses. Porque não, o que foi belo um dia ainda é belo hoje, e o belo de hoje continuará sendo amanhã, enquanto formos capazes de entender a beleza não apenas como uma construção social opressora (o que ela, de fato, é), mas também como algo inerente da própria noção de existência: existimos, portanto, somos belos. Nascemos, crescemos, e por mais que em uma ou outra ocasião, falemos algo, sejamos algo ou portemos algo em nossos seres, físicos e metafísicos, que possa ser considerado inconsistente com a beleza, esta nos pertence porque não há força neste mundo capaz de tirá-la de nós.

Todo o sofrimento que meu primeiro amor me causou, toda a luta diária de alguém que faz parte de uma classe econômica baixa, toda a ocasional desesperança com os estudos e a política e a humanidade, todos os complexos; assim como todo o amor que eu já senti, todas as conquistas pequenas, toda a luz que um grande mestre acadêmico me transmite, toda a esperança e a paixão pela aprendizagem e pela política social e pelo ser humano em si — tudo isto é tão belo pra mim, porque é o que me fez e o que me faz, é o que me dá minhas cores, opacas ou brilhantes, é o que faz de minha vida exclusivamente minha enquanto a divido com todo o resto do mundo. Meu coração, ora feio, ora belo, ora inteligente e ora ignorante, é igualzinho o seu, então não diga que não acreditas na serenidade da certeza dos encantos dessa vida, mesmo que raros. Até mesmo nosso pessimismo faz sentido nessas horas — se não fôssemos tão pessimistas assim, não questionaríamos o que há de errado nesse sistema sob o qual vivemos.

Eu concordaria que tudo o que é belo deve ser mostrado, se não estivéssemos falando apenas do belo superficial, o belo que enlouquece uma modernidade líquida e liquida a solidez da resistência e resiliência de nossos seres. Mas sim, vamos mostrar toda a beleza que possuímos e toda aquela que não possuímos também, quem sabe assim não aprendemos algo de útil com nossas noções tão erradas de “ser”…

O belo comum não me encanta tanto quanto o belo anormal, bizarro, vulgar. Mas ambas as belezas me causam tipos diferentes de fascínio — uma inevitavelmente me atrai porque eu vivo em seu cotidiano, a outra me atrai porque eu preciso compreender todas as existências do universo para que possa absorvê-la. Sejamos belos ou sejamos feios, não importa: a beleza realmente está nos olhos, no coração e na alma de quem, de fato, a vê.