Sobre A Fome Pela Verdade, ou O Verdadeiro Gosto da Vida

( Andrea D’Aquino)

Já escrevi sobre como algumas pessoas (leia-se: quase toda pessoa que quer discutir algo atualmente) me acusam de ser imparcial demais, em vários temas (acusações ora agressivas, ora com um tom de admiração, mas sempre tirânicas demais — por que é que temos de viver acusando uns aos outros agora?); já escrevi sobre como o maniqueísmo moderno está se transformando numa doença perigosa (mais uma delas — olá, depressão!); já escrevi sobre como é muito cruel a forma com que estamos escolhendo lidar com nossas ideias, o modo que estamos usando para propagar estas ideias — imperativo, cortante, intolerante, surdo. De fato, tudo isso é sobre o que mais escrevo, e quanto mais escrevo, mais percebo que sou profissional em enganar-me a mim mesma — escrevo pensando que ao exteriorizar meus sentimentos, estarei aprendendo a racionalizá-los melhor, mas nada aprendo (ou apreendo), pelo contrário: quanto mais racionalizo minhas emoções, mais perco essa capacidade de criar filtros para racionalizar as coisas, deixando, assim, entrar mais emoções dentro de mim, como adornos de festas de crianças que sujam a casa para uma mãe cansada ter que limpar mais tarde. O que quero dizer: quanto mais penso que estou aprendendo, mais vejo que não aprendo nada, e isto me deixa desolada. Não fico desanimada, apenas sinto um cansaço (por vezes mais físico do que mental) que me faz ter a certeza de que nem mesmo minhas incertezas eu conheço mais.

Sonhei ontem à noite com uma flor que, após desabrochar, sorrir para o mundo, iluminá-lo e iluminar também uma alma apaixonada, encontrava-se em estado de ressecamento — suas pétalas fechavam-se como um coração fora de um corpo que diminui se não mantido no gelo; ressequida, cansada de sua breve existência, mas não exatamente triste, a flor dizia um adeus silencioso para o mundo. Não era um adeus doloroso, era natural, esperado, inevitável. Como espectadora do sonho, observei, em seguida, uma criança vir correndo, extremamente feliz, segurando a mão de um homem já idoso; observei-os agachar, escarafunchar a terra, e plantar algumas sementes, bem ao lado da flor, já morta, murcha, mas ainda assim com um tom de beleza único e exclusivo das rosas (a primeira vez em que vi/senti a poesia de uma rosa, ainda adolescente — mais criança que adolescente — foi em Shakespeare, e vejam só como o mundo anda cruel demais, especialmente para almas que gostam de ser sensíveis: hoje, há quem diga que mulheres e rosas em poesia seja um clichê típico do cinismo da ideia da mulher como um ser extremamente frágil, e há quem insiste em não perder o toque de bondade que a natureza dá para todos os seres humanos que dela tiram a poesia. Faço parte do segundo grupo, e considero-me feminista. Não é imparcialidade, acreditem). Não sei se eu era a menina do meu sonho, e se o homem era o meu avô. Sei que o cansaço da rosa que estava indo embora deste mundo era tão natural quanto a nova rosa que nasceria daquele plantio.

Eu tinha doze anos de idade quando me aconselharam, pela primeira vez, a nunca desistir dos meus ideais, não importando o quão difíceis as coisas se tornassem, o quão complicada a vida se mostrasse ou o quão ruim o ser humano se transformasse diante de meus olhos. Junto deste conselho, me disseram também para lutar sempre contra o meu egoísmo e a minha vaidade. No ápice de minha precocidade, lembro de ter ficado extremamente ofendida por terem dito a uma criança, pré-adolescente, que controlasse sua pré-disposição a ser egoísta e vaidosa. Como ousam dizer isso para um ser humano em formação? Seguindo este pensamento de revolta, compreendi o porquê destes conselhos, sem precisar de profundas investigações. Eu lia sobre revoluções, sobre vertentes filosóficas, sobre biografias de grandes figuras históricas, sobre guerras, sobre o medo humano, sobre tudo. Eu lia ferozmente, eu comia livros, eu queria entender tudo, eu pensei estar entendendo tudo. Eu me endureci com tanta informação, e hoje sou mais mole que o açúcar derretido do pudim de doce de leite da minha avó, e tento relembrar toda a informação que meu coração aninhou durante minha adolescência subversiva. O adulto deve ter a facilidade de uma criança em compreender a bondade, a garra de um adolescente em não aceitar a maldade, mas não nos é oportunizado ter a sabedoria de um idoso, que escolhe realmente viver, em deixar para trás todas as decepções que temos nos nossos caminhos. Querem que aprendamos a voar sem nos ser permitido crescer asas — e nos jogam do topo de uma montanha sem dó e nem piedade.

Já escrevi também sobre como precisamos aprender a sermos brandos com nós mesmos, a nos perdoarmos, a termos mais fé em nossos atos. Eu não sou capaz de nada disso, e é por esta razão que sempre lhes recordo anão seguirem as palavras que escrevo — pelo menos não como alguém que aconselha, ou que tenta ensinar-lhes os passos e atitudes corretos, mas como alguém que também está tentando descobri-los. Pergunto-me se um dia serei dessas escritoras de gaveta que morrem sem ter conhecido o mundo, mesmo que viajado por todo ele, sem ter desvendado nem mesmo um de seus grandes mistérios, ou se morrerei um pouco satisfeita com a vida que estou levando. Daí me lembro, de tantas biografias lidas, que nenhum dos meus artistas favoritos morreu tendo a certeza de alguma coisa — pelo menos não além da certeza de que a vida é complicada demais para ser entendida, apesar de poder ser vivida por completo. Penso, então, que o máximo que poderemos ter, afinal de contas, é a certeza de que a coisa boa que fizemos hoje terá valido a pena para sempre. Isso garantirá nosso lugar no paraíso? Provavelmente não. Que possamos morrer ainda sendo fanáticos por aprender.

Sinto esta estranha necessidade de desculpar-me, com absurda frequência, para as minhas próprias palavras — é o meu otimismo demagogo querendo ser perdoado pelo pessimismo que se esconde em palavras de esperança, ou pela esperança que é oprimida pelo pessimismo. Gosto de pensar que é porque sou empática demais com todos os meus sentimentos. E é por esta razão que lhes garanto não ser conhecedora do método mais saudável de se viver — é difícil quando conhecemos os caminhos mais leves e insistimos em escolher os mais pesados para prosseguirmos. Mas faz parte de sermos — já sabem, humanos.

Nos recusamos a ser quem realmente somos, e por isso vivemos nesta constante busca por algo, por qualquer coisa. Espero que possamos fazer desta busca, no mínimo, interessante.