Sobre A Frieza Entre Puro e Impuro, ou Tio Nietzsche Disse

(Norwegian Woods movie)

Criei o costume de anotar (por todos os lados, em variados cadernos, pedaços de papéis soltos e aleatórios, diários) citações e passagens de livros por dois motivos: primeiro, porque não gosto de escrever nos meus livros (possuo uma relação complicada com isso: acredito que não há nada mais intrinsecamente pessoal do que um livro cheio de anotações das leituras que seu dono faz, mas, ao mesmo tempo, a ideia de manchar as páginas dos meus livros com a minha escrita é dolorosa, como se eu estivesse maculando algo absurdamente sagrado), e segundo porque, já que não faço marcações no livro em si, precisava de uma forma que destacasse de minhas leituras os pedaços que mais marcam. Ok, concordo: funciona. Até certo ponto, eu nunca esqueço os trechos que mais me impressionam quando leio, mas isto é literalmente tudo o que consigo lembrar: a essência dos trechos, por vezes os recordo letra por letra, mas na maioria dos casos, apenas a ideia principal é que fica grudada em minha memória e, infelizmente, tenho muita dificuldade em lembrar aonde é que li isto ou aquilo (para não dizer que não lembro dos autores, o que não condiz com a conduta de uma leitora compulsiva — culpem a bagunça de minha mente).

Como, por exemplo, sentei-me para escrever algo (qualquer coisa, como faço todas as noites) e assim que me acomodei em minha cadeira, me veio em mente uma passagem sobre a forma com que enxergamos a pureza das coisas, onde vemos esta pureza, o que é que nos causa esta sensação de estarmos diante de algo puro. Se me perguntares a origem desta passagem, não saberei responder. E, como quem quer se resguardar das críticas, questiono-lhes: não há algo de puro num leitor que tem, em seu próprio ser, um habitat de livros, histórias, personagens e ensinamentos, e que não consegue distinguir bem tudo isso, pelo menos não para além do que é necessariamente bom e importante de ser retido? Um leitor esquecido é como um admirador de flores que não sabe o que é uma rosa. Reconhece-se a beleza das flores, independentemente de serem rosas ou margaridas. Eu reconheço a profundidade e a importância do que leio, independentemente de ser Kant ou J.K. Rowling. Amigos, viver com a poesia é isso, é ser um amante infiel sem nunca deixar de ser um amante. Traio constantemente a própria existência dos escritores que tanto admiro, por não lembrar-lhes com afinco e detalhadamente, mas não há quem possa alegar que lhes nego todo o meu amor. Viver com a poesia enquanto materialmente pobre é isso, é ser um amante infiel que nunca deixa de ser um amante enquanto sofremos com as mazelas da vida.

Sei que esta passagem da qual me recordo no momento falava sobre como a pureza é relativa, como tudo neste mundo o é, convenhamos. Há quem veja a pureza na imoralidade sincera, há quem veja a pureza apenas na moralidade intacta; há quem acredite ser puro o amor que se considera límpido, e há quem só vê a pureza no amor que já sobreviveu tempestades. Há quem veja a literatura como uma arte vulgarmente pura, há quem veja na vulgaridade ocasional da literatura a pureza da alma de seus escritores. Há quem prefira a impureza e encontre aqui o verdadeiro sentido de ser puro, e há quem só é puro quando se distancia por completo das contaminações adversas. Há a pureza no esquecimento dos detalhes e na vivacidade das lembranças como um todo, há pureza nos detalhes que sobrevivem à passagem do tempo. Há pureza em sermos todos impuros: só valorizamos a claridade quando permanecemos por períodos demasiadamente longos dentro da escuridão, só percebermos ser a solidão necessária quando o peso do mundo ameaça quebrar nossas clavículas. Há quem diga não ser necessária a pureza porque a vida requer uma casca mais grossa em nossos corações, há quem busque essa pureza incessantemente. Há quem reconheça ser concomitantemente puro e impuro, há quem se reconheça somente puro, há quem se reconheça somente impuro. Falsos anjos, anjos cegos, cegueira pura, impureza que cobre as dissimulações humanas: há quem prefira vinho e há quem prefira um suco de laranja.

“Você é pura quando não larga desse pano sujo que te acompanha desde quando era criança, um reflexo da sua necessidade de ser sempre menina: pura pureza. Você é impura quando não considera os sentimentos de quem preza por sua companhia, parecendo querer viver eternamente dentro de uma autossuficiência prepotente que não existe: pura impureza. Você é pura quando me ameaça de morte caso eu dobre as orelhas de seus livros. Você é impura quando diz que nunca irá me amar como te amo, porque não entendes o perigo de uma sinceridade fria, cortante, que machuca. Você é pura quando é ingenuamente sincera, tudo bem. Você é impura quando mente. Você é pura quando chora de raiva, de amor, de saudade, de tristeza. Você é impura quando desconta sua raiva, nega seu amor, desconhece a saudade e não reconhece a tristeza alheia. Você é pura, meu amor. Você é, também, sem sombra de dúvidas, impura.”

Tio Nietzsche é um dos poucos que entrou na minha mente e comprou uma casa para aqui viver por toda a eternidade. Por esta razão, não esqueço quando ele me disse que, se quero ser para sempre pura, devo ser um grande oceano que irá repelir qualquer correnteza de impurezas.

Posso ser o mundo então, meu querido professor? Seria o suficiente?

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