Sobre A Nitidez Do Superego, ou Observações Do Controlador

Tenho dificuldades em compreender o avanço tecnológico acelerado para me relacionar de maneira mais proveitosa com a tecnologia, no sentido de que não sei me relacionar com os meus próprios sentimentos. A tecnologia, sendo parte do mundo e, atualmente, o que quase-literalmente move este mundo, me fascina tanto quanto as chuvas de verão, porque são questões íntimas das ciências que se desenrolam conforme nós nos desenrolamos enquanto seres humanos. Fascina-me a forma com que algoritmos se juntam para a transmissão de uma conexão de internet, assim como me encanta a forma com que os terminais de transmissão dos neurônios se juntam para transportar impulsos de uma célula nervosa para outra. Por ter toda esta capacidade de impressionar-me com a nossa evolução (física, biológica, psicológica, natural) é que não consigo entender os empecilhos que me auto-imponho ao tentar aceitar a maneira determinista com que esta evolução dita as regras para a estabilização de nossas sociedades. Quando reflito sobre isto, penso encontrar a razão no fato de que meu próprio ser está em constante fuga de qualquer tipo de determinismo. Talvez seja por estes motivos que sigo as ondas da minha juventude envolta nas tecnologias e, concomitantemente, tenho tentado manter-me longe de redes sociais e afins.

O estudo da história das ciências possui uma peculiaridade que me chama a atenção. Os historiadores denotam que o berço da evolução científica era baseado na ideia de que cientistas iriam chegar num ponto no qual a onisciência seria predominante e, desta forma, previsões acerca do futuro (ou dos futuros) seriam possíveis e precisas, dando ao homem a oportunidade de controlar o Universo. Acho que a área da tecnologia em si é um ótimo exemplo para demonstrar as falhas deste pensamento — o desenvolvimento tecnológico avança ferozmente e desenfreadamente, e quanto mais descobrem, formulam e fabricam tecnologia, mais escorre de nossas mãos a aptidão de prever as reações do universo, porque não controlamos o que ele nos dá e nem como ele nos devolve (não falo aqui “do segredo” e da força do pensamento, até porque nem mesmo estes nos dão o total controle que acreditamos ser possível obter diante das forças da natureza). Mas, como numa ironia pintada surrealisticamente por quem quer que tenha criado a vida (ou como resultado da reação relógio do iodo), nos é dado a chance de prever o futuro, controlar o universo e moldar nossas vivências através da nossa capacidade de imaginar, criar e interpretar as coisas de maneiras diferentes. O que um dia foram maluquices da ficção científica, criadas por mentes estranhas e inquietas, torna-se realidade. O que um dia foi uma desdenhada e questionada criação por um jovem rapaz considerado maluco, torna-se essencial para a vida como a conhecemos. Damos sempre dois passos para trás antes de seguir em frente, por isso é que fica complicado acharmos, no ápice de nossa prepotência, que temos todo este poder pleno sobre todas as coisas.

Mas o universo é bom demais pra gente. Seu jeito de nos mostrar que já exercemos certo controle sobre ele é tão implicitamente sutil, que nós, seres tão acostumados com as aparências e as exteriorizações como prova de que/do que somos, não percebemos que já somos tudo o que precisamos ser. A sociedade global vive num estado perpétuo de insônia, porque quando durmo daqui, você acorda daí (ou vice-versa), e assim o próprio universo nunca dorme, sempre está alerta e pronto para nos auxiliar no que quer que descobrirmos e aproveitarmos dele. A humanidade adora seus mistérios porque adora desvendá-los, e quanto mais descobrimos, mais o universo nos dá para descobrir, ele responde nossos questionamentos com novas perguntas, e desta forma a mágica nunca acaba: vivemos um eterno processo de renovação de nossas curiosidades. Quanto mais somos agressivos com o universo, mais ele nos devolve em bondade, mesmo quando fica difícil de percebê-la, mesmo quando ela de fato não está aqui entre nós, o que não significa que eventualmente as coisas não melhorarão; e quando melhoram, quando respiramos a afabilidade das nossas relações, ainda não nos esquecemos das tempestades pelas quais passamos, como se este fosse um mecanismo de prevenção que nos é dado pelas mãos do cosmos. Nós tomamos conta do universo, e ele toma conta da gente; nós somos negligentes com o universo, e ele, por mais raivoso que possa ficar de vez em quando, continua tomando conta da gente. Sigamos.

Vivi o suficiente para entender porque necessitamos tanto da sensação de controle e poder sobre todos os aspectos de nossas existências, mas ainda não vivi o tempo preciso para aprender a não ser assim, porque a história, que insiste em se repetir, ainda caminha para a direção dos combates entre os que já não conseguem mais esconder esta necessidade e os que acreditam que ela não exista dentro de todos nós. Todos nós nos enganamos, alguns de maneira mais cruelmente cega, outros amargam por saberem que existe uma saída, mas que esta ainda é desconhecida, e outros tantos preferem apenas viver sem tomar o conhecimento da caverna na qual nos encontramos. Porque nós podemos abrir nossos olhos e enxergar apenas a escuridão, como também podemos abri-los e enxergar ondas gravitacionais nunca antes vistas dentro deste mesmo buraco negro.

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