Sobre A Unicidade Na Multiplicidade de Nossas Almas, ou Uma Política Nova

Primeiro nos disseram que uma alma que se assemelha a uma árvore frutífera rica em galhos, tão rica que não faz muita diferença quando um deles se parte ao meio porque a árvore não estará desamparada, é uma alma imoral, uma alma maculada, uma alma que deve ser urgentemente consertada. Depois nos disseram que, se for uma árvore de porte moderado, um pequeno flamboiã, tímido na calçada, com seus galhos geralmente cortados por nós mesmos para que estes não atrapalhem a passagem das pessoas, uma planta modesta, mas capaz de florescer majestosamente na medida dos limites a ela impostos, então estaria tudo ok em termos uma alma-árvore. Agora, o que nos dizem é que devemos ser a floresta toda, devemos ser todas as árvores de uma só vez, grandiosas, de espécies variadas, que dão flores, que dão frutos, que dão nada — devemos ser tudo e nada ao mesmo tempo, enquanto evitamos ficar perdidos dentro de nós mesmos, malucos foragidos do manicômio que se perderam na floresta, você viu no jornal? Os antropocêntricos dirão que árvores apenas ocupam espaço, os progressistas dirão que quanto mais verde em equilíbrio, melhor. E o que resta para nós, não intelectuais, ignorantes nas palavras de uma academia arcaica que se veste de liberal (que, por sinal, está cercada por árvores)?

O problema do homem que tem uma alma-árvore é que, seguindo o costume de arruinar tudo o que ele põe a mão, o homem nada aprende com a capacidade de respeitar os limites de outras pessoas que também possuem almas-árvores. As árvores não precisam cortar seus galhos para que caibam todas numa floresta, elas apenas nascem, crescem e mutuamente se ajustam. Mas nós, homens, nós não — nós nascemos, custamos a crescer e, quando grandes, queremos o nosso espaço e o espaço do outro também. Há a lei externa, mas nossas almas não possuem leis. Ou melhor: seguimos uma ordem jurídica alternativa, na qual a regra é quebrar regras, sabendo que, mesmo assim, seremos punidos. E quem disse que temos medo da punição? Não tememos a punição, tememos a dor de ter nossos galhos cortados porque os galhos dos outros estão crescendo tanto quanto ou mais rápido do que os nossos. Correto seria se possuíssemos critérios e diretrizes para o crescimento de nossas almas-árvores, mas talhar a elasticidade de nossas madeiras pessoais é impedir com que atinjamos todo o nosso potencial fotossintético. Paradoxalmente, se não desenfrearmos nossa ganância de baobás no corpo de bonsais, seremos bombas que destruirão todo um ecossistema. Uma menininha viciada em astronomia perguntou-me: descobriram novos planetas! E agora, vamos acabar com todas as florestas deles também? Não sei, meu bem. Não sei.

Vamos criar um Sindicato de Possuidores de Almas-Árvores. Legislaremos acerca dos conflitos socioeconômicos do nosso crescimento supre-hiper-ultra-intrapessoal, iremos contra o status quo das constituições modernas, uma forma nova de fazer política espiritual; objetivaremos atender à todas as necessidades básicas que o nosso verde possuir (o Sol é para todos! A água também! E os frutos também! E a terra? Ora, mas é claro que a terra é de todos!), uma verdadeira democracia florestal de pessoas com galhos demais em seus corpos. Vamos fazer uma reordenação das nossas ágoras através da educação, educar-nos-emos, todos juntos, acerca das implicações em deixarmos que as folhas do lado direito de nosso tronco sejam egoístas demais e não permitam que as folhas dos outros troncos respirem a mesma quantidade de oxigênio da qual todos necessitam, discutiremos a ética da metafísica de nossos espíritos coexistentes com nossas almas, iremos transformar os portões de ferros que nos aprisionam dentro de nossas mesquinharias em tantos outros troncos quanto forem possíveis. Queremos uma consciência una e que trabalhe para a implementação de uma pedagogia que não oprima o crescimento de nenhuma alma, mas que apenas agregue. E tenho dito: não somos vermelhos, somos verdes!

Disseram que pensar demais é loucura, que pensar moderadamente é um trabalho eterno e que pensar sem medidas é, enfim, o correto a se fazer. Disseram que éramos histéricas, disseram que talvez não fôssemos tão histéricas assim, disseram, enfim, que precisamos só de liberdade e ficaremos bem. Disseram isso anos atrás, disseram aquilo ontem, hoje dizem sem que compreendamos uma palavra se quer. Ninguém nunca para de falar, ninguém nunca escuta. Ninguém tem uma solução inovadora para os problemas de nossas almas, apesar de muita gente fingir que tem (eu também finjo, não escondo isso não). Ainda temos medo do exagero, medo do tédio e medo do nada — afinal, o que é que não tememos? Não tememos a pesquisa, tememos os resultados. Precisamos dos resultados, porque pesquisas já temos por demais. É que somos tantas árvores, em tantas florestas, em todo o canto deste planeta, que os questionamentos não se esgotam, nunca se esgotarão. Todo dia uma espécie nova de árvore é descoberta, e você quer que eu acredite no fim do mundo? Talvez numa distopia, que se transforme numa utopia, que se transforme em caos novamente — árvores sintéticas, que são substituídas pelo recomeço da natureza como a conhecemos, que são substituídas pelo início da artificialidade, mais uma vez. Digo à minha pequena cientista: sim, iremos destruir todos os planetas, e iremos reconstruí-los também.

Assim é o ser humano — de alma inquieta e de mente pensante que, juntas, cometem mais erros do que acertos e demoram muito para distinguir o certo do errado; mas elas precisam sobreviver, nós precisamos sobreviver e, por isso, seguimos em frente.

Espero, sempre, a primavera chegar.

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