Sobre A Validação dos Nossos Sentimentos, ou Você é a Sua Cor Mais Quente

Para uma pessoa que pensa tanto sobre várias coisas (e, frequentemente, pensa demais nas mesmas coisas), seria plausível se me vissem como alguém com considerável compreensão acerca dos meus próprios sentimentos, até mesmo com o estado de confusão quase-permanente em que eles se encontram. Sinto lhes informar que até hoje eu não consigo aceitar que tenho o direito de me sentir da forma como me sinto em determinados momentos que vivo — é aquela velha história de nos culparmos pela ansiedade ou pela depressão, porque temos feridas que não sangram e que são alvos fáceis para os mais céticos. Isso nos faz querer acreditar que está tudo bem, e que somos irresponsáveis por nos sentirmos desta ou daquela maneira. Engano-me por achar que não sou dona dos meus sentimentos, o que me causa sensações piores, porque quero controlá-los, mas não consigo nem mesmo aceitá-los. O meu nível de misantropia não beira a sociopatia, está mais para apatia mesmo — não convivo bem com a humanidade que estamos criando, mas não consigo deixar de amá-la, e odiá-la, e amaldiçoá-la, e sofrer por ela.

Ás vezes é como se eu quase pudesse tocar meus sentimentos quando estou lendo um livro, talvez seja um dos raros momentos em que essas coisas abstratas que corroem nossas mentes e corações tomam uma forma, como uma variedade da geometria que passa a fazer sentido depois de séculos e séculos sendo investigada — por ser variável, é uma forma que, inevitavelmente, se transformará com o passar do tempo, mas sempre terá o mesmo teor e a mesma base sentimental. Quanto mais leio, mais formas de sentimentos concretos eu conheço, e é por isso que a leitura me traz uma segurança muito necessária: não importa o quão profunda é a espiral de sentimentos na qual me perco, tenho um porto seguro no meio das páginas. Mas só cito meu amor por livros (mais uma vez) para ilustrar que não é impossível reconhecermos o controle da validade de nossos sentimentos. Só precisamos procurar em quais situações percebemos que o que sentimos cabe na palma de nossas mãos, para que possamos transformar toda essa confusão em uma massa de modelar — sei que parece que quanto mais tentamos sair desse furacão que é o ser humano, mais campos destruímos no meio do caminho, então o negócio é justamente esse, nos agarrarmos à essa crença de superação de nós mesmos. Já fui dessas que negavam fortemente a influência de “nós em nós”, até que me vi sem opções — e só quem já esteve sem opções conhece a profundamente do poço que nos faz sentir falta do furacão.

Às vezes eu gosto de não ter esse controle, porque tudo me parece muito mais natural quando deixo meus sentimentos simplesmente fluírem. O problema é que essa fluidez nem sempre é calma, nem sempre são as águas de uma nascente, podem ser também águas de uma transposição que deu errado. E por cima deste problema, temos mais uma incógnita — tudo isso é, como disse, natural, seja nascente, seja transposição, tudo são detalhes exclusivamente nossos e que trazem consequências tão somente nossas também. Isso quase me faz concluir que o controle seria, então, uma solução igualmente natural para a essência dos nossos sentimentos fluídos e confusos, mas, no final das contas, não é bem assim — se sinto, é porque sou, e se me controlo, é porque posso. O poder e o ser são duas coisas distintas: o primeiro vem do segundo, e o segundo independe do primeiro. Então eu quero ser essa confusão de sentimentos quando ela me faz bem, mas quero poder freá-la quando ela sai do meu controle. Quero ser naturalmente uma efusão de afeições, e quero ser a minha própria compressão. Só que a termodinâmica do ser humano não possui leis exatas como as da física. O que devemos fazer, então? Respeitar as leis naturais ou intervir em seu funcionamento? Digo que devemos fazer os dois: porque somos, e porque podemos.

Às vezes penso que estou sendo simplesmente sincera com a minha própria vida quando me permito sentir-me da maneira que for, porque estou sendo honesta comigo mesma — sorrio quando estou triste, choro quando estou feliz, sinto saudades de quem não deveria sentir quando estou com raiva, e quero longe de mim as pessoas que mais me amam quando preciso ficar sozinha. Apesar de alguns destes sentimentos nas horas erradas indicarem a problemática da falta de controle emocional, eles indicam também a necessidade de ser quem eu sou através das exortações espontâneas das minhas reações com a vida em si. Tenho medo de chegar o dia em que o fingimento tomará conta das minhas relações — porque ora ou outra eu acabo fingindo alguma emoção, não tem como escapar por completo, não existe a perfeição, lembram? É esse medo que me faz ter a certeza de que prefiro o calor da confusão sentimental do que a frieza de um controle emocional quasi ditatorial. Mais uma vez, pergunto-lhes: lembram-se também de que não existe certeza alguma neste mundo?

Quando experimentamos nossos sentimentos separadamente de nós mesmos (seja por fingimento, seja por um descontrole excessivo, seja pela não aceitação), estamos nos aprisionando a uma ilusão de nossa própria existência. Talvez seja por isso que advogo pela chance de nos confundirmos com nossas emoções, para que nossos seres sejam mais palpáveis, mais cândidos, mais genuínos. Seja o sentimento que nasce de acordo com o que somos, seja aquele que surge quando nos transformamos, não importa: que corpo, alma e coração sejam nossos filtros, deixando para trás algumas impurezas, denotando a realidade de simplesmente sermos.