Sobre Boas Ações Num Mundo Cansado, ou Liberdade No Mundo Enquanto Prisão

(‘White Daisies Rhapsody’ — Alma Thomas, 1973)

Há algo na simplicidade da verdadeira bondade que me fascina: é a falta da necessidade de se concentrar em ser bom que as pessoas boas possuem. Já perceberam isso? Somos seres tão incompletos em nossas próprias concepções do que é ser bom que estamos, constantemente, buscando aprender mais sobre esta qualidade imprescindível para nosso crescimento pessoal. Em suma, nos concentramos em aprender a sermos bons, enquanto pessoas genuinamente e inerentemente boas simplesmente o são. Costumava invejá-las, hoje apenas as admiro, apesar de não ter a certeza se um dia conseguirei ser tão boa quanto elas. Essa bondade autêntica está livre de qualquer vício de caráter que possa macular a sua constituição — inveja (culpada!), ansiedade, expectativas, ganâncias, o que quer que vá contra a acepção mais pura e angelical do que é ser bom. Já escrevi sobre isso antes, e volto a repetir que vejo em minha mãe e em minha avó a representação mais legítima da bondade (acredito eu que todos nós temos esse alguém em nossas vidas), e me espanta a forma com que elas permitem o livre passear da fluidez deste sentimento em seus relacionamentos. Até mesmo no jeito ranzinza de ser de minha avó, endurecida pela idade e pelas dificuldades da vida, não é capaz de esconder o altruísmo da velhinha.

Causa-me espanto também quando leio notícias sobre como grandes mulheres vencedoras de prêmios por seus trabalhos em disseminação da paz em suas nações estão deixando-se envolver em gravíssimos escândalos de corrupção, a maior mancha de caráter que alguém pode ter. Isso me causa espanto porque me desanima — sendo uma jovem mulher dedicada à questões políticas e que procura manter a esperança viva, acordante com os passos que dou em busca de uma melhora em meu ser, o descrédito que meus ídolos me dão é como uma facada em tudo o que acredito. Fico parecendo uma criança que perde o sentimento de segurança que o abraço da mãe lhe transmitia. Questiono: se nem mesmo aqueles notavelmente bons conseguem permanecer intactos em sua magnanimidade, o que sobra pra nós? Por vezes, acho que estou sendo injusta com essas pessoas porque, assim como nós, elas são apenas humanas, suscetíveis à maré da ruindade que tenta constantemente nos afogar. Mas é que eu acredito nas vantagens da passagem do tempo, apesar de brigar com ele — acredito numa sabedoria adquirida com a idade avançada, especialmente para aqueles que dedicam suas vidas à aquisição deste conhecimento maior sobre o que é sermos humanos e conviver em sociedade. Acredito neste crescimento pessoal-intelectual porque preciso apoiar-me num sentido maior sobre o que tudo isso que me rodeia significa. E então, é claro, como se anjos e demônios não conseguissem mais manter suas guerras para longe do plano terreno, a propagação da malevolência é mais forte do que qualquer sinal de que estamos, finalmente, progredindo enquanto comunidade. Um anjo grita lá de cima “Não desista!” e tem sua boca amordaçada por um demônio.

Tenho flertado com a noção de que minhas referências são, realmente, tão humanas quanto eu. O perigo dos ídolos que os filósofos tanto tentaram (e tentam) nos alertar sobre: ídolos são feitos de vidro até mesmo mais frágeis do que o material que nos constitui. É que nós os colocamos num pedestal superprotegido, e por isso fica mais difícil de ver-lhes quebrar. Mas, quando quebram, não há cola potente o suficiente para remendá-los. E quando um ídolo se desmonta, bem na nossa frente, desmonta-se também parte de nossas crenças criadas e depositadas na figura idealizada. No meu caso, é essa figura da bondade que tanto idealizo e designo à imagem dessas grandes mulheres — benevolentes em seu sexo, belas em sua sabedoria, vitoriosas em suas lutas. Por um tempo, olhava-me no espelho e não as via em minha imagem. Hoje vejo no meu reflexo um pouco de todas as mulheres que lutaram por suas liberdades apenas para se aprisionarem na contradição do descumprimento de suas crenças, protestando contra os abusos do meu autogoverno, sendo presa dentro de mim mesma, libertando meu coração e pondo-o à venda, indiscriminadamente. Cometo os mesmos crimes que julgo inafiançáveis, mas subo até o topo do meu egocentrismo e me livro de qualquer condenação. Nada, no entanto, é capaz de apagar o bem que um dia eu fiz, da mesma forma que nada é capaz de substituir os efeitos de uma maldade que se prolongam no tempo. Quantas vezes teremos que repetir para nós mesmos: “somos apenas humanos”?

“A única prisão verdadeira é o medo, e a única liberdade verdadeira é a liberdade do medo. Se seus sonhos não te assustam, não são grandes o suficiente.” E se nossos sonhos nos assustarem a ponto de nos prenderem num medo cíclico, tirando-nos a liberdade de agir para que se realizem? Essa é a dicotomia mais perigosa para nós, sonhadores: sonhamos com medo de sonhar. Prendemo-nos em sonhos, mesmo sendo livres dentro deles. Do lado de fora, o caos é o que reina, e só nos resta, então, questionar tudo isso e mais um pouco.

Mesmo quando buscamos por respostas que pareçam inalcançáveis, que possamos, pelo menos, tirar o hábito do medo constante de dentro de nós. Assim voaremos sem medo da queda e, quando cairmos (porque iremos cair, diversas vezes), não temeremos também a dor do processo de cura de nossas asas.

A bondade dos céus, para nossa sorte e na forma de liberdade, é infinita.