Sobre Estantes de Livros Que Falam, ou Reflexos de Um Sonho Distante

Meu maior sonho — e vejam só o perigo em jogá-lo ao vento desta forma — é ter uma biblioteca pessoal com 45.000 mil livros. Não me pergunte o porquê deste número específico, mas desde criança, quando teve início esse meu vício em livros, coloquei na cabeça que teria uma biblioteca pessoal com essa quantidade de volumes, e que quando morrer, caberá aos meus filhos e netos decidirem o que fazer com esses livros, doá-los, montar uma biblioteca pública, simplesmente mantê-los em casa como uma biblioteca pessoal da família. Só estão terminantemente proibidos de vendê-los. O difícil mesmo não será decidir o que fazer com minha herança, mas sim conseguir juntá-la. Tenho tentado: nos 20 anos de minha vida, consegui adquirir em torno de 500 livros, mais ou menos. Fazendo as contas, se continuar assim, precisarei viver 20 vidas para ter os 45.000 livros. Bem-vindos à vida de uma pobre.

Desnecessário dizer, no entanto, que não importa muito a quantidade quando considero a felicidade que estes livros me trazem. Um grande número deles continua não lidos (e eu continuo comprando-os), mas são todos os meus filhos, amo-os igual e incondicionalmente. Estão atualmente divididos em quatro estantes, no meu quarto, e são a alma do meu ambiente de repouso. Acredito que todos nós temos nossas peculiaridades, em níveis diversos e que se exteriorizam de variadas formas. No meu caso, percebi faz algum tempo que possuo o extraordinário poder de antropomorfizar qualquer coisa. Tenho feito isto recentemente com as minhas estantes de livro. Talvez seja porque são relativamente novas e as estantes mais bonitas que já tive, mas são quatro estantes que possuem nome, personalidade própria e que, ocasionalmente, conversam comigo quando estou muito sozinha.

A primeira estante chama-se Luislinda, e contém apenas livros da faculdade de Direito. Recebeu este nome em homenagem à Luislinda Valois, a primeira magistrada negra do Brasil, e de tabela homenageia também Luis da Gama, o primeiro advogado negro do país. Assim decidi por batizá-la porque estes personagens da história nacional brasileira representam mudanças, e é o que estes livros significam pra mim. O conhecimento do Direito propriamente dito é a forma mais poderosa de emancipação do cidadão, e às vezes, quando encontro-me desacreditada da profissão que escolhi, converso com Luislinda, pedindo apoio. Ela sempre me responde: “Então pare com tudo. Você não é obrigada a nada. Liberdade. Só não se esqueça de que as consequências são suas e somente suas”. Luislinda é assim, bem fria. A segunda estante tem o nome de Amélia, referente à Amélia Earhart. Contém toda a literatura do mundo que eu possuo, exceto da Ásia Oriental. É a estante que sempre me apoia quando preciso da autoafirmação de que posso abraçar o mundo.

A terceira estante é a dos livros da literatura Ásia Oriental, principalmente autores chineses, japoneses e sul-coreanos. Minha obsessão com a literatura asiática é algo inexplicável. Chama-se Akiko, e por nenhum motivo específico além do fato de homenagear minha poetisa japonesa favorita. É uma estante engraçada. Lembra-me o paraíso — ou a ideia fictícia que eu tenho do paraíso: transmite a sensação de que tudo vai ficar bem, tudo está interligado e tudo um dia fará sentido. A quarta estante não é de livros, mas de quadrinhos e mangás, em sua maioria os últimos. É a única estante masculina, atende pelo nome de Edogawa, referenciando ao escritor japonês que tem vários de seus trabalhos adaptados para mangás e animes. Responsável por satisfazer meus prazeres ocultos e dissipar minhas profundas preocupações, Edogawa é aquele amigo que te desvirtua por uma noite e vela por você na manhã seguinte.

Ou estou passando tempo demais sozinha, ou livros são realmente os melhores amigos do homem, depois dos cachorros. Acho que minhas estantes estão se transfazendo em fatores decisivos do meu determinismo ambiental, e como num procedimento científico-biológico maluco, não são elas que estão se tornando humanizadas, mas eu é que cada vez mais me torno parte dos livros que leio, apesar de ser mais coerente pensar da forma contrária, que são os livros que se tornam parte de quem somos. Ou então, candidamente, talvez tudo isso seja o desenho perfeito da relação ideal: estes livros cuidam de mim, e eu cuido deles em troca.

Like what you read? Give Poli Gomes a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.