Sobre Lembranças De Um Velho Armário, ou Mergulho da Alma

A maior vantagem em se abrir para a necessidade de se autoconhecer é que você fica tão acostumado em querer desvendar seus próprios segredos que, mesmo quando sabes que vai doer muito, você não consegue mais manter todos os sentimentos exprobados perfeitamente guardados dentro de uma gaveta. É como se esta gaveta fosse formada por algo mais poderoso que a água que mantém a todos em pé, e as ilusões da vida estivessem todas juntas dentro do compartimento — só que ao invés de diluir tais ilusões e livrar-nos de nossas aflições, este fluido apenas mantém tudo vivo, tudo limpo, apenas esperando que nós enfrentemos as coisas porque, afinal de contas, somos nós quem as criamos. Por mais que queiramos digredir destes sentimentos (como se perder o foco de nós mesmos não fosse algo terrivelmente perigoso), a própria vontade de fuga é algo que se confunde com os objetivos de nossos questionamentos pessoais: por um lado, quando pensamos em abrir nossas gavetas mentais, só queremos correr; por outro, isto só quer dizer que somos quem somos — curiosos, inocentes, desbravadores e ingênuos e que, com toda a enrolação do mundo, ainda assim iremos abrir nossas caixas de Pandora.

Interessa-me estudar a estética literária e as teorias existencialistas, a psicanálise moderna e o niilismo acadêmico; interessa-me juntar todos estes conhecimentos, confundi-los e permiti-los criar suas raízes dentro de mim, para que o meu encontro comigo mesma seja mais sincero, mais profundo, menos pretencioso e menos direcionado, porque quanto mais eu leio, mais aprendo a reconhecer que preciso aprender muito mais. É a mesma coisa com nossos seres: quanto mais deles conhecemos, mais somos capazes de perceber que nossas interrelações possuem uma complexidade além da nossa compreensão. A analogia continua sendo a mesma quando percebemos a voracidade de um leitor em formação e o encantamento de uma pessoa que cresce dentro de si mesma. Às vezes eu quero tomar um chá e comer alguns biscoitos enquanto me perco em devaneios sobre a vida, e às vezes só quero sentir a reciprocidade psíquico-carnal de outra pessoa ao meu lado, o calor de suas palavras e o envolver de sua mente com a minha enquanto me perco nestes mesmos devaneios. Às vezes prefiro estar sozinha com meus mundos internos, e às vezes tento dividi-los com alguém — apenas tento, porque esta ainda é uma tarefa que não realizei com sucesso. Talvez um dia.

Quando nos encontramos nestes momentos nos quais relutamos para aceitar o inevitável (sim, teremos que nos abrir para que possamos nos fechar com a delicadeza da calmaria de espírito que nos é de direito), tenho concluído ultimamente que o melhor a ser feito é realmente lutar ferozmente com o que nos prende à nossa cama, dar um golpe fatal na nossa covardia e desprendermo-nos de uma vez das forças que nos impedem de descobrir verdades doloridas, porém necessárias. Vejam só um exemplo prático: por vezes encontro-me tão estupefata com a minha confusão interna, que um sentimento de desespero sufocante toma conta de mim, diferente do que sentimos num ataque de ansiedade, e só o que tenho vontade de fazer é arrancar meu coração pra fora, tirar cirurgicamente este sentimento dele, e colocá-lo novamente em meu peito. Só que essa dor não é física, não atinge meus músculos, minha carne, é um desconforto meramente mental. O único efeito que possui no meu corpo é que é uma sensação tão estonteante que faz com que eu não consiga levantar-me do lugar no qual me encontro para ou escrever estes sentimentos, ou falar sobre eles com alguém, ou simplesmente caminhar enquanto penso neles. É por isso que resolvi tentar uma abordagem nova diante desta situação: ao invés de permitir-me ficar sentada ou deitada tentando relaxar meu estado emocional destes sentimentos, eu me forço a fazer algo bruscamente, me forço a levantar e escrever (ou conversar, ou andar) para que este estupor saia de uma vez por todas de dentro de mim, saia logo da gaveta e seja transposto em qualquer outro lugar, de qualquer outra forma. Não chega a ser algo que se assemelha a estas listas de recomendações para melhorar um desânimo causado por neurotipicidades que encontramos na internet, é uma atitude mais cruamente humana diante de uma situação igualmente crua. Não me levanto para tomar um banho e assistir Netflix com um chá quente em mãos. Levanto-me obrigando-me a abrir minha gaveta dos segredos. Se isto é saudável? Depende muito do que objetivamos conseguir como melhora pessoal.

Mas sabem como a água que, como escrevi ali em cima, é o que mantém todos nós em pé? O que nos sustenta, o que nos forma e o que nos deixa vivos? É a sensação de tomar água quando temos uma profunda sede que se assemelha à de permitirmos jorrar para fora de nossos espíritos toda essa paixão que fogueia-nos como bichos socráticos sob o efeito de um bom vinho num jantar repleto de outros bichos ávidos pelas ladainhas que saem de nossas bocas e não nos preocupamos em guardá-las porque o eu de ontem é diferente do eu de hoje. Acontece que cada detalhe meu é única e exclusivamente meu, por mais que sejamos todos tecidos feitos de retalhos de tantos outros detalhes de tantas outras pessoas. Vivemos em constante excitação, mas o gozo é eventual.

Queria guardar na minha gaveta interna uns morangos, uns biscoitos de chocolate, uma cópia antiga de Lolita e um pouco de água. Porque sem água não dá para viver, né? Mas imaginem se essa água derrama em cima dessas coisas guardadas dentro de uma gaveta fechada! Os morangos se encherão de fungos, os biscoitos se dissolverão e as palavras do livro se desmancharão como um hieróglifo que é apagado por uma chuva torrencial. Se isso acontecesse, eu teria que voltar à primitividade, sem nem mesmo conhecer meu futuro-presente. Ah, como seria triste…

Like what you read? Give Poli Gomes a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.