Sobre Lidar Com A Musa, ou Arte Porque Gostamos

(Mimmo Paladino)

As pessoas tendem a questionar-me sobre minha inspiração, minhas ideias, meus pensamentos e minha forma de escrever — há quem ache todo este processo criativo fascinante, há quem se admira, porém não se interessa de verdade, e há quem não se importa muito com o contar de histórias até que se vê obrigado a contar sua própria versão dos fatos. Geralmente eu lhes digo que minha maior fonte de inspiração é, sem dúvida, a vida cotidiana. Acredito ser esta a fonte de toda a inspiração do mundo, de todos os artistas em todas as variadas formas de se fazer arte, mas, em especial, o escritor brasileiro possui uma forte dedicação ao mundano, ao simples, à influência da luz do dia que bate na janela e reflete na xícara de café enquanto Dona Maria espera o Seu José se levantar da cama. Brasileiro gosta de rotina — até mesmo quando tentamos fugir da rotina, acabamos voltando para ela porque nossas escapadas viram hábitos. Não me entendam erroneamente — gostamos da simplicidade de se viver bem, em paz e feliz. Não somos o povo mais feliz do mundo, mas definitivamente tentamos ser. E isto tem ficado cada vez mais difícil de ser alcançado por aqui. Meus amigos estrangeiros me dizem, no entanto, que essa dificuldade é universal: a graça da rotina está no fato de que enquanto estamos nos perdendo nos pequenos detalhes da vida (um café pela manhã, uma conversa à toa na hora do almoço, uma briga no trabalho, uma noite cansativa na faculdade), a vida está passando e nos levando juntos de uma forma inconscientemente involuntária. Para um amor crescer, ele precisa de calma, e para se ter calma, precisamos de uma paz diária, daí surge a importância da rotina. Mas para o amor germinar, precisamos da aventura, sem sombra de dúvidas.

É nessa mistura de amante do dia-a-dia e inimiga da mesmice que encontro a minha necessidade de expressar-me através das artes. Quando o tédio fica demasiadamente gritante, ou quando as loucuras passam dos limites, ou quando nem calmaria e nem guerra conseguem me tirar de um estado de estupor no qual só sei questionar o que é que está acontecendo com este mundo, ou quando me sinto tão revigorada de viver esta vida que minha mente se esquenta num turbilhão de ideias — em qualquer momento, é momento de escrever, é momento de criar, é momento de apaixonar-se por algum tipo de arte, e é momento de reconhecer que arte não é distração, é necessidade. Arte e vida se misturam da mesma forma que viver e transmitir as vivências para a arte se convergem em processos simultâneos. Li certa vez um poeta, em algum lugar, dizer que necessitava de ter seu coração constantemente partido para que pudesse criar os versos que tanto encanta o mundo (me dói não lembrar exatamente quem é este escritor — precisava ter uma conversa com ele). Concordo e discordo. Concordo que a dor é ferramenta para a poesia, mas discordo que seja uma necessária. Não sei se quero colocar meu coração no fogo para que das cinzas nasça amor em forma de palavras; mas que nossos corações já vivem em incessante estado de inflamação, isto não posso negar.

Eu posso permitir que meu pessimismo fale por mim agora, e desta forma lhes direi: “A vida é um horror. É difícil, é cansativa, é complicada, não temos solução para tantos problemas, peçam aos céus que não desçam mais pessoas porque precisamos de uma nova praga!”. Ou posso deixar que meu otimismo pinte seus olhos das cores amarelas dos cabelos daquela menina que sabia ver o lado bom de tudo: “A vida é bela. Enfrentar obstáculos e vencê-los é bom demais, ver a luz no final do túnel é uma sensação única, só não temos solução para a morte…”. De ambas as formas, com ambos olhares para a vida, é possível retirar alguma lição poética, é possível entender através da arte os sentimentos que fluem e permeiam as duas posições que nossos espíritos podem assumir — de pouca fé ou de esperança. Eu oscilo entre as duas, porque sou apenas humana, assim como você. E não tem problema algum nisso. Estranho seria se não enxergássemos a realidade, nua e crua. Mas ainda bem que enxergamos, porque assim poderemos criticar o poeta masoquista e exaltar o pintor romântico, podemos entender o músico que chora e amaldiçoar o cineasta que nos faz chorar. Se pudermos ser humanos, poderemos também ser sensíveis, poderemos ser compreensíveis e poderemos amar a arte.

Sei que é difícil viver assim (sei, realmente, que é difícil viver). É complicado esperarmos que a inspiração agarre nossas mãos e caminhe conosco por uma eternidade ainda mais eterna, quando escutamos a televisão nos dizer que todo o mundo se encontra num processo de divórcio. Somos crianças órfãs de um sentimento de comunidade, e sim, precisamos de terapia. Quem sabe uma terapia em grupo? Não? Talvez assim dividiríamos um pouco do fardo que nos obrigam a carregar diariamente, um peso que detestamos, um peso construído por tudo aquilo que não aceitamos, mas nós carregamos tudo diligentemente, até que entendamos que, mesmo que não seja possível dividi-lo, devemos, pelo menos tentar. A inspiração torna-se, neste contexto, uma pequena pena de pomba, leve e branca quase transparente, que pousa em cima desse peso que carregamos como se adicionasse mais mil toneladas em nossas costas. Nós caímos, de joelhos, e pedimos a quem quer que nos ouça uma chance de largamos o peso e aninharmos a leveza da musa em nossos braços. Ora nos permitem. Ora nos condenam mais ainda.

Nem só de inspiração vive o homem — é preciso botar comida na mesa para as crianças.