Sobre Momentos Mágicos do Mundo, ou Aqui e Agora

Em algum lugar (ou alguns lugares) deste planeta, neste momento enquanto escrevo um pequeno texto sobre lugares do mundo, vinicultores e seus filhos brincam de pisar em uvas, num estilo arcaico, clássico e artesanal de se produzir a bebida, e ninguém pensa sobre pés sujos ou limpos, sobre as implicações do contato humano com a fruta da qual sairá um líquido para esquentar nossas noites de inverno. Ninguém pensa também em aumentar as exportações do produto, em fabricar mais para lucrar mais. Pelo menos não enquanto pais e filhos se divertem com a estranha e prazerosa sensação de amassar essas frutinhas e sentir seu suco ser exprimido para fora de suas cascas, fazendo com que vários pés afundem-se numa crescente camada de um líquido natural que será fermentado em álcool posteriormente para acabar em noites de alegria que serão temporariamente esquecidas com a dor de cabeça matinal do dia seguinte. Neste mesmo lugar do mundo, enquanto pais e filhos não conhecem a prensa mecânica de uvas, um avô está sentado observando a nova geração de sua família dando prosseguimento nos negócios que seu pai, e o pai de seu pai iniciariam naquela pequena terra portuguesa no século passado. Versos de canções antigas percorrem a mente do velho, e ele não consegue conter a alegria contagiante de seus amados, e a tristeza de saber que logo ele terá que se despedir de tudo isso. Em algum lugar do mundo, vinicultores e seus filhos lembram o que é ser família.
Em algum lugar (ou alguns lugares) deste planeta, neste momento enquanto escrevo um pequeno texto sobre lugares do mundo, jovens adolescentes contam em seus calendários a passagem de tempo de seus relacionamentos com os respectivos namorados e namoradas — um mês, dois meses, três meses de namoro, um ano de namoro: é hora de comemorar. Eles olham seus celulares, na expectativa de que uma mensagem de felicitação irá chegar, mesmo sabendo que quando esta chegar os celulares irão avisá-los, mas nada até agora. A ansiedade cresce. O medo de que os parceiros tenham esquecido a data também cresce (e a raiva diante desta possibilidade segue o mesmo caminho). Estes jovens estão tão dispersos em pensamentos sobre o que esperam ganhar de presente (flores? chocolates? cartas?) que nem mesmo se dão conta da beleza do momento em que vivem — nada é mais importante no mundo do que esta simples data comemorativa. Não interessa, realmente, que outras pessoas prefiram se distanciar deste tipo de frivolidade; para aqueles sobre os quais escrevo, é tudo ou nada neste dia, é o fim do mundo ou o recomeço dependendo de qual seja a atitude que seus parceiros irão tomar. Alguns se esquecem de que esta comemoração tem que ser recíproca, e só ficam esperando que o outro tome a iniciativa. Em algum lugar do mundo, jovens adolescentes celebram o amor, incansavelmente.
Em algum lugar (ou alguns lugares) deste planeta, neste momento enquanto escrevo um pequeno texto sobre lugares do mundo, tem juízes de direito que não conseguem dormir a noite porque suas decisões judiciais pesam mais que um simples ato de ofício, pesam como se fossem decisões de suas vidas pessoais. São raros, estes juízes. Geralmente são demasiadamente jovens na carreira, ou que se dedicam à arte de ser humano com uma fidelidade única, ou então não aprenderam ainda como praticar suas profissões com a frieza que lhes é requerida. Sei que agora eles não conseguem dormir; tomam remédios para dor de cabeça, deitam-se, repousam suas cabeças nos travesseiros, e as palavras que escreveram em suas sentenças dançam provocativamente em suas mentes — nada de erótico tem, aproximam-se mais de algozes operadores de guilhotinas provocando o condenado à morte que está prestes a ter a sua cabeça cortada. Estes juízes se sentem como os próprios condenados à morte que condenaram, as próprias crianças retiradas de seus âmbitos familiares que retiraram, os próprios donos de bancos que faliram que decretaram suas falências. Sentem medo da morte, do desamparo, da fome. Sentem que não estão cumprindo seus papéis de protetores, aplicadores, defensores da lei enquanto mecanismo de manutenção de uma sociedade coesa; sentem, então, que estão falhando. Aí os remédios começam a fazer efeito — eles dormem, para acordar na manhã seguinte prontos para mais um dia de trabalho e, consequentemente, mais uma noite de perturbações. Até que, eventualmente, aprendam as vantagens e desvantagens de terem o poder nas mãos. Em algum lugar do mundo, juízes se autoflagelam, motivadamente ou desmotivadamente, só o tempo irá nos dizer.
Em algum lugar (ou alguns lugares) deste planeta, neste momento enquanto escrevo um pequeno texto sobre lugares do mundo, existe um número incontável de pessoas que observam as outras para que possam transpor para o papel os detalhes da vida que acontece ao nosso redor. Estas pessoas são vinicultores, jovens adolescentes apaixonados, juízes, e tantas outras coisas. São todas as pessoas do mundo e, ao mesmo tempo, são elas mesmas. Aí é que está a dificuldade — em serem elas mesmas enquanto todos os outros seres do mundo insistem em fazer parte de suas (nossas) personalidades, como intrusos que ora são bem vindos, ora desejaríamos matá-los rapidamente. São pessoas que se autoflagelam através de afogamento em vinho devido ao amor que as sufoca. São seres que carregam nas pontas de seus dedos todas as histórias do universo, e como ficam pesadas suas mãos por conta disso…
Em todos os lugares deste planeta, neste momento enquanto escrevo um pequeno texto sobre lugares do mundo, a vida sorri e chora, pássaros cantam e acidentalmente morrem, escrevemos e libertamos nossas almas destas algemas invisíveis.
