Sobre Mulheres e Plantas, ou Considerando a Dualidade Humana

Quando percebi que as árvores falavam, o que me levou a escrever brevemente sobre isto, inevitavelmente, comecei a me interessar mais sobre botânica. Já era um assunto pelo qual sempre me fascinei, já havia lido belos poemas sobre a natureza no geral (Emily Dickinson é quase uma irmã mais velha), bem como alguns livros voltados mais para a ciência das plantas, mas o que tem ocorrido ultimamente comigo é que, inexplicavelmente, por todos os caminhos que sigo no que concerne à busca pela arte para me distrair, tenho me deparado com obras que lidam centralmente com temas da natureza. Li, ontem, em três horas, um livro sobre uma mulher cujas aflições pessoais a levam a querer se transformar em uma planta. É aquele tipo de livro tão bem escrito que, por toda a leitura, você acaba se perguntando se não seria o percurso natural do homem se transformar, eventualmente, em plantas. Se somos poeira das estrelas, por que não poderíamos nos descobrir, um dia, raízes de uma árvore? É o que este livro questiona (e te deixa questionando). Assisti hoje a um filme escolhido aleatoriamente, sobre uma doença que faz com que flores cresçam dentro das mulheres e, ao mesmo tempo em que essas flores servem para curar outras doenças, elas matam suas incubadoras (as mulheres que as geram). Não sei se o universo está tentando me mandar algum sinal ou qualquer coisa assim, mas para não variar, essas coincidências me fazem pensar.
Uma mulher que quer se transformar numa árvore. Você há de pensar que ela simplesmente está cansada da vida que leva, ou que suas perturbações mentais estão direcionando-a a demência, mas a todo instante ela se pergunta, por que não? Por que não? Por que não confiar e acreditar que as árvores possuem a dualidade balanceada da estabilidade e instabilidade que nós tanto queremos alcançar, mas que ainda não existiu homem neste mundo capaz deste feito e, por isso, as árvores são os modelos a serem seguidos? O sentimento aqui é o de que não estamos realmente vivendo neste mundo, e isto vai além do “viva, não apenas exista”. A sensação é a de que existimos, vivemos, experimentamos, porém algo sempre fica faltando. A capacidade que possuímos de planejar nossos futuros, algo que vem da estabilidade, é frequentemente não usada com prudência porque não conhecemos, experimentamos tudo o que temos que saber. É a instabilidade. Mas no caso das árvores, estas sobrevivem sob um equilíbrio natural distante do alcance do homem, e isto nos leva a idealizá-las.
Mulheres que dão vida às flores. Não acredito que exista alegoria mais bela para o nascimento da vida do que esta. Mas o que acontece quando estas flores são venenosas? O que acontece quando a vida não é tão gentil conosco, atingindo-nos de formas variadas e dolorosas, por todos os lados, nos dando a impressão de que talvez o viver e o existir são questionáveis? É, sem dúvidas, saudável questioná-los, e ousaria dizer que isto faz parte até mesmo do processo criativo que é a construção da história das vidas dos homens. Ver a vida apenas sob a ótica do lirismo sem compreendê-la na visão da biblioteca que guarda toda essa poesia leva a edificação dos nossos seres às ruínas. Os existencialistas já diziam, há razão na destruição. Sendo esta o gosto pela liberdade que, esperançosamente, nos ensinará e nos fará compreender que o ponto de chegada é a criação.
Talvez o que verdadeiramente nos seduza seja a possibilidade de sentir a luz do sol tocando nossas folhas e iluminando nossos arredores por meio dos espaços entre elas — é o que os japoneses chamam de komorebi, a luz que se infiltra pelas folhas. Quem sabe só queremos mesmo é sentir, no mais profundo nível dos nossos seres, a intensidade da beleza e suavidade de uma flor, e como tanto seu nascimento quanto sua morte (o estável e o instável) são belos, porque ela nasce e nos encanta, ela morre porque queremos encantar o outro. Talvez o que nos importa é nos sentirmos presentes nesta vida que vivemos, o que vai além do viver; é a conexão com este mundo que só estas plantas, que tanto cultuam as mentes dos homens, possuem. Para sentir esta presença, é preciso que saibamos lidar (e sermos recíprocos) com o costume de nos silenciarmos, silenciarmos nossas mentes, quando próximos do que é da natureza. A todo instante estamos criando diálogos em nossas mentes, mas quando sozinhos num jardim, não existe esta necessidade. Fazemo-nos presentes simplesmente por ali estarmos. Não agimos para viver este momento, também não apenas existimos sem uma ação (no caso, a de estar ali). Talvez seja esta a razão para mulheres se transformarem em árvores e darem a luz às flores na arte moderna — realmente, só a arte para tornar real o ideal.
