Sobre Nachträglichkeit, ou Noite Passada em Tóquio

Falando sobre sonhos que tive/tenho e dos quais me lembro, passei minha vida, até o momento, tendo três sonhos repetidamente. Claro que já sonhei de tudo um pouco, mas falo de sonhos iguais, que voltam durante meu tempo de repouso noturno, não todos os dias, são alternados, mas sempre os mesmos. Dois destes sonhos (envolvendo uma mulher vestida completamente em preto num sonho e um vampiro vendedor de doces noutro — típico para uma criança) pararam de me ocorrer há alguns anos já, e eu pensei que o mesmo teria acontecido com o terceiro sonho, que não tinha faz tempo. Para meu espanto, este terceiro sonho me apareceu noite passada enquanto dormia. Foi bem inesperado, não me deitei pensando em algo que pudesse puxar das profundezas das memórias do meu córtex cerebral este sonho momentaneamente esquecido.

É um sonho bem singelo, e que eu sei explicar como surgiu no meu sono. Ele sempre começa comigo andando vagarosamente debaixo de uma chuva torrencial numa área suburbana de Shinjuku, em Tóquio. Aí me perguntam: por que diabos Shinjuku, Tóquio? A resposta é simples: das inúmeras coisas que me distraiam e me encantavam enquanto criança, a geografia japonesa era uma delas — acredito eu que tenha sido por conta da paixão por todo o resto do Japão; ganhei, à época, de presente do ex-namorado da minha mãe, numa clara tentativa de conquista-la através dos agrados à filha mais velha, um livro que trazia detalhes sobre a municipalidade em questão. Até onde sei é uma coleção bem grande, falando tudo sobre a geografia de Tóquio, mas eu só ganhei este livro. Shinjuku não saiu da minha mente mais, e foi nesta época que o sonho apareceu. Voltando a ele, eu me encontro andando e andando na chuva, nesta região cuja imagem saiu diretamente de uma fotografia do livro supracitado, até que eu paro de andar e só fico inerte, de olhos fechados, sentindo a chuva. Passados alguns minutos, uma senhorinha aparece com um guarda-chuva, oferecendo-o para que eu me protegesse da chuva. Eu o aceito, mas continuo parada no mesmo lugar, agora observando a velhinha se afastar. O sonho se prolonga um pouco mais desse jeito, e então acaba.

Falar de sonhos e seus sentidos é falar de Freud. Dentre suas conclusões tiradas de estudos sobre o assunto, Freud acreditava, simploriamente, que sonhos são protetores do nosso sono. Possuidores de/e expressões de significados simbólicos e de desejos ocultos, os sonhos são comparados ao teatro na psicanálise freudiana, cheios de dramatizações e representações essenciais para o aprofundamento do entendimento pessoal de cada indivíduo. Colocadas aqui de forma extremamente vulgar, estas concepções do psicanalista acerca dos sonhos são as responsáveis por fazerem com que as pessoas busquem constantemente interpretar esses quase-devaneios do sono. Há quem o faça misticamente, e há quem respalda tal interpretação na ciência pura. Tudo bem — se sonhos são representações de desejos velados, poderia tentar interpretar o meu.

Estava chovendo ontem aqui na minha cidade. Talvez seja isto o que tenha trago este sonho novamente. Tudo o que se relaciona ao Japão é uma paixão extremamente pessoal e que só minhas relações familiares podem explicar. Talvez sonhar que eu estou em Shinjuku apenas represente o desejo de estar lá. Mas e a velhinha com o guarda-chuva? Pergunto-me o que ela significaria neste sonho. Já refleti muito sobre isto, e simplesmente não tenho ideia do que seja. De fato, acho que não faço muita questão de saber como e por que esta senhora aparece nos meus sonhos. Vê-la sempre me traz uma sensação de empatia hermética que me deixa com medo da possibilidade de nunca mais senti-la caso investigue demais seu sentido. Desenhei-a para que não esquecesse seu rosto, e nem deste sonho. Isto me faz desejar que Freud esteja certo sobre sonhos e que, consequentemente, esta fantasia se torne uma memória que completará seu ciclo através da sua reprodução num futuro não muito distante; de tal forma que esta experiência a ser vivida se torne a representação real deste desejo oculto. E que isto não seja traumático, segundo a teoria Nachträglichkeit do psicanalista, que diz que seria esta a única forma de realizar materialmente a memória que se expressa em mim através dos sonhos, num processo vetorial de mão dupla — a realidade factual anda para a frente enquanto a fantasia dos sonhos dá a volta e, em algum momento no meio deste caminho, elas se encontram para tentar organizar o nosso ego. Porque o sonho em questão é agridoce, me traz uma amargura inicial de estar sozinha no meio da chuva, encontrando-me simultaneamente calma por conta da chuva, e esta sensação de tranquilidade só aumenta com a gentileza que me é oferecida, para ser substituída pela amargura novamente ao observar a simpatia se afastar lentamente, debaixo de toda aquela água. Talvez este sonho seja uma dramatização bem pura do que é a vida — essa montanha russa do aprazível e do mal-ajambrado, ora lembrando-me da possibilidade de fuga da realidade através do país das maravilhas sonhadoras, ora me fazendo realizar que nem todo sonho poderá ser alcançado.

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