Sobre Pedaços do Tempo Que Passam em Nossas Mentes, ou O Que Nos é Possível Ser

(Kiki Smith)

Nossas ideias e suas casas — nossos intelectos — são tão naturalmente maleáveis e elásticas que nossas mudanças de opiniões (as consideradas menos importantes, pelo menos) passam quase que despercebidas. Passei boa parte da minha adolescência criticando livros de autoajuda, hoje eu entendo perfeitamente o papel e a importância deste tipo de literatura, e foi uma mudança de visão extremamente natural, porque eu realmente nunca demonstrei repugnância para com o gênero, apenas não via e não tinha necessidade de ler livros que eu considerava de uma escrita prepotente por tentarem me ensinar sobre como agir em minha própria vida. Até que, finalmente, cresci e aprendi sobre a urgência latente em livrar-me de todo e qualquer tipo de preconceito, conseguindo enxergar o apelo e a realidade na qual eu já vivia e simplesmente não percebia: livros sempre me ensinaram sobre como ser, sobre como existir, eu apenas evitava aqueles que o fazem de forma direta. Abri as portas para mais um filho em meu coração — um bibliófilo que se recusa a ler qualquer gênero literário é absurdamente cruel consigo mesmo, é o faminto que recusa um banquete.

Algo semelhante aconteceu com a minha opinião acerca do vício com o gerenciamento de tempo, que o homem moderno tem. Vejam só, eu sei que é extremamente importante conhecermos formas de fazer nossa passagem neste planeta durar mais — ou melhor, ter valido a pena a sua duração, mas sei também que quanto mais tentamos gerenciar algo “ingerenciável”, mais perdemos este algo. Em outras palavras — sinto que quanto mais nos preocupamos com o tempo que temos, mais perdemos este mesmo tempo contando-o, contabilizando-o, calculando-o. Tornamo-nos verdadeiros escravos do tempo, e isto é tão absurdamente paradoxal, considerando que somos nós mesmos os criadores das nossas distrações… E quando é que começamos a ver distrações como perda de tempo? Na ilustração mental que tenho da concepção de tempo, este é indissociável da minha ideia de “existência”. Sim, é claro que são, digo que quando penso no tempo que tenho, penso no valor de minha existência. Sem abandonar o mérito heideggeriano de minhas concepções sobre o ser e o tempo, o que faço é questionar até que ponto eu “sou” enquanto o tempo passa — o que é que tenho feito nesta passagem de tempo que colabora diretamente para a minha própria formação? E o que é que tenho feito nesta passagem de tempo que colabora diretamente para a erradicação do meu egocentrismo enquanto um ser que existe e que pensa? E, ainda mais importante: por que é que tenho de ser mais do que eu já sou, e por que é que, no final das contas, este realmente é o objetivo principal de aqui estarmos e de tentarmos prolongar nossas existências — sermos mais e melhores do que já somos?

Eu só faço as perguntas e finjo ter as respostas, porque ainda não estou pronta para assumir minha loucura. Confesso, entretanto, que já não faço mais questão de escondê-la também.

Conheço pessoas que são completamente dedicadas ao gerenciamento de seus tempos, são extremamente produtivas, alcançaram todo o sucesso possível e desejável. Conheço pessoas que tentam ser assim e são verdadeiros fracassos (no sentido de serem aquilo que alguns livros de autoajuda conceituam como “fracasso”). Conheço pessoas que não ligam para o tempo e que vivem no meio de uma desordem sem fim, não saem do lugar e nada alcançam — apenas existem. E recentemente, finalmente, conheci uma pessoa que não acredita, de forma alguma, ser possível gerenciar o tempo, e, mesmo assim, consegue fazer tudo o que deseja e mais um pouco. Acho que minha rejeição com livros de autoajuda partia do princípio de que somos diferentes em nossas igualdades. Uns funcionam melhor durante o dia, outros preferem o silêncio das noites, e outros simplesmente não funcionam. A autoajuda ditada não consegue ser universal. Concordo que, provavelmente, o amor seja o único mecanismo de nos ajudarmos, inter e eternamente, mas o que vale, no final de tudo, é a intenção. E a intenção de todo e qualquer livro, quando boa, vale a leitura.

Queria poder passar o dia inteiro na minha cama, sem fazer nada, e sem ter que aguentar a culpa me massacrando internamente durante a noite. Culpo-me porque aquela fotografia daquela criança estudando sob a iluminação de um poste de rua está grudada em minha mente e passa diante dos meus olhos enquanto encontro-me aqui, sentada numa velha e quebrada cadeira, sob a luz do meu quarto, escrevendo este texto simples num notebook igualmente velho, ultrapassado para a linguagem tecnológica. Pelo menos tenho acesso à internet e uma cama para voltar, apenas para ver este ciclo de culpa se reiniciar. Sou grata pelo pouco que tenho, quero ter mais, culpo-me por minha ambição e culpo o sistema que ora me faz acreditar que nunca conseguirei alcançar meus objetivos, e ora me faz pensar que minha ambição me levará diretamente para o inferno. Entra aqui meu recém-descoberto amor pelos livros de autoajuda: eles me dizem para seguir em frente sem olhar para trás.

Não temos poderes sobre o tempo, temos um poder relativo sobre nossas existências, independente de sua duração. Só o que podemos fazer, então, é tentar (friso o tentar) exercer algum controle sobre nossas mentes, porque este controle se confunde com nossas forças, mas é, no final do dia, quando nos perdemos em sonhos por algumas horas, a única coisa que realmente temos.