
Sobre Querer Mudar o Mundo
Foi numa dessas manhãs na escola, quando você é criança, e tudo o que mais quer é que o tempo passe logo para que possa ir pra casa e pegar o final de mais um episódio de Dragon Ball Z. Uma manhã regular, Português depois de Matemática depois de História — se não fosse pelo fato de que minha pequena mente de 10 anos de idade decidiu, em tal manhã, que eu não iria mais celebrar o Ano Novo com a minha família, após Tia Beatrice, em uma aula de Geografia, nos ensinar sobre como o mundo é dividido em fusos horários. A percepção de que enquanto as pessoas aqui no meu país estavam gritando e esbravejando felicitações umas para as outras, ao som ensurdecedor de fogos de artifícios, do outro lado do mundo as pessoas já estavam vivendo esse tão esperado ano cheio de novas alegrias foi um verdadeiro choque pra mim. Pode-se questionar o quão niilista eu era enquanto criança, mas eu senti repentinamente que não tinha uma razão real para celebrar a relatividade do tempo, como se este quase não existisse mais pra mim, tudo me parecia extremamente efêmero e apenas uma questão de dar ao tempo um novo número em nosso calendário gregoriano. Foi por volta desta época na minha vida em que me interessei por física quântica, o que faz bastante sentido agora que me recordo destes eventos da infância.
Agora, como estudante universitária (e ainda uma fã hardcore de animes que conta as horas durante as aulas para os novos episódios e tudo o mais), continuo não celebrando o Ano Novo, mas estou, indubitavelmente, mais vulnerável às expectativas de que esta simples mudança de 23:59 do ano X para 00:00 do ano Y pode significar alguma mudança real na dura e fria realidade da minha rotina. Posso dizer com certeza, o fato de que estou cada vez mais ficando ciente do meu papel como um ser social neste mundo em que vivemos me faz querer acreditar, enquanto um novo ano começa, de que isto pode significar que transições na história da humanidade, para melhor, podem acontecer. Seja porque eu me modifico e isto se reflete no mundo, ou eu contribuo para dias melhores para quantas pessoas conseguir alcançar e isto se reflete em mim, não poderia perceber isto se não fizesse planos para um novo ano. Chame-me de apenas uma garota perdida em sonhos de juventude, talvez eu de fato tenha nascido revolucionária, consideravelmente ingênua, mas ainda quero acreditar que posso fazer algo para transformar o status quo no qual vivemos, e fazer disto a minha resolução de Ano Novo.
Assim, por mais difícil que a vida fique e com isto esvai-se também a fé na capacidade dos seres humanos de ser tão empáticos quanto podemos ser, neste meu coração niilista-revolucionário meu vive um sentimento amoroso de querer fazer algo que vai adicionar a todas as boas causas nas quais eu acredito. Com este novo ano vem comigo e dentro de mim a boa vontade de dar sem querer algo em troca, porque é isto que a maioria de nós não entende no que respeita fazer algo para o mundo — provavelmente não receberemos nada em troca apesar de desejarmos. Não existe sentido nisso, afinal de contas. Você não ama as pessoas e você não se ama porque precisa de algo em troca. Amor verídico vai mais fundo do que isto quando nos permitimos ser verdadeiramente compassivos. É o que faz do mundo um lugar tolerável de qualquer forma, então nós continuamos, nós amamos porque é o que mais somos capazes de fazer.
Dar amor e deixar melhores quantas vidas eu conseguir deixar. Ajudar crianças, saber que existem muitas delas em necessidade extrema do básico para uma vida digna. Ajudar adolescentes e jovens adultos como eu a entender que tem muito mais na vida por aí do que as feridas que a juventude desamparada nos causa. Usar meu privilégio como estudante de Direito e levar a política para as massas, e fazer dela acessível e compreensível para aqueles ao meu redor que não gostam muito. Conversar e de fato ouvir os mais velhos e valorizar os ensinamentos impagáveis que eles nos dão. Dizer para todas as mulheres ao meu alcance que elas são lindas e que tudo vai ficar bem. Cuidar de mim mesma e me tornar inteiramente consciente de que sou parte de uma comunidade e ao mesmo tempo sou minha unicidade, e demonstrar isso — deixar-me brilhar e saber que posso fazer melhor. O mundo, o tempo com seus novos anos e novas promessas de alegrias espera que façamos isso porque é o que realmente muda as coisas — a ação. E se celebrar um novo ano de fato significa algo pra mim, é apenas isto — que eu tenho que continuar fazendo o meu melhor.