Sobre Sobreviver Através das Cores da Arte, ou Criações Constantes

(Philip Guston)

Escrevo desde que me entendo por gente — ou, para fugir um pouco desta retórica abstrata, escrevo desde que aprendi a escrever, com quatro anos de idade. Comecei a publicar na adolescência, e após um tempo desacreditada de todas as coisas da vida, resolvi escutar os conselhos de Hemingway e de uma querida professora da universidade e estou praticando a escrita diariamente. Mas não faço isso com nenhuma outra intenção se não a de escrever, simplesmente escrever — não dedico tanto tempo assim pensando sobre o que escrever, nem sobre regras enquanto escrevo, nem mesmo sobre o que é que está saindo da minha mente e indo para este documento no notebook. É um ato, de certa forma, proprioceptivo — eu vejo as palavras saindo de minha mente, mas não antes delas se tornarem frases completas, como se um emaranhado de letras que me trouxesse a realização de algum sentido se formasse e, conforme eu escrevo e estas letras se alinham, percebo que eu realmente já sabia o que iria escrever, mesmo não pensando exatamente no quê. É assim que vejo o fluxo da consciência: nossa consciência fala antes que escrevamos, mas só faz sentido depois que escrevemos.

Com a diferença de que, atualmente, acredito ser quase impossível alguma manifestação artística nos chocar como os escritos libertinos e sadísticos de outrora chocaram uma geração, como alguns teóricos da arte dizem, concordo que já não criamos mais — apenas recriamos, reinventamos, damos as nossas cores para desenhos que já existem, modificamos algumas formas do que já fora exteriorizado. Não é dizer que não há originalidade, é dizer que, no final das contas, somos todos iguais e alguém já viveu um romance tão tórrido e ardente como o que eu e você vivemos (ou viveremos) um dia e que tentamos passar para o papel (ou para a tela, ou para o filme). Isso não me assusta, essa ideia de que provavelmente alguém do outro lado do mundo está pensando na mesma coisa que eu agora (que estou com fome e, ao mesmo tempo, quero ler um livro que acabei de comprar pela internet e só estará em minhas mãos daqui algumas semanas — o que só piora minha fome; alguém mais sente isto também? Essa vontade louca de ler um livro novo e que se assemelha a um desejo desvairado que sai do estômago, mas não é realmente fome, apesar de que parece que irei literalmente comer o livro quando eu o tiver em mãos… Ah, o prazer real da leitura! Não sou a única bibliófila louca neste mundo, eu sei). Pelo contrário, saber que existe uma conexão invisível e difícil de ser sentida, inimaginável em sua própria concepção, entre meus pensamentos, dos mais estranhos aos mais simples, e os de alguém que também está perdido por aí, me faz sentir-me menos sozinha na solidão que eu prefiro. Falo tanto de egoísmo, mas meu próprio egocentrismo me diz que esta é uma atitude humilde minha — a de aceitar dividir quem eu sou com um desconhecido. Eu aceito: ainda assim não somos a mesma carne, nem mesmo os mesmos seres cognitivos, mas eu divido uma parte minha com você, sem problemas.

Por vezes, a simples ideia de “arte” me impressiona. A ideia de que nossas mentes trabalham de uma forma para criar (ou recriar, como queiram) coisas, e que estas coisas possuem inúmeras interpretações, porém uma única verdadeira — a do artista, mas que, sempre que possível, deve permanecer escondida, nos possibilitando sermos os donos das outras diversas análises, é o verdadeiro sentido de “mind blown” pra mim; quanto mais investigo, estudo, questiono nossos variados mecanismos de lidar com a arte, mais perto chego de identificar o ponto de maravilhas que nós, enquanto humanos, somos. A arte é o desafio que o homem impõe para a mortalidade — um desafio que ganhamos e perdemos ao mesmo tempo, mas que só nós, humanos, somos capazes de estabelecer seus limites ou a sua falta de limite. Como disse, pelo menos pessoalmente falando, nada hoje em dia é capaz de me chocar enquanto expressão artística; o que verdadeiramente me assusta é perceber que não aprendemos nada com nossas histórias, que se tornaram ficções, e que voltam a acontecer na vida real. O vídeo daquele menino chorando no meio da guerra não é arte, mas me choca saber que ele já se tornou arte. A representação das consequências do mal da humanidade, a dor que os pais daquele garoto estão sentindo transformada em poesia, uma charge que viraliza na internet, o que seja — eu queria que nenhuma dessas artes existissem. Mas existem, e assim será enquanto nós existirmos também.

Não importa a sua finalidade pessoal — todos nós escrevemos para sobreviver. Todos nós fazemos arte para sobreviver. Sei que sobrevivo do lado de fora desta tela do computador, mas minha mente só sobrevive porque eu jogo pra fora toda a tempestade que nela habita. E não intenciono nunca causar tempestades com o que escrevo (com o que faço, falo, penso) — fico feliz por saber que consigo manter a paz no meio de todas essas palavras, de tantas palavras. É uma paz como aquela que é transmitida ao observador d’O Grito — nada de pacífico tem a pintura, é que, quando percebemos que alguém, em algum lugar, foi capaz de capturar uma emoção comum a tantas pessoas, e ao vermos tal emoção numa mistura de cores únicas, nos sentimos em casa: de novo, não sou a única louca nesse mundo, e você também não é.

Percebo que resolvo meus conflitos com a humanidade quando me realizo tão conflituosa quanto todo o resto do mundo — a diferença é que meu ego não necessita de bomba alguma para se autoafirmar. Pelo contrário, tento tirar todas as bombas de minhas mãos antes que elas explodam — que eu exploda, acabe machucando as pessoas que amo e, no final das contas, crio uma dor eterna, única e exclusivamente minha.