Sobre Ter Inveja de Anjos, ou Escolhas Que Não Fazemos

Atualmente, curso Direito na universidade, e posso dizer-lhes que todos os professores que tive, até o momento, insinuaram de uma ou outra forma que um bom advogado deve ser capaz de maquiar os fatos para que estes cooperem em favor de sua tese de acusação ou defesa. Nenhum dos docentes usou a palavra “mentir” diretamente, mas aprendi bastante sobre “verossimilhança”. Não tenho intenção alguma de ser uma advogada civilista — talvez uma humanista, quem sabe. Estou na metade da faculdade, tentando fazer-me acreditar que ainda tenho o direito de estar indecisa. O que acontece é que, como qualquer pessoa, eu sei mentir, e às vezes até minto bem, se você desconsiderar os sinais que meu corpo dá quando encontro-me inventando desculpas quaisquer para fugir de minhas responsabilidades. Mas eu só sei mentir para fora de mim mesma — dentro do meu ser, minhas mentiras são facilmente detectáveis e completamente destruídas num simples toque dessa realidade externa.

Só que, muitas das vezes (e isto tem acontecido frequentemente agora que estou me dedicando, de fato, à escrita), tenho a impressão de que eu consigo encontrar um ponto de convergência entre a mentira e a verdade, internas e externas, e agarro-me a este ponto intencionando poder construir ali alguma ideologia sobre a vida que me mostrará se estou no caminho certo ou não. Esse ponto forma-se no momento em que reconheço meus defeitos (paro de mentir para mim mesma), mas, usando a justificativa de que ainda sou um ser humano em fase de desenvolvimento e aprendizagem, ainda não possuo capacidade o suficiente para transformar de vez o meu lado ruim em coisas boas. Por pensar assim, me acomodo, achando que está tudo bem e que estou seguindo meu devido tempo de crescimento. No fundo, bem no fundo, porém, sei que estou brincando com um jogo perigoso de enganação, uma brincadeira que alimenta o ego apenas para inchá-lo de forma exagerada, fazendo-o explodir dentro de nós mesmos, levando-nos a sérias crises existenciais. É que já estamos em crises existenciais; esse mecanismo de mentir e enfrentar a verdade é apenas uma maneira que encontramos de nos livrarmos da constante contemplação das mazelas de nossas vidas. Precisamos respirar.

É pensando nisso, nessa problemática do ser e viver, do ser duplamente conflituosa e viver em múltiplas dimensões de pensamentos, que é praticamente impossível não me espantar, em admiração e inveja, quando conheço pessoas genuinamente boas. E se falo de “pessoas boas”, quero dizer as quase que literalmente angelicais — uma moral que se balanceia no que todas as suas concepções significam, inatingível, e que condiz com suas atitudes diárias. Para ser sincera, conheci apenas uma pessoa que é, inegavelmente, puramente boa — minha mãe. Sim, eu sei que todos nós consideramos nossas mães verdadeiras santas, mas é que conviver com a bondade da minha mãe me mostra o quão longe da verdadeira dignidade todos nós estamos. Minha mãe é boa simplesmente por ser, ela perdoa de olhos fechados, ela leva todas as surras da vida com uma força austera impressionante. Ainda estou nova, e minha mãe ainda tenta ensinar-me diversas lições sobre como se viver uma vida pacífica, mas não sou tão nova assim a ponto de não saber onde residem minhas inclinações morais — e estas passam longe de serem tão genuinamente boas como as da minha mãe. O que não quer dizer que eu não aproveito a convivência que tenho com ela, só não sei ser bobamente boa. Conhecer a bondade verdadeira é algo que teoricamente te faz sentir inveja por não tê-la para si, mas, uma vez que entramos em contato com ela, nos é impossível sentir inveja. É pura admiração.

Como uma Alice escorregando por um buraco negro de fantasias que a manterá absurdamente segura diante das suas dúvidas de caráter, tento me convencer de que já basta reconhecer meus defeitos, já é meio caminho andado, só falta agora por em prática os consertos da minha conduta moral. Não é tão difícil assim, só é complicado começar mesmo. E se nunca tivermos a coragem de começar esta transformação pessoal, também não tem problema — pelo menos morreremos sabendo que fomos humildes o suficiente para nos reconhecermos ruins e incompletos enquanto seres humanos. Só teremos que lidar com todos os efeitos negativos que nossa teimosia em sermos quem somos acarreta em nossas vidas, mas uns probleminhas a mais, quem é que se importa, certo? Errado. Talvez nos livraríamos de mais da metade de nossos problemas se começássemos logo a resolver os que possuímos dentro de nós mesmos. Mas além da teimosia, tem a preguiça e tem o medo também. É um círculo vicioso cansativo — crescemos, aprendemos qualidades na medida em que aprendemos defeitos, estes defeitos trazem consequências que nos impedem de trilhar caminhos que nos reconduzirão às nossas origens pueris e ingênuas. Mas eu concordo: não vale a pena voltarmos às raízes quando o progresso deve ser, obrigatoriamente, olhando para o futuro. Antes perdidos, porém com propensão de um dia nos encontrarmos seguindo a estrada que nos retirará dessa caverna escura na qual vivemos, do que certos de uma bondade utópica. Certo? Não sei. Nunca fui celestialmente bondosa para saber o que é realmente melhor para todos nós. Tudo o que faço é experimentar, tentar e refletir.

Eu não sei lidar com pessoas genuinamente bondosas, porque não sei lidar com o meu reflexo horrendo que vejo em suas almas. Na verdade, não sei lidar com essa bondade toda — porque sou egoísta: quero todas as pessoas boas ao meu lado, aproveitar de suas energias, enquanto sigo me equilibrando em minhas imperfeições, prestes a cair desta corda bamba, sem coragem de olhar para o chão e me deparar com um concreto tão duro quanto esta vida que levamos.