Sobre Tolerar-se, ou Assinando Acordos de Paz Com Nossas Mentes

E então minha mente veio, monstruosamente grande, uma mistura de verde e vermelho roseado, envolta em líquido cefalorraquidiano, já com um ar de imposição mesmo sendo a perfeita imagem do cômodo mais bagunçado de uma casa. Sentou-se à mesa na cadeira de frente para a minha. Permanecemos em silêncio por alguns minutos, o garçom se aproximou com dois copos d’água. Simultaneamente encaramos a água e, devagar, nos colocamos a bebê-la. Depois de três goladas, voltamos a nos encarar. Ninguém falava nada. Ninguém esboçava nenhuma expressão. Um calafrio passou por minha espinha e vi minha mente tremer rapidamente junto comigo. Não gosto muito quando minha mente fica calada assim. É claro que tento constantemente me acostumar com a ideia de solidão e de lidar bem com a minha presença unicamente, mas esses momentos de silêncio entre você e sua mente são realmente difíceis de serem vividos. Então, finalmente, ela falou. Começamos a conversa concluindo que, de fato, por mais que ela queira se rebelar, ainda assim sou sua dona e, diferente da visão lockeana dos filhos divinos serem livres das garras das responsabilidades paternais, eu ainda respondo pela minha mente. Ela não gostou muito da ideia. Goste ou não, os pensamentos são meus. Senti-a desconfortável naquele líquido quasi-verde escorregadio. Seu olhar de desconfiança e petulância se densificava.

Disse à minha mente que ela deveria ser mais tolerante comigo, com a vida, com tudo o que nos diz respeito. Ela, então, soltou um grunhido como se fosse uma risada presa de escárnio e, como numa tentativa de evitar que falasse algo que fosse me irritar, tentou acalmar-se bebendo mais um pouco da água. Viu? Eu disse que te controlo. Seus pensamentos são meus, não tem como você ir totalmente contra o que falo. Mas aí, não conseguindo mais segurar sua revolta, minha mente finalmente foi contra a calmaria da maré que eu tentava instalar em nosso cérebro. Disse que não existe tolerância para com a intolerância. Disse que não existe paz no meio da guerra. Disse que é impossível responder ódio com amor quando esse ódio já está num nível de irracionalidade além da capacidade de outras mentes compreenderem a situação em que se encontram. Disse que está cansada de ser condescendente com a indisciplina alheia. Disse que não entende porque ela tem que ser o peixe que nada contra o cardume, quase morrendo sufocada na força daqueles que seguem para o outro lado. Minha mente foi tão veemente no que falava que, por uns segundos, ficou sem ar. Eu fiquei sem ar também.

Deixei que ela terminasse de falar. Estava precisando. Mentes são assim — quanto mais falam, mais esgotadas ficam, especialmente se se animam em querer nos desafiar. Mas o segredo sobre isto é justamente este: deixar que as mentes falem livremente e, antes de respondê-las, esperar um tempo razoável para que elas se refresquem de todo o esforço utilizado em seus discursos de revolta. Um recesso de quinze minutos de uma audiência da vara de família — aproveite este recesso para não ter uma discussão pior do que aquela entre pais que tentam garantir o sustento de seus filhos diante de um juiz. Porque estamos mais para as mães que brigam por seus direitos do que para o juiz de nós mesmos, por mais que achemos que somos os mediadores ideais de nossa relação com nossas mentes. Do contrário, não precisaríamos de terapia. Somos mães excessivamente zelosas de nossas psiques, portanto vê-las se rebelando contra o que ditamos como regra assusta, e muito. Mas é inevitável, faz parte do crescimento, é assim que nossos filhos amadurecem.

Depois que minha mente se rebelou momentaneamente, depois de respirarmos fundo, nós pensamos. Direcionei nossa conversa para um caminho mais frio e menos tortuoso. Pensamos simultaneamente em como já é difícil lidar com as revoltas de fora do nosso corpo e que, se é para ter uma revolução interna, ela tem que ser não violenta. Ou então não sobreviveremos, literalmente. Propus à minha mente que assinássemos um acordo de cessar fogo temporário. Minha mente deve parar por um tempo com os testes nucleares que tem feito nas fronteiras do meu cérebro, e eu devo dar a ordem para que os aviões-caças que mandei sobrevoar os limites territoriais da sanidade voltem e sejam estocados indefinitivamente. Olhamo-nos, eu e minha mente, mais uma vez, um pouco desconfiadas ainda. Sei que nós duas temos receios de estarmos dando início a uma guerra fria pior do que a que o mundo presenciou no século XX, mas não tinha outro jeito, nenhuma de nós queria uma luta armada. Não agora, neste momento em que minha mente se encontra em processo de engrandecimento e eu em processo de prática deste engrandecimento. Pode ser que as coisas fiquem um pouco estranhas entre nós por um tempo, mas eu não odeio o capitalismo e ela não odeia o comunismo. Somos comunistas, capitalistas, cristãs e muçulmanas. Talvez seja este o motivo de tanta confusão, mas no fundo, no fundo, gostamos disto. No final, crescemos sempre juntas, minha mente e eu.