Sobre Universo de Nós, ou Estamos Todos Aqui

(Sparky — Jenny Offill)

Temos lidado com tempos cada vez mais influenciados pela característica da polarização, até mesmo quem prefere não ter que escolher um ou outro lado é hostilizado pelos extremistas. Estão dizendo pelos quatro ventos que a indecisão — ou melhor, a escolha por não decidir — é inerente de covardes, dos cínicos que preferem não ter suas mãos sujas por qualquer um dos polos, porque ambos, afinal de contas, possuem suas impurezas. Como é que se culpa uma pessoa que prefere não se danificar por paixões perigosas? O que estamos fazendo é agredindo pessoas que optam pela paz e pela racionalidade do que por guerras ideológicas que mais nos afundam em novos conflitos do que resolvem os que já temos. Eu, particularmente, sou uma pessoa pró-meio termo, pró-centro, a favor da convivência com as diferenças do que a sobreposição de um lado em relação ao outro. Não significa que eu não tenho minhas inclinações, mas sim que estou preparada (ou, devo dizer, tento preparar-me) para aceitar as inclinações alheias, e talvez isto seja o que faça toda a diferença quando busco racionalizar ideias e pensamentos contemporâneos.

De fato, acredito em mudanças sociais e pessoais que beiram o radical, mas acredito mais ainda num trabalho em conjunto entre nós e sociedade, e nós e nós mesmos no que concerne a existência de um panorama humano no qual os homens são intra e interdependentes. O problema não está, realmente, entre azuis e vermelhos, verdes e cinzas — está no não reconhecimento do respeito mútuo que nós, humanos, merecemos e devemos aplicar em nossas relações. Já escrevi sobre este tema, tanto em crônicas como em artigos científicos na área de ciências sociais, e quanto mais escrevo, leio ou simplesmente penso sobre isto, mais convenço-me: não há respeito verdadeiro entre nós, e respeito mútuo parece-me mera utopia. Até que ponto, então, devemos deixar que nossas almas utópicas sonhadoras falem mais alto em nossos discursos de conciliação com nossas comunidades?

Enquanto defendermos o bem coletivo acima de qualquer outra coisa, estaremos defendendo e acreditando numa ordem justa, não importa de qual lado estamos. Parece clichê e antiquado falar de forma tão simples sobre uma questão tão complexa quanto esta do maniqueísmo ideológico moderno, mas é que a resposta deveria ser simples assim, nós é que preferimos complicar tudo ao impor nossos pontos de vista e concepções de vidas pessoais a quem pensa, sente e vive de maneira diferente. Ser humano não deveria ser uma questão de legalizar a condição humana, mas não podemos negar que a lei, enquanto mecanismo de coesão social, deve ser o mais abrangente possível. Ser humano não deveria ser uma questão de estar dentro das conformidades heterogêneas mais “aceitáveis”, então não dá para negar a necessidade de diálogo entre as diversidades. Ser humano não deveria ser algo de discussões sobre “como ser”, deveríamos discutir mais sobre quem realmente somos, porque assim descobriríamos respostas mais reais para as problemáticas do caráter frio e cruel que toma conta de nossos espíritos atualmente. A condição de ser humano não deveria ser negada a ninguém, e nossas brigas deveriam partir deste pressuposto óbvio.

Tento viver fora da minha bolha que é composta em seus reagentes químicos de poesia, amor, raiva e tristeza — num primeiro olhar, parece que me encontro num estado harmônico dentro de tantos fatores sócio-emocionais, mas no fundo estou apaziguando minhas tendências revolucionárias enquanto trabalho para que estas sejam úteis fora da minha bolha. Basicamente: acreditar em mudanças sem trabalhar por elas é viver eternamente dentro de redomas enganosamente seguras. Todos nós vivemos dentro de nossos casulos, e todos nós temos opiniões acerca de tudo neste mundo. Mas quantos de nós contribuem para a segurança de casas enfraquecidas pelas guerras? Só de estar aqui escrevendo e nos (auto)acusando de sermos covardes enquanto critico, simultaneamente, quem faz a mesma coisa, já me encontro numa situação de puro privilégio — talvez, por reconhecê-la, esteja eu dando um passo em direção os objetivos nos quais acredito. E por mais que veja um poder curador nas palavras, estas não são suficientes; palavras não matam a fome de forma direta, infelizmente. Talvez elas sejam a porta pelo qual a verdade e a esperança sairão, só precisamos de algo a mais do que apenas dizer, precisamos fazer.

A partir do momento em que fazemos do mundo um lugar inseguro para que possamos declarar nossas ideologias e religiões, pensamentos e amor livremente, estamos traçando limites de expressão ameaçadores no que concerne o que conhecemos como democracia, cidadania e liberdade no sentido mais simples da palavra. Estranha-me como não conseguimos assimilar a ideia de que liberdade de expressão não equaliza liberdade de agressão, e aqui residem motivos para inúmeras de nossas brigas modernas, mas que se arrastam por toda uma história que denuncia nossos erros, e nós fingimos não escutá-la. Mais do que temer a covardia do silêncio, temos que temer e lutar contra quem quer angariar seguidores na base da violência. Antes alguém que se cala e faz a sua parte, do que quem fala demais e apenas contribui com a madeira para a fogueira que inflama nossos piores sentimentos dentro de nossas guerras, pessoais e sociais.

Falo quando quero, calo-me quando quero, mas não deixo de agir, porque nossas ações falam por nós também. Não tenham, portanto, receio em se posicionarem, ou não se posicionarem se assim acharem melhor. Ninguém melhor do que você mesmo para saber o que lhe é ideal, em todos os campos de sua vida.

Acho que todos querem transformar o mundo de alguma forma. Que façamos nossas partes, porque realmente, não tem sido fácil, para nenhum de nós.