No escurinho do cinema… gritaram “cala a boca, porra”

Sábado fui ao cinema com minha mãe, “a mãe”, segundo minha irmã caçula. Fazia séculos que não fazíamos isso. (A gente deve ter feito uma vez. Não sou uma pessoa das relações familiares.) Entre outras razões, todas as saídas agora são com a caçula. Fomos assistir um filme de terror. Mó grana jogada fora. Todo filme de terror é um tédio e uma decepção ao mesmo tempo. =/ Vida que segue.

Pegamos a sessão de 17h20, logo ainda tinha muita criança (E filme de terror é bobeira de criança mesmo, né?). Elas riam, comentavam o filme e faziam várias brincadeiras. Eis que lá pelo meio da parada um cara com voz de mais velho, talvez lá seus 40, gritou “cala a boca, porra”. O ~pedido~ foi seguido de mais risadas e comentários. Eu, que tentei me manter calada apesar da minha mãe querer bater papo durante o filme, fiquei pensando sobre o ocorrido. (Tava realmente muito chato e eu estava prestes a dormir.)

A gente não era tão “corajoso” um tempo atrás. Tirando a coragem da sala escura do cinema, a gente não gritava “cala a boca, porra” num ambiente familiar. Acreditem, eu estava em um. Sessão das cinco da tarde no shopping mais caro-ostentação-gente-com-cara-de-bunda de Brasília, onde as caras normalmente já parecem bundas. Mas no escuro ninguém pode ser julgado pelo “cala a boca, porra”. O “cala a boca, porra” não tem cara. Assim como não o tem o xingamento no Facebook, por exemplo.

Só que tem (pelo menos) um problema. Tivessem acesas as luzes, nos dias de hoje, o cara do “cala a boca, porra” talvez tivesse sido aplaudido por outras pessoas mais velhas na sala de cinema. Talvez ele virasse o herói da sessão por ser rude no seu pedido. E pessoas como aquele senhor têm ganhado título incompreensíveis de herói. Por que a gente chegou na fase em que a barbárie não apenas passa, mas ela agrada, ela causa inveja do tipo por que eu não fui escroto antes, ela rende likes e compartilhamentos nas redes sociais.

Você ame ou odeie quem quer que seja te dá que direitos sobre a vida dessa pessoa? Você pode humilhá-la? Que ela seja o que há de pior no mundo, ser tão ruim quanto te faz alguém melhor? É justificável ou aceitável cometer crime para corrigir um crime? Quando chegamos a era do justiçamento moralmente bom? Muitas perguntas para as quais eu não tenho resposta, mas sobre as quais eu tento refletir. Já falei do Kraken. Mas a linha do Kraken ficou bem lá pra trás e a gente continua caminhando pra Idade Média.

Acontece que a tal da reflexão não vem. Estamos sem filtro. As coisas vem direto da inspiração do capeta pra boca. Ou pras mãos, em casos piores. E aí é louvável oMantega ser vaiado por aí (Cá pra nós, nunca gostei do Mantega e sou fã do Chicago Boy. Nunca escondi de ninguém.) mesmo ele tendo deixado o governo no meio do 2º turno das eleições de 2014; há tanto ódio ao Mais Médicos, que leva médicos pro pessoal pobre que nunca teve acesso a um atendimento minimante humano, que, num restaurante caro de São Paulo, a cidade cara, encontramos um herói pra bater em uma taça e xingar o ex-ministro que criou o programa; tem ainda quem cante contra petistas num avião lotado! (Gosto nem de falar de avião. Pra mim já é o cúmulo da falta de civilidade as pessoas levantarem e quererem sair correndo enquanto a aeronave taxia na pista após a aterrissagem.)

Sei lá. Acho que tenho me repetido no tema. Mas as coisas nunca mudam. Dia após dia eu me choco com uma nova onda de coisas estranhas ao que eu costumo esperar da humanidade acontecendo muito perto de mim. Ou apenas perto o suficiente dos meus olhos. Eu não gosto do rumo que as coisas estão tomando. Eu não gosto de pensar que vai ser assim, que evoluímos pra isso.

Falei mó mal dos filmes de terror, mas Invocação do Mal me deu um leve cagaço. Apenas esse. O resto é porcaria.

Publicado originalmente em http://politicafodaemais.com

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