Sem cor

pollyanaferrari
Aug 28, 2017 · 3 min read

Como já disse Sto. Agostinho: “Tirai-me do pecado, mas não agora”.

Abandono a película em preto e branco, quero cor.
Lábios rosados, olhos cor de mel.
Cansei de ser azul, quero o magenta, a quinta cor. Busco a festa iluminada de prata.
Vamos dançar ao som da lua? Comer luz, pétalas de rosas?
— Farei uma salada de margaridas para o almoço.
— Traga o líquido azul, peço baixinho cantarolando em amarelo manga.

Azul

Remixando as palavras, também acredito que as mães sejam azuis. O campo, terracota. Salvador, cor de Olodum. A avenida Paulista é cinza, um cinza claro (20% de preto), o que combina com dias frios e chuvosos. São Francisco é vermelha, guardamos a Golden Gate na alma. E Londres? Londres é azul como Candem Town, onde comi a melhor comida vietnamita de todos os tempos. Era vermelha, amarela e verde.

Vermelho

“Festa estranha, com gente esquisita, eu não tô legal”, lembrei-me automaticamente de Renato Russo. Para comemorar os 14 anos de Rogério, Amparo fez questão de preparar 100 hotdogs, deixando-os ao redor dos molhos. Os saches de ketchup ficaram arrumados em uma cesta de vime na mesa central.

A maionese, em cestas menores decoradas com crochê e dizeres: sirva-se. Nunca tinha entrado na casa de Amparo até aquele dia. Ela me recebeu afobada dizendo que não iria me recepcionar com pompa, pois estava pintando a parede da sala.

— Vivo sem tempo, só de sábado consigo melhorar a aparência desta casa.
— Mas fica à vontade, falou saindo carregando nas mãos um rolinho amarelo de espuma, de uns 20 cm. Fico ali vendo os porta-retratos de Rogério bebê, Rogério no campeonato de futebol da escola e agora na 8. série.

— Como uma mãe se põe a pintar a casa no dia da festa do filho? Pergunto em silêncio.

Resolvi dar uma volta para ver a cor da casa. Apenas cinco meninos jogam videogame, num espaço improvisado para a festa. Ao fundo, Amparo, com seu cabelo todo respingado de branco, pois ela diluiu demais a tinta e agora a Suvinil látex escorre pelo rodapé.

Finalmente consigo entregar o presente. Ele abre, muito tímido, a caixa. Seus olhos, cor de jambo, brilham ao ver que ganhou um vinil em tons de vermelho. Trocamos dois beijinhos rápidos e ele convida os amigos para um saboroso hotdog.

As salsichas dispostas lado a lado na travessa. Começo a comer. Seu Luiz, pai de Rogério, vem me cumprimentar. Ao se aproximar, ouço ele resmungando com Amparo.

— Como os meninos irão comer com este cheiro de tinta fresca?

Ela nem responde, está em outro mundo, distante, com o olhar fixo na parede. Foi tudo muito rápido; ouço apenas Amparo gritando o nome de Rogério. Questão de segundos, explode um sache de ketchup na parede branco neve ainda úmida.

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pollyanaferrari

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Autora de Como sair das bolhas, A força da Mídia Social, Jornalismo Online, entre outros livros. Profa. PUC-SP. http://migre.me/tk6wE

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