A gente se olha como se isso fosse uma coisa inédita.

A gente se olha muito devagar porque já se olhou rápido demais. A gente se olha mais uma vez e sempre, como quem não quer esquecer nenhum detalhe dessa vez porque a gente já se esqueceu demais.

Milhões de lembranças falhadas em preto e branco disputam espaço na minha cabeça atribulada enquanto eu reparo que agora há uma aliança em um dedo importante da mão esquerda dele. Aquilo dói devagar e profundamente, como uma constatação final e definitiva de que eu o perdi para sempre.

Ele sorri e acena simpático, como tudo o que sempre fez, e é nesse momento que eu me esforço para tentar lembrar que tipo de pessoa estúpida eu fui para perder uma homem como ele. Cada músculo do meu corpo parece ser golpeado por algum lutador de boxe muito bom. Eu me curvo, ainda com os olhos grudados nele, e assisto ao sinal ficar verde novamente. O carro dele volta a andar e ele vai embora como quem nunca esteve. Mas ele esteve. Ah, como esteve.