Apropriação cultural: o ponto que realmente importa
Vejo com muita tristeza (e muita preguiça também) a discussão rasa em torno da questão da apropriação cultural que se faz no âmbito de polêmicas como: “Anitta está usando tranças em seu novo videoclipe”; “jovem branca com câncer gera polêmica ao usar turbante”; atriz de Malhação causa polêmica ao colocar dreads no cabelo; e outros incontáveis debates do gênero.
Para mim, as discussões contidas nesses textos e notícias só buscam mesmo polemizar, “caçar clique” e, digo mais: silenciar e ridicularizar, de forma perversa, um debate sério. Sou da opinião de que a questão da apropriação cultural deve ser debatida em âmbito mais amplo, para além da matéria individual, de quem usou ou fez isso ou aquilo.
Por que não questionamos o sistema, a indústria cultural da qual fazemos parte que aceita e valoriza parte da cultura negra — leia-se: a música, os adereços, a estética, e até o “quadradinho”, mas não os corpos negros; não os negros que o performam?

Enquanto artistas pop de Anitta a Taylor Swift, Justin Bieber a Eminem, e de Claudia Leitte a Iggy Azalea seguem aplaudidos e premiados incorporando a estética negra em sua imagem de músicos descolados e cheios de atitude, pessoas negras seguem agredidas, desprezadas, violentadas, quando não mortas pela mesma sociedade que cultua esses primeiros.
É esse o ponto de debate sobre apropriação cultural com o qual estou preocupada, aquele que acredito que é prioritário e realmente interessa. Como a mesma parcela branca da sociedade que curte hip hop ou jazz, dreadlocks ou bailes funk no asfalto, turbantes e souvenires “étnicos”, é relutante à fala de pessoas negras manifestando suas experiências; se cala frente às discriminações diárias sofridas por negros — sobretudo os moradores da periferia; enfim, como não reconhecem seu privilégio em uma sociedade racista?
Esse sim, é o grande mal expresso pela apropriação cultural: o privilégio que é conferido a uma pequena parcela da população de incorporar e expressar a cultura de um povo socialmente discriminado sem carregar junto nenhuma experiência de discriminação; pelo contrário: seguir mantendo o privilégio de viver com dignidade, fazendo jus a seus direitos enquanto cidadão.
Por isso, não me importo se a Anitta foi requebrar suas tranças no Vidigal. E sobre a discussão sobre ela ser mesmo branca ou negra, eu penso que ela é tão branca na medida em que a ela é assegurado ser ovacionada por isso. Eu me importo mesmo é com os jovens que, daqui há algumas semanas, terão a polícia invadindo suas casas quando ela já estiver longe da favela. Desses jovens, aliás, ninguém duvida que sejam negros. Indiscutivelmente negros.
