Apropriação cultural: o ponto que realmente importa

Pollyana Teixeira
Aug 23, 2017 · 2 min read

Vejo com muita tristeza (e muita preguiça também) a discussão rasa em torno da questão da apropriação cultural que se faz no âmbito de polêmicas como: “Anitta está usando tranças em seu novo videoclipe”; “jovem branca com câncer gera polêmica ao usar turbante”; atriz de Malhação causa polêmica ao colocar dreads no cabelo; e outros incontáveis debates do gênero.

Para mim, as discussões contidas nesses textos e notícias só buscam mesmo polemizar, “caçar clique” e, digo mais: silenciar e ridicularizar, de forma perversa, um debate sério. Sou da opinião de que a questão da apropriação cultural deve ser debatida em âmbito mais amplo, para além da matéria individual, de quem usou ou fez isso ou aquilo.

Por que não questionamos o sistema, a indústria cultural da qual fazemos parte que aceita e valoriza parte da cultura negra — leia-se: a música, os adereços, a estética, e até o “quadradinho”, mas não os corpos negros; não os negros que o performam?

Não, funk não é “tudo igual”.

Enquanto artistas pop de Anitta a Taylor Swift, Justin Bieber a Eminem, e de Claudia Leitte a Iggy Azalea seguem aplaudidos e premiados incorporando a estética negra em sua imagem de músicos descolados e cheios de atitude, pessoas negras seguem agredidas, desprezadas, violentadas, quando não mortas pela mesma sociedade que cultua esses primeiros.

É esse o ponto de debate sobre apropriação cultural com o qual estou preocupada, aquele que acredito que é prioritário e realmente interessa. Como a mesma parcela branca da sociedade que curte hip hop ou jazz, dreadlocks ou bailes funk no asfalto, turbantes e souvenires “étnicos”, é relutante à fala de pessoas negras manifestando suas experiências; se cala frente às discriminações diárias sofridas por negros — sobretudo os moradores da periferia; enfim, como não reconhecem seu privilégio em uma sociedade racista?

Esse sim, é o grande mal expresso pela apropriação cultural: o privilégio que é conferido a uma pequena parcela da população de incorporar e expressar a cultura de um povo socialmente discriminado sem carregar junto nenhuma experiência de discriminação; pelo contrário: seguir mantendo o privilégio de viver com dignidade, fazendo jus a seus direitos enquanto cidadão.

Por isso, não me importo se a Anitta foi requebrar suas tranças no Vidigal. E sobre a discussão sobre ela ser mesmo branca ou negra, eu penso que ela é tão branca na medida em que a ela é assegurado ser ovacionada por isso. Eu me importo mesmo é com os jovens que, daqui há algumas semanas, terão a polícia invadindo suas casas quando ela já estiver longe da favela. Desses jovens, aliás, ninguém duvida que sejam negros. Indiscutivelmente negros.

)
Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade