Aparentes impressões e grandiosas miudezas no alvorecer do #GolpeNeoliberal

Os sentimentos precisam ser desabafados, pelo menos de vez em quando. É como no caso de Neto Sales, indignado diante dos que a todo custo (e é mesmo grande o custo, mas não o sentem) pretendem dar de si às redes a melhor imagem. E não me refiro, nem Neto, a selfies fotográficas; neste exato momento, me ocorre dizer que as redes sociais são o império das selfies, mesmo quando não fotográficas, mesmo quando o que estampam é a suposta beleza exemplar de uma dada postura diante do que quer que seja, em especial quando se trata de questões políticas, sociais, demasiado humanas. Longe de nos restringirmos a essa atitude (há muito mais nos monólogos e diálogos em redes sociais), o fato é que nos exibimos em posts, nos estampamos em posters de nós mesmos, de cada um. E isso não é necessariamente abominável. Porém…

Seja como for, o desabafo de Neto me fez pensar, novamente de novo, num dos tipos mais deprimentes dentre os que se comportam com as maneiras ali apontadas: o sujeito que, de baixa renda e escolaridade, brada aos quatro ventos qualquer coisa que seja contra os alvos preferidos de boa parte de uma classe a que ele não pertence.

Esse sujeito, triste figura, sempre me dá perceber que pretende causar uma determinada impressão, pela qual se esforça por que funcione como a mais autêntica expressão de sua ambicionada “superioridade”.

Ele se quer entre “os barões”, nutre o nem tão secreto sentimento — angustiado equívoco, antes esforço vão — de pertencer àquela gente a quem admira, gente cujo poder ele gostaria muitíssimo de partilhar. Por isso se esforça por assumir seus traços, os estandartes daqueles entre os quais gostaria de se ver.

Não podendo ostentar os trofeis materiais da burguesia admirada, se esforça por exibir algum ar daquela graça: um mobiliário mental e ético que não encontra arranjo na figura do presunçoso imitador, que sequer se dá conta de sua mímica, performance canhestra. E ele esbraveja contra Lula, contra Dilma, contra todo o PT, contra a esquerda, sem de nada disso fazer a mínima ideia…

(Seria menos furioso se acaso soubesse que os governos em questão foram, tambem eles, neoliberais? que apenas não o foram na medida, mais largamente servil já demonstrada e de novo prometida, em cores festivas, por bicos tucanos?)

Voltemos ao hipotético personagem, tipo comum, recorrente nas redes sociais. Ele esbraveja também contra os outros pobres. Não quer parecer com estes. Não quer parecer consigo mesmo. Quer ser barão. Não atenta nem de longe, esse boneco hipocrítico, para o fato de serem muitos, dentre as figuras a quem admira, os que sofrem de uma outra espécie de exclusão social: aquela que termina por empobrecer a alma a ponto de restar não mais que destroços daquele sentimento a que chamamos compaixão.

Dizer “boneco hipocrítico” é aqui salientar o que me foi apontado por Luís Edmundo, a quem — sempre atento que é às micropolíticas na rede — devo o acesso ao desabafo de Neto, tendo nele acertamente visto “uma crítica à hipocrisia política” em seu mais amplo senso: o ato de alguém se submeter, numa atitude acrítica, a juizos e comportamentos que apenas lhe pareçam de algum modo superiores (muitas vezes porque característicos da classe dominante), até mesmo reproduzindo-os, frequentemente através de inadvertida imitação.

Se o sentimento que nutro diante desse tipo é uma mescla de nojo e pena, maior desolação me é possível quando reparo nos que adensam essa duríssima fatia da classe média — principalmente dela — que demonstra ter perdido algo de fundamental humanidade, não digo nem cidadania, e parece se contentar na posse de capital, em ostentar qualquer tradição de proprietários, em seus maiores privilégios como consumidores.

Uns e outros e todos nós — é preciso repararmos nisto — somos submetidos a uma produção de subjetividade. Sim, nós somos sujeitos produzidos. Há a história, a família, a sociedade… tudo nos impelindo sobretudo em certa direção, em prejuizo de outras; tudo nos moldando de jeito a assumirmos certas formas, não qualquer uma.

Há os signos do poder e, dentre estes, os signos da justiça. Não remetem a qualquer poder e nem a qualquer justiça. Numa atmosfera saturada de individualismo, por exemplo, a noção de poder do coletivo — aquele poder que deriva de nosso potencial de solidariedade (que é união horizontal e não esmola vertical) — esse poder não goza da fumaça de incensos que o enalteçam.

Já o crivo da justiça — presumida esta como verdadeira, como quase intocável — tem, também ele, os seus efeitos de ilusão. Não são poucos os que dizem que os Estados Unidos são paladinos da justiça no mundo, quando são campeões globais em crimes contra a humanidade. Não faltarão indignados se eu disser que o chamado estado árabe é apenas um filhotinho se debatendo, com a crueldade que lhe é possível, numa cadeia de violência cujos maiores protagonistas permanecem ocultos à opinião pública internacional, protegidos pelos mantos da grande mídia e da ficção chamada legalidade, dentro do marco do legalismo.

E o que dizer do impeachment no “aqui agora”, no plano mais imediato de nossas existências? O golpe — que não é apenas contra uma pessoa, mas contra a vida no Brasil, para dizermos o mínimo — acontece dentro do que, assim ao menos nos diz a grande mídia — é chamado legalidade. Também assim o pacote de maldades que avança diante de nossos olhos como se fossem conquistas num momento de superação a caminho de um mundo melhor e desejável, caminho que se faria por sobre a articulada ponte para o futuro, entretanto engenhada ruína presente, construção que é já o abismo de hoje e, ao mesmo tempo, o impulso para uma queda coletiva, na esteira rolante do tempo. Já se vê.

Mas a midia é o meio — especialmente a grande mídia — que nos conduz a pensar a coisa de modo a que a ela nos adequemos, não apenas calados, mas esperançosos e até mesmo animados da vontade de dizer que tudo vai melhorar, que every little thing’s gonna be alright, que cada coisinha vai se consertar, que a justiça está sendo feita, afinal a luta é (seria!) contra a corrupção… Ou ficamos mudos, apáticos, acomodados ao que vier. E isso fica de bom tamanho pra quem apenas costuma recorrer à voz do povo — e dele se serve — para fins de realização do ritual democrático que se restringe à miséria do voto.

Precisamos todos conversar sobre o que estão fazendo diante de nós, com a gente. Saber dessas coisas, resistir, reagir a elas. E precisamos fazer o que não estamos fazendo ou estamos fazendo pouco ou apenas uns poucos estão fazendo, embora haja muitos motivos para que mais sejamos, em número e em força, porque são terríveis as consequências do que nos estão fazendo. É que precisamos fazer muito mais que apenas dizer #ForaTemer no Facebook, #ForaTemer no Twitter, em outras redes sociais.

E dizer isso está muito longe de dizer que o ciberativismo não é relevante para as lutas sociais. Seria tolo. A palavra comove, faz mover junto, promove o movimento coletivo, inclusive para fora da redoma digital das redes, em direção às ruas. Fabio Malini é um dos que recentemente se dedicaram a demonstrar — e isso é tambem muito importante — que o #ForaTemer virou o cimento para pautar a primeira agenda das ruas contra o novo governo: as eleições diretas já.

Quando digo que precisamos muito mais que o movimento de palavras na rede — de todo modo, muito mais que apenas um desabafo como este — me refiro à necessidade não apenas de ir às ruas como multidão, mas de nos dispormos a conversas ao vivo, a conversas com os vivos, ainda que dormentes, sobre os tópicos de uma questão assim tão crucial como a que impera sobre nós nesse momento social político e econômico em que nos vemos. É a conversa no miúdo, o bate papo presencial, a política dos bancos de praça, a politização em becos e esquinas.

Que essas conversas tenham um acento coletivista e apartidário é o luxo democrático que nos podemos dar, de que podemos partilhar. Repare-se que isso viria até mesmo em favor daquele rapaz negro que se mostra identificado com aquele playboy mineiro, entretanto sem avistar o abismo das desigualdades que os separam; que isso viria também em favor daquela moça que — sendo exemplo da esdrúxula categoria de excluídos sociais (quem os diria assim?) apenas provida do estrito e excludente senso de pertença social à sua, digamos, classe — , se anima em bradar contra o que chama bolivarianismo, contra os que pensa serem comunistas e a favor de uma ideia de liberdade (individualista) que o Mercado teve jeito de lhe inculcar, de lhe enfiar no juizo, tendo na libertinagem de imprensa um poderoso instrumento facilitador.

Então, às redes sociais… às ruas… e também às grandiosas miudezas do quotidiano, à potência da conversa viva, do diálogo entre os vivos.