O passado presente

Observavam de longe os dois, na mesa de jantar, farta de planos e sorrisos. Não faziam ideia que anos depois estariam ali, ao longe, com olhos surrados pelo tempo, em um retrospecto melancólico.

A versão mais nova do casal. Pares, ainda.

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Anos depois, ainda de volta no tempo, numa borrão translúcido. Noite de parto, em meio à merda, sangue e gritos. A felicidade (primeira de três) vem ao mundo. Falsa ilusão de completude. Problemas à vista. Finanças, questões de família, objetivos de vida.

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Enferrujados pelo tempo, numa cadeia complexa de acontecimentos pretensiosamente aleatórios, mas que levaram ao clímax — ou anticlímax — dos acontecimentos. Uma quase morte. Acidente de carro. Felizmente, todos sobrevivem.

Sorte ou ironia do destino, após tornarem-se receptáculos de uma carga de energia caoticamente densa.

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Um ninho vazio. Agora, dois corpos que habitam, solitariamente, ímpares, o mesmo espaço. Coabitam, na verdade, esperando pelo fim. Daqui a pouco, como nunca poderiam prever, seria possível a viagem para o passado. Ao observarem a si mesmos, no canto da sala, tudo parece se encaixar. Um roteiro pré determinado, os males da modernidade, as pequenas pílulas de alegria…

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Agora, décadas depois. Uma solução brilhante, diga-se de passagem. “Cápsula de Felicidade”. Um nome piegas para uma solução medíocre. Paga-se muito, é verdade, mas prometem, como constataram, uma viagem de cura espiritual para casais. Segundo o slogan. “Reviver o passado. Reviver a Felicidade”. Terapia pouco convencional, capitalismo puro. É pagar pra ver, literalmente.

Deitados na asséptica câmara, mas de mãos dadas. A “viagem” não dura mais que 3 segundos no mundo real, mas poderiam escolher os momentos e demorarem ali. Escolha certa/escolha errada, a essa altura do campeonato, tanto faz.

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Acordam com um sorriso farto da “terapeuta”. Aos poucos, os sons chegam ao ouvido. Buzinas, TV, sala de espera.

Se vestem, percorrem o corredor rumo à cidade. O turno de trabalho está prestes a começar. Presente, futuro ou passado?

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