A questão trans além dos números e discursos

Daniela Gonçalves, Érica Rodrigues, Pamela Andrade, Renata Rodrigues e Thais Nascimento.

Muito se fala sobre a luta de transexuais, travestis e transgêneros na sociedade, uma vez que aos poucos o movimento está tendo visibilidade. Violência física, assassinatos, segregação social, a falta de oportunidades, saúde pública precária e reconhecimento de gênero e nome social, são os maiores problemas que essa população vivencia, uma vez que estamos em uma sociedade excludente para essa população.

A “Ponto a Ponto” checou os principais pontos e reivindicações dessa população, para levar ao público a realidade do preconceito de gênero.

Em entrevista com a militante trans Sônia Sissy Kelly, 61, ela conta a sua vivência como uma mulher trans no período da Ditadura Militar. Relata a violência, repressão e o preconceito sofrido no período. Uma das frases proferidas por elas foi a seguinte:

“Naquela época nós assinávamos a vadiagem, mas tinham algumas vantagens que hoje não temos. Não tinha essa matança que tem hoje, o que nos violentava era a segurança pública, o Estado. Hoje é a sociedade toda que nos violenta, hoje nós morremos por apenas sermos pessoas trans. A gente sai de dentro de casa e não sabe se vai voltar viva. ”

Afinal de contas, quem mata mais, a sociedade civil ou o Estado?

A realidade é que a violência de gênero sempre existiu, porém temos apenas dados concretos a partir dos anos 1990, com a formação de grupos e ONGs que militam na causa LGBTTQI, como o Grupo Gay da Bahia e a Associação Nacional de Travestis e Transexuais. De acordo com o relatório “Ditadura e Homossexualidades” da Comissão Nacional da Verdade (CNV), comissão esta que pesquisa detalhadamente as violações de direitos na época da Ditadura Militar, a discriminação contra o grupo LGBTTQI existe desde os tempos mais remotos da sociedade. Porém durante o período que compreende 1964 a 1985, com a supressão de direitos democráticos da população, o comportamento homossexual e afeminado era considerado subversivo. Ainda segundo a CNV, em dados concretos não é possível afirmar a quantidade de pessoas mortas por transfobia e/ou se houve algum tipo de Plano Nacional no Regime Militar contra essa população, mas as polícias de cada Estado realizavam suas rondas e operações para repressão dessa população.

“Não dá para fazer um comparativo propriamente dito, porque não existem dados oficiais e materiais concretos levantados suficientemente para se fazer um tipo de comparativo da população T (Travestis e Transexuais) da Ditadura Militar para os tempos de hoje”, afirma Luiz Morando, professor de letras do Centro Universitário de Belo Horizonte — UNIBH e especialista na questão LGBTTQI.

A prostituição é o caminho da população trans e travesti?

Em entrevista feita para o portal Empresa Brasil de Comunicação (EBC), a ex-presidenta da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA),Cris Stefanny, disse que 90% da população trans e travesti está na prostituição. O motivo seria a falta de oportunidades para essa população no mercado de trabalho formal, uma vez que vivemos em um mercado preconceituoso e transfóbico.
Lorena Maria de Paiva, maquiadora e profissional do sexo com 16 anos de idade.Saiu da casa aos 14 anos por falta de oportunidades de estudo, foi expulsa da escola por se vestir como mulher, veio para Belo Horizonte onde trabalhou como cozinheira e logo depois começou a fazer programas. Lorena é umas das centenas de mulheres trans no Brasil, que por falta de oportunidades foi para prostituição.

90% da população trans se prostitui? Será que é verdade?

“De fato há uma associação muito direta entre identidades trans femininas com a prostituição, mas por exemplo, vamos pensar também nos homens trans. Será que a prostituição é um campo de atuação profissional de homens trans? Já tem dentro dessa questão do trabalho um recorte que podemos definir entre feminilidades trans e masculinidades trans. E isso vem de uma lógica binária de gênero”, afirma Igor Monteiro, coordenador executivo do Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT da Universidade Federal de Minas Gerais.

A atual presidenta da Associação Nacional de Travestis e Transexuais, Keila Simpson Sousa explicou que a ANTRA não faz as pesquisa por ser uma organização da sociedade civil, mas que os dados são obtidos com as afiliadas da associação pelo Brasil a fora. “Nós entendemos que as pesquisas devem ser feitas por academias ou por institutos de pesquisas”, afirma Keila.