O rompimento de uma história

Gustavo Barros, Isabella Costa, Karina Amélia, Simon Nascimento, Welleson Mendes

O rompimento da barragem de Fundão, em cinco de novembro de 2015, é uma tragédia sem precedentes e, para muitos, sem explicação. A fatalidade ocorrida em Bento Rodrigues — distrito de Mariana, na região central de Minas Gerais — resultou em danos para o meio ambiente e para as comunidades afetadas, cobertas por uma lama de rejeitos que provocou um cenário de destruição e matou 19 pessoas.

Com desdobramentos em mais de 30 municípios, entre os estados de Minas Gerais e Espírito Santo, a tragédia representou uma violação aos direitos humanos, segundo a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, em abril desse ano.

Infográfico: A tragédia de Mariana em números. Criado com Piktochart. Welleson Mendes. Dados: Ibama.

Além das perdas pessoais dos moradores, o patrimônio histórico e cultural dos municípios foi comprometido e, em alguns casos, devastado. Templos religiosos, catalogados pela Prefeitura de Mariana no inventário de proteção ao acervo cultural, foram alvos da tragédia em Bento Rodrigues, Gesteira e em Paracatu de Baixo. A série de danos, porém, não se limitou a edificações históricas. Os patrimônios espeológicos e arqueológicos também foram afetados pela lama de rejeitos que avançou sobre municípios de Minas Gerais.

De acordo com Fernanda Borges de Moraes, doutora em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Minas Gerais, a destruição da Capela de São Bento e os danos à Capela de Nossa Senhora das Mercês representaram, para Bento Rodrigues, o fim de um costume religioso e cultural construído desde o século XVIII, quando o distrito foi nasceu.

“Bento Rodrigues surgiu na metade do século XVIII, desde então, recebe festas religiosas que tomavam as ruas da cidade. Com a completa destruição da Capela de São Bento, padroeiro do distrito, o costume também morre, assim como a atividade turística, pelo menos até a reconstrução da cidade. É um sepultamento territorial”, contou.

Os costumes religiosos citados por Fernanda são confirmados por Paula de Fátima, que morou em Bento Rodrigues por 37 anos. “A gente tinha a festa de São Bento e Senhora das Mercês, em setembro e a festa de Nossa Senhora Aparecida, em outubro, que comemorávamos em uma capelinha que fica na estrada. Tínhamos também as rezas de Maria Concebida, as coroações do Sagrado Coração de Jesus, em maio e junho, além da reza do terço todos os dias, que acontecia na Capela de São Bento. Em épocas de festas religiosas, a gente também se dedicava muito. Na Semana Santa enfeitávamos as igrejas, fazíamos procissões. Era sempre uma festa de toda a comunidade”, afirmou.

A arquitetura de Bento Rodrigues, segundo Fernanda Gomes Moraes, era peculiar às tradições de Minas Gerais.

“Quando a gente visitava a cidade, era nítido perceber as raízes mineiras nas construções e até mesmo nos costumes da população, de se reunir nos finais de tarde para conversas, essas coisas”.

Segundo Fernanda, os danos da tragédia poderiam ser menores.

“O município de Mariana dependeu exclusivamente e excessivamente da atividade de mineração. Não souberam diversificar e promover outras atividades rentáveis ao município, que recebia os royalties da atividade mineradora e redistribuía aos seus distritos. Talvez, se tivessem pensado em expandir outras atividades na região, até mesmo no turismo, a situação hoje seria melhor. No mínimo, mais estável”.
Fotos: Welleson Mendes

Além de responsável pelos danos arquitetônicos, o rastro de destruição deixado pela lama representou um risco à saúde das pessoas que tiveram algum tipo de contato com os rejeitos de minério. Segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), a lama apresentava dois elementos químicos que foram classificados como não perigosos: o ferro e manganês. Porém, análises do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) de Baixo Guandu-ES mostram a presença de diversos metais pesados como arsênio, mercúrio e chumbo nas águas do Rio Doce, contaminadas pela lama.

Estes elementos, segundo a análise, são extremamente tóxicos ao ambiente e à saúde humana, sendo absorvidos nos corpos dos diferentes organismos e dificilmente eliminados. Tendo em vista o contato eminente das populações de distritos afetados com a lama de rejeitos, a Samarco, em publicação no livro de ações — um ano após a tragédia -, afirmou que providenciou um maior efetivo de profissionais de saúde para atendimento emergencial às pessoas.

O Mestre em Epidemiologia e professor da Escola de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, Marcos Vinicius Polignano, ainda acha difícil diagnosticar as consequências para a saúde humana após contato com a lama de rejeitos, mesmo com um ano e seis meses do ocorrido.

“O problema que a gente tem, desde o evento até hoje, uma informação incompleta dos parâmetros, tanto de qualidade dessas águas contaminadas, quanto das características dos sedimentos. O que temos de concreto, e que foi descoberto em conversas com integrantes das comunidades, é que animais que consumiram estas águas passaram mal e apresentam alterações nos quadros clínicos.”

De acordo com o epidemiologista, apesar das indefinições, o que se pode diagnosticar são problemas respiratórios, digestivos e neurológicos nos humanos que apresentaram contato com a lama.

“Dentro das perspectivas de incertezas, foram detectados, em algumas inspeções no Rio Doce, alguns metais pesados como manganês e arsênio. Esses podem causar alterações clínicas, dependendo da intensidade do contato, o que pode levar a quadros mais agudos. Por serem cumulativos, podem trazer problemas de ordem digestiva, dermatológicas, neurológicas e, em grande escala, respiratória”.

O surto de Febre Amarela que avançou pelo Brasil desde o fim de 2016 — em especial, pelas cidades de Minas Gerais — pode ter relação com a tragédia ocorrida em Mariana, segundo o epidemiologista Marcos Vinícius Polignano.

“O surto de febre amarela tem relação estreita com esse crime ambiental, pois a maior incidência no estado foi na Região do Vale do Rio Doce, onde os rejeitos passaram e alteraram costumes, além na vida humana, mas também nas condições ecológicas. E essas alterações provocaram a migração de espécies das áreas degradadas para outras regiões. Os macacos, por exemplo, que são hospedeiros do vírus, deixaram os locais de habitat e buscaram outros locais, daí a gente compreende a disseminação do vírus em maior escala”.
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