Qual o filme que você mais gostou?

Um conto baseado em um sonho; a sonhadora é dona de uma voz confortante, um carisma encantador e uns sonhos bem loucos.


Espero que goste, Bur.



É terça-feira; ou acho que é— não se tem muita noção dos dias da semana quando está nascendo. Todos estão felizes. Eu, chorando; ou pelo fato de estar entrando em um universo desconhecido ou porque aquele de branco bateu em mim. Acredito que esse seja o único momento da vida de um ser humano que o choro é realmente necessário.

Desde aquela terça muita coisa aconteceu; Tenho 5 — quase 6 — anos. Os domingos, que se resumem em assistir desenhos pela manhã, almoço em família e passeios pelos parques são uma constante na minha vida.

Aprendi a andar de bicicleta, gostei muito. O vento no meu rosto, meu pai correndo e minha mãe gritando como se eu estivesse mesmo correndo perigo, é engraçado. Não gostei dos arranhões.

Com certeza a fase que não quero sair.

Aprendi cedo que não temos tudo o que queremos: passei da fase dos desenhos dominicais — que teve como ponto baixo a minha ida à escola.

Apesar de todos os choros e a vontade de voltar pra casa, aguentei firme a escola. E, cá estou, 10 anos. Segundo minha tia, já sou ‘grandinho’; dizer que não quer me dar presente de natal nem ovo de páscoa seria mais honesto da parte dela. Superei com bom humor.

Não sei exatamente o que achar das meninas, não consigo entendê-las. São malucas. Completamente malucas.

Passou.

As garotas tornaram-se mais interessantes, devo admitir. Entre a primeira garota que eu gostei, até essa da sala da frente, aprendi um pouco sobre amor: não tem como explicá-lo.

Ah, e a escola agora não é mais um problema, gosto de ir. Porém, isso de gostar de alguém é (bem) mais interessante que a aula sobre binômio.

Estou deixando meu cabelo crescer — para o desespero dos meus pais. Eles não entendem que essa é a parte da minha vida que eu busco minha própria identidade; ou fingem não entender.

Olha só, consegui beijar a da sala da frente.

Minha adolescência passou; os amores — correspondidos ou não — e as amizades são lembranças de um bom passado. Tenho que trabalhar; a vida é estressante. Nem se compara com o estresse que eu reclamava na época da escola. Preciso usar roupas sociais; tornei-me o adulto que eu não queria me tornar. A falta que todas as aventuras, mancadas e rebeldias de outrora faz é inenarrável.

Pulei essa parte do filme.

A cadeira de balaço na qual estou sentando range. Meus ralos cabelos esbranquiçados quase balançam acompanhando o vento que entra pela janela.

Passei toda a vida buscando a forma certa de viver.

Hoje, o dia que darei meu último suspiro, foi um dia de descobertas; descobri que não há forma correta de viver, a não ser a forma que você viveu; e descobri também o que queriam dizer com “um filme passará diante dos seus olhos”.

Esse foi o meu filme; essa foi a minha vida.