Listomania, é difícil largar

Viradas de ano são épocas em que o tempo parece parar. Saber exatamente quando um ano acaba e outro começa não é algo que se dá na passagem de um dia para outro, demora uns dias pra que fique claro. Sâo épocas em que os planos para o próximo ano se misturam com as lembranças do que passou, e a atmosfera de retrospectiva se mistura com as expectativas de renovação e recomeço. É uma época que parece não ter um agora, pois só se fala no antes e no depois. Como nos aniversários, é difícil escapar do clima da data. É o aniversário do mundo.

Estes são momentos especialmente propícios para acender um vício, uma mania, uma obsessão: listar. O mundo se torna repleto de listas. De fatos marcantes do ano velho aos desafios da economia para o ano novo; dos melhores discos lançados aos melhores filmes por vir. O que pode representar melhor estes períodos do que listas? Consultá-las e elaborá-las é um passatempo por excelência de viradas de ano. Toda retrospectiva é uma lista, todo planejamento também.

As listas de resoluções são criadas como gabaritos para o ano que virá, e não faltará para os mais desesperados o item “cumprir esta lista”. Na época da virada, quando a lista do ano anterior já estiver há muito esquecida ainda poderemos avaliar o quanto vivemos de verdade os últimos 12 meses pelas inúmeras listas de melhores do ano. O melhor argumento para não se sentir fora de época nessas horas é pensar “ora, se algo está em uma lista de melhores do ano é porque na verdade é atemporal”. Como não teremos visto a maioria dos filmes, ouvido os discos, lido as notícias, conhecido os lugares mais marcantes do ano que se passa, teremos então a ocasião perfeita para renovarmos todas as nossas listas.

Viradas de ano são os momentos de pico coletivo de uma síndrome que só se faz crescer: a listomania, quando a consulta ou elaboração de listas deixa de ser apenas uma forma de organização cotidiana e se torna algo patológico. A linha é tênue. Saudável é aquele que só faz uma listinha de afazeres por dia, que só lista socialmente, sem abusos; que mantém uma lista de filmes pra ver, livros a ler, atualizadas sem constância ou muito método (listas muito metódicas e organizadas indicam traços patológicos). O listador saudável não se sente dependente de suas listas, admite perde-las, pode até não fazê-las.

O listomaníaco é um dependente. Sente que precisa listar algo para fazer, ou mesmo listar o que fez, pra dar força à ação. Exibe um fascínio estranho por dicionários, índices de livro, catálogos de loja e sites agregadores de notícia. Chega a apresentar comportamentos algo ridículos como a listagem de listas, seja das que precisa fazer, seja das que já têm, pois podem ser tantas que acabam se perdendo. Perder uma lista, aliás, está entre os piores pesadelos para o listomaníaco, pois é sinônimo de perda de tempo. Seus outros dois grandes temores são bibliotecas e, curiosamente, listas de outros. O listomaníaco é sempre um devedor e estas duas coisas sempre o lembram disso. Seu refúgio está na ideia de “clássico”. Quem volta aos clássicos nunca perde tempo, mesmo que eles tirem nossa atenção do presente. O clássico é a lista consagrada, o hours concours, o básico.

Oscar Bluemner — List of Works of Art, 1932

Listas não são só hierarquias de tarefas ou catalogações. São cobranças pessoais, projeções, projetos de vida, expressões de desejo (quanto maiores, melhores; as mais cumpríveis são as menos interessantes), desejo em relação ao que se lista e em relação ao uso do tempo. É do tempo e de seu controle, sobretudo, que se trata a listomania. Listar é de certo modo criar uma relação de amor platônico com o tempo, idealizar seu uso. O listomaníaco, contudo, tem dificuldade para perceber que sua obsessão é na verdade uma elaborada forma de procrastinação. Tal como em boa parte dos atos procrastinantes, temos a ideia de que estamos fazendo de fato alguma coisa — não o que deveríamos estar fazendo, mas ainda sim algo que é importante de alguma forma. Procrastinar é, afinal, fazer o adiar ser outra coisa: organizar, relaxar, divertir. Quando a lista procrastinante está pronta e mostra então a maligna face da cobrança, seu poder se perde e outra lista terá de vir para procrastinar esta primeira.

A listomania se manifesta com gravidade distinta nos indivíduos, o que pode ser observado pelos distúrbios que causa. Listemo-los. Não raro listomaníacos sofrem de delírio do tique, a ilusão de terem cumprido algo de uma lista sem que isto tenha ocorrido. Pode ocorrer pelo excesso de vezes em que se listou algo em diversas listas diferentes. Isto nos leva a deja liste, ato de elaborar listas já feitas ou repetir um mesmo item em diferentes listas. Já a itemamnese é algo mais grave; ocorre quando se esquece qual a razão de se listar algo, listando-o mesmo assim. É comum em listas de compras e épocas de feiras de livro e tem estreita conexão com a disposolistofobia (ou lista de Diógenes), ato de colecionar listas (às quais atribue-se escalas de valor em função do prestígio dos autores ou da raridade dos itens listados) ou, em versões mais graves, dispor de todas as listas possíveis já existentes sobre um tema (não basta consulta-las, é preciso tê-las). Desta última encontram-se casos graves entre cinéfilos.

O mais grave dos sintomas, porém, é a rara babelistomania. Trata-se do ato de listar todos os itens possíveis que digam respeito ao tema de uma lista. Como exemplo, basta pensar de novo no cinéfilo que passa de uma inocente lista dos principais filmes do diretor tailandês do momento ao caso patológico de listar todos os filmes feitos na Tailândia nas últimas décadas. Para esses casos não se conhece tratamento melhor do que empregar o sujeito como editor da Wikipédia. A babelistomania é a pior das síndromes pois acaba com o fundamento do listar, a subjetividade. Sua descoberta foi inspirada pelo célebre listomaníaco argentino Jorge Luís Borges e sua Biblioteca de Babel — obra capital nas listas de obras sobre Listomania de envergadura comparável ao clássico Index Librorum Prohibitorum. Ali a ideia de uma biblioteca chega a perder seu sentido, já que de Babel continha todos os livros do mundo, até aqueles que só existem porque é possível colocar letras lado a lado, mesmo que não se diga nada.

Toda lista é, afinal, um pequeno todo; só por fazê-las ou consultá-las parece que estamos concluindo algo. Listas parecem ter o poder de tornar as coisas deveres, não só no sentido da obrigação, mas também do prazer — não se trata só de ter que fazer algo, mas será bom fazê-lo. Por que então não cumprimos nossas listas? Por que listas tem a misteriosa capacidade de nos desinteressar de nossos interesses? Esta é a contradição fundamental da listomania. Querendo controlar o tempo estamos na verdade querendo mais liberdade.

Não se sabe de cura para a listomania. Discussões não faltam da medicina à sociologia. Debate-se de internação compulsória a questões sobre a passagem da teoria à práxis. O que se vê é apenas o aumento das listas bibliográficas. Na verdade, o vício parece não parar de se espalhar, ainda mais quando velhos hábitos ganham novas formas como o navegar a esmo pela internet e, consequentemente, por sua infinidade de listas, seja dos 20 brinquedos que o seu gato não queria ganhar nos anos 80 até os 21 motivos que explicam porque você tem mais de 21 anos.

Há iniciativas bem curiosas, como o site listgeek.com, rede social para listomaníacos, onde você pode elaborar e compartilhar listas de qualquer coisa — inclusive de usuários do próprio site! A listomania talvez é hoje mais do que nunca um vício que é hábito do cotidiano, ganhando as mesas de bares e de trabalho ao lado da cerveja, cigarro e café. Listas não são feitas ou consultadas para serem cumpridas; o prazer das listas e do listar são as listas e o listar mesmo. A listomania é, afinal, uma finalidade sem fim.

De 24 Jan. 2014

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