Manhã de sexta

Manhã de sexta pós feriado. Saio de manhã para o trabalho com o tempo contado para retirar 30 reais, mais do que suficientes para minhas necessidades desta manhã: pagar duas passagens de ônibus e comer alguma coisa numa lanchonete. Dos 7 caixas eletrônicos na única unidade do meu banco a caminho do ponto apenas uma está saque disponível e só de notas de 50. É também precisamente esta a máquina com defeito que não consegue mais ler cartões. Tento a contragosto o sistema de biometria da máquina, mas não tenho meu dedo cadastrado no banco (o que talvez não seja tão ruim).

Como também não tenho um vintém na carteira preciso ir à boca do caixa sacar. Já desisti do café da manhã, mas acho que ainda vai dar tempo de pegar o ônibus das 11h.

Não.

Sou o 388 e há pelo menos 8 pessoas na minha frente, sem contar os idosos. É nessas horas — especialmente quando a tela de senhas vai ao invés de avançar um volta pro 062 — que a gente sente mais a falta de inclusão digital da terceira idade, que poderia estar pagando seus boletos na internet. Já perdi o ônibus, mas não tenho mais saco de esperar no banco. Lembrei que há um caixa 24 horas na loja de conveniência chique de um posto próximo, a “Maria Gasolina”. Espero que não cobre taxa. Pagar para pegar seu próprio dinheiro é algo difícil de acreditar que existe.

Consigo enfim 40 reais em duas de vinte. Agora que tenho mais 40 minutos até que o próximo ônibus saia posso fazer o desjejum sossegado. Fico tentado pela oferta da lanchonete “La Coxinha”, a rede que trouxe pra onde moro o ~business~ da coxinha vendida em copo: 5 reais por um copo de pão de queijo, um café ou suco de laranja e uma maçã.

Mas agora que tenho tempo e dinheiro posso escolher um ~ambiance~ melhor e resolvo ir à lanchonete da praça em frente, ao ar livre e sem uma névoa de fritura. Chego e descubro que acaba de acabar o pão de queijo.

Ainda resta a pastelaria em frente ao terminal de ônibus, sempre movimentada, onde nunca falta pão de queijo. Fato. Resolvo esbanjar: um café, um pão de queijo, uma paçoca e uma garrafa d´água. Quando a moça diz “3,70” — provavelmente só o preço da água na conveniência do posto — é a melhor parte do meu dia até agora. Nem me incomodo em só descobrir só depois que hoje todos os pastéis estão pelo mesmo preço e que podem ser pedidos no combo com o suco de laranja por 4,70. É um lugar especial. Outro dia vi na esquina ali na frente um menino de uns 7 anos esperando a mãe sentado em posição de meditação .

Sento numa das mesinhas plásticas da pastelaria. Há em todas elas um mesmo tipo de pote tampado com o mesmo pedaço de tampa cortado pra acomodar aqueles papéis de comer pastel, organizados como cartas espalhadas numa mesa de cassino. A abelha não consegue esperar eu abrir a paçoca e não vou querer irritá-la mais com os 33 graus que está fazendo.

Um barulho absurdo de máquina encobre o som dos ônibus. É de um carro de caldo de cana ali ao lado, daqueles em que o nome do produto foi escrito torto com tinta spray, com um ramo de canas desenhado no canto, provavelmente pelos mesmos artistas que desenham a Mônica e o Cebolinha em portas de sorveteria de bairro. O moedor de cana insiste em falhar e o tiozinho volta a acioná-lo com uma corda qualquer, que tira do bolso e enrola no rotor com muita paciência como se estivesse preparando um pião. Apesar de estar fazendo isto há tantos anos quanto eu tenho de idade o tio não consegue reanimar a máquina de primeira nenhuma vez.

Hora de ir e carregar o Bilhete Único. Só há três pessoas na fila, mas é o suficiente pra não andar. O primeiro menino sai e noto que os dois moços a minha frente estão juntos. Falam um espanhol incompreensível para mim e diante da moça do caixa parecem não falar muito português. Entregam à caixa uma pilha enorme de moedas da qual não sabem o valor. A caixa começa a contar uma a uma

Já dentro do terminal ainda dá tempo de ver o anúncio de um curso grátis de ginástica de trampolins a ser oferecido pela prefeitura numa estação de trem (bom saber que existe) e o relógio que marca temperatura. O ônibus chega na hora. 33 graus continuam à toda.

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