Não me dê esse emprego

Seria bom ter um emprego com carteira assinada pagando pelo menos uns três salários mínimos, vale transporte, refeição e plano de saúde pra variar.

Embora um monte de gente da minha geração, ali da segunda metade dos 80 em diante (talvez um grupo que se possa chamar de *semillenial*, por conta do atraso tecnológico do Brasil) não consiga viver do que gosta ou não faça ideia do que realmente quer fazer da vida - ou ache mesmo a própria questão uma bobagem - um pacote de estabilidade financeira desse naipe tem soado como o que de mais perto há de se ganhar na loteria.

Daí quando a empresa me chamou pra entrevista fiquei animado. Ando numas que só de ir pra entrevistas já parece que ganhei alguma coisa. Acho que vou começar a colocar no currículo os locais onde fui entrevistado. Mas aí penso que isso seria pior do que colocar no Lattes seu ensino médio e escola de inglês. E de produção artificial de relevância já me basta os certificados que recebo dos eventos inúteis aos quais vou.

Só por ser uma editora oferecendo um salário de pouco mais de 3 mil com benefícios me bastou pra testar minha empregabilidade. Enviei o currículo e só depois fui checar o catálogo. Títulos de auto-ajuda no geral, e uns romances água com açúcar, daqueles com muito azul e branco na capa e imagens de paisagem. Alguns livros didáticos de inglês também. É nessas horas que a ideia de "estar no meio e conhecer gente" ganha força. Mesmo que a ideia de meio precise se dilatar um pouco à força.

A sala de espera estava decorada com almofadas e cartazes do último bestseller de romance de auto-ajuda movido a cães que acabou virando filme. Este em particular ainda parece que rendeu uma polêmica por conta de como o cachorro foi tratado no filme. O que poderia bem ser uma estratégia pra o público pensar nas condições com que cães são tratados nesses filmes e que se tornaria a metáfora central de um novo livro sobre como a gente se aproveita das nossas fontes de afeto de forma destrutiva pra sanarmos nossas próprias dores - o que seria até um movimento interessante do gênero.

Putz, com uma constatação dessas, essa vaga é minha.

Quando acho que estou meio situado no ambiente o rapaz da entrevista vem me buscar. Ele fala com um tom meio acelerado demais, quase tenso, pra quem trabalha num lugar com publicações como essa, penso. Mas essa constatação só prova quão ignorante sou sobre o mercado editorial.

Logo antes de entrar na salinha de entrevista noto um móvel com vários exemplares de A bíblia sagrada da princesinha. Este é o titulo da obra. Um deles, em pé, estava ornado com uma coroinha daquelas de plástico. Era um sinal.

Descubro que o cargo é na verdade para o selo religioso da companhia, voltado para o público evangélico "que é um mercado que cresce muito. É um público muito leitor". A perspectiva de crescer na empresa é grande, sou informado, o que soa engraçado; das entrevistas de emprego que fui essa é a primeira vez que uma frase desse tipo é dita.

Também dizem que não se espera do candidato que siga qualquer religião. O que importa é vontade de aprender. Como “eclético” é uma palavra que se tornou gasta e um tanto patética, é nessas horas que me descrevo como “curioso”. Isso enquanto internamente tento resgatar toda a disposição narrativa e antropológica possível que me convença a entrar no mercado da auto-ajuda evangélica.

Só depois dali eu descobriria que esta é a editora que publica os livros de um expoente do conservadorismo homofóbico brasuca.

Mas diante dos meus entrevistadores ainda não sei isso, oque me permite ter uma margem de dúvida um pouco maior. Enquanto ouço a descrição do cargo (que a princípio envolve mesmo é mandar e-mails e preencher planilhas) e o perfil da empresa me sinto como naquelas cenas de desenho, com um anjinho de um lado me dizendo "Caia fora agora mesmo, não minta para essas pessoas, continue indo atrás de seus sonhos" e um diabinho do outro, sentado à beira da piscina, tomando bons drinks, lendo a bíblia sagrada da princesinha e abanando 3 mil reais na minha cara.

“Você se vê a longo prazo trabalhando nesse ramo, num espaço como esse?”, pergunta o entrevistador

Um leve surto de sincericídio foi a única coisa que consegui responder. Eu estava tranquilo, já havia falado um pouco de mim, e, como sempre, tentado pintar minha errática formação com o verniz do rigor e da versatilidade. Achei que não seria muito arriscado jogar uma daquelas frases absolutamente pouco recomendadas em manuais de entrevista.

“Olha, como vocês podem notar pelo meu currículo, eu não vê vejo fazendo nada a longo prazo.”

Uma genial demonstração de desprendimento ou um hara-kiri empregatício. Em todo caso, fui sincero.

Ainda resolvi ficar e fazer dois exercícios propostos. Escrever um e-mail de negócios em inglês e a uma nota publicitária em português sobre livro Present Over Perfect a partir das informações do site da Amazon americana. Eis que me saio com isto:

Ser mãe, esposa, filha, irmã, amiga, vizinha. Ter de ser a mulher perfeita em tudo, para os outros e para si mesma. O corpo cansa e o espírito também. É esse o melhor caminho da vida? Em Por Um Presente Mais do que Perfeito acompanhe Shauna Niequist nesta jornada em busca do que vale realmente a pena no cotidiano: a simplicidade, o descanso, a oração, e a tranquilidade da graça. Aceite este convite para redescobrir a vida. Mais do que perfeita, ela precisa ser sua.

Não sei porque nunca entraram em contato de volta.