O homem que perdeu a boca

Apesar de estarmos em 2017 ele ainda gostava de ler jornal, pulava a parte dos horóscopos e ia direto para os quadrinhos, até por que só rindo antes para você poder encarar o restante. Como uma terapia ele passava por todas as páginas, mesmo não lendo, talvez na esperança de encontrar outro quadrinho perdido por ali, talvez uma edição extra tenha sido inserida ali depois do caderno de esportes, mas tudo acabava na parte das crônicas, não só o jornal como também a sua tranquilidade.

Ele queria falar para o cronista como ele estava sendo injusto e imparcial, como se a injustiça já não fosse sinônimo do mesmo. Ele bradava com o dedo em riste “Isso é um absurdo!”, mas ninguém o ouvia.

Fechava o jornal de hoje e seguia sua vida até o jornal de amanhã.

Novamente o cronista tirou o seu sorriso e dessa vez ele apenas balbuciou um “absurdo”, dessa vez até sem exclamação.

Não era sexta-feira ainda e de novo ele encarou o jornal, quer dizer, encarou o cronista, leu e dessa vez apenas respirou fundo, aquela respirada com o tom de reticências.

Pensando que o final de semana tinha o feito esquecer, logo que pegou o jornal lembrou do cronista, só que dessa vez foi direto na crônica.

E sorriu.

Talvez tenha sido a paciência, tem quem diz que foi a insistência, mas há quem diga que aquele dia, o cronista desenhou um quadrinho.

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