Reina, de Ian Cardoso

PoroAberto
Nov 27, 2018 · 11 min read

Ian Cardoso vem tecendo sua sonoridade e construindo sua obra sem muito alarde. Cientista Social de formação, engatou a carreira de músico com o grupo Pirombeira. Depois, entrou para a banda que acompanha a carreira solo de Ronei Jorge e estabeleceu parcerias com nomes de destaque da cena musical baiana, como Lívia Nery, Rebeca Matta, Nancy Viégas, dentre outros. Nos últimos anos, sua prática musical se aliou à vocação acadêmica inicial. Entre 2016 e 2018 cursou o mestrado profissional em música na Universidade Federal da Bahia, em Salvador, sob orientação de Rowney Scott.

Seu mestrado foi justamente uma reflexão sobre a produção do seu primeiro trabalho solo, “Reina: a coisa e o além da coisa na produção de um EP”, envolvendo tanto uma documentação do processo de gravação, composição e produção, quanto questões subjetivas e afetivas que permearam o processo criativo.

Ian Cardoso. Foto: Pérola Mathias

Reina é um disco para se escutar demoradamente. A cada audição é possível perceber uma nova camada sonora vindo à tona, um timbre, um ritmo, uma ideia. O álbum fala de solidão, de memória e do ser em sua vastidão: o que é a vida, o que somos nós, o que é o tempo? Há um balanço das coisas do universo, o “abraçar o tudo e o nada”, que está tanto nas letras como na sonoridade, misturando canção com prosa; poesia com instrumental; dança e suingue com introspecção.

À primeira escuta, é um disco solar. Mas logo no início, Ian, acompanhado pela voz doce de Rebeca Matta, canta o medo, que surge, na faixa homônima, “no meio de um sonho”, definindo-se como “o eterno num segundo”, a agonia duradoura e involuntária que acompanha nossa existência.

A guitarra de Ian é, sem dúvida, a condutora das 5 faixas. “Reina”, a faixa título, talvez seja a que sintetize melhor as perspectivas de exploração sonora, em que percebemos uma dissonância nos instrumentos, no coro das vozes de Nancy Viegas e Mônica Freire, em trecho que soa mais psicodélico, e no sax soprano de Scott improvisando. Quando a música se aproxima do fim, Bruno Torres recita o texto “Incidental”, de tom visceral e existencial — condizente com as reflexões do personagem Javé, criado por Ian em sua dissertação.

Ian Cardoso. Foto: Pérola Mathias

O conto, “O elã de Javé”, aparece como um memorial na introdução de seu trabalho de mestrado. É uma narrativa breve e ficcional, que conta um dia de ressaca na vida do personagem. As etapas do dia trazem diversas lembranças em que ele mergulha, como a de um carnaval passado, e visões poéticas do dia a dia. Javé, inerte e sentindo enjoo, olha para um mamão que estava na geladeira e que pode melhorar seu mal estar. Ele pensa na cura e associa os inúmeros caroços juntinhos a uma multidão aglomerada, como a que sobe o Morro do Cristo no circuito Barra-Ondina do carnaval de Salvador. Mas o que esse texto literário escrito por um sociólogo para um mestrado em música tem a ver? Basicamente tudo. Tudo está ali.

Das 5 faixas do disco, 2 são instrumentais: “Acoisaalémdacoisa”, uma vinheta de 1 minuto, e “Caroço de mamão” (#mataverme). Elas soam como os devaneios de Javé, narrados em palavras por Ian, depois traduzido em notas por ele — ou, “a magia da palavra/ preparando pra doer”, como diz em “Reina”.

Ian foi meu veterano no curso de Ciências Sociais, quando entrei na UFBA, em 2008, além de ter sido meu vizinho por anos. Posso dizer que o vi começar sua carreira musical, desde o primeiro Som de Zilda: uma tenda musical organizada por nossos colegas no quintal do bar Tenda da Deusa, nos fundos da nossa faculdade, onde nasceu Pirombeira. Aproveitando deste lugar privilegiado de proximidade, trago uma breve entrevista com Ian sobre o EP.

Poro Aberto: Queria que você me falasse um pouco como foi que você chegou ao resultado de Reina. Como foi fazer o disco e escolher seus parceiros (Rebeca Matta, Nancy Viégas etc)? Mesmo com uma galera que está há muito tempo na estrada, Reina me soou bem singular e parece que todo mundo que trabalhou nele confluiu para sua onda.
Ian Cardoso: Reina surgiu de uma vontade de apresentar uma produção que só faria sentido nesse momento e que fosse solo porque trata de questões muito íntimas e de uma abordagem criativa íntima também. Comecei a pensar o trabalho, não ainda na forma de EP, mas produzindo. Tudo começou de uma seleção de repertório, tem músicas de vários tempos, tempos não tão longínquos da minha produção autoral. Tanto que “Reina” foi a única música que veio depois, já com o processo andando. Por isso talvez ela tenha dado nome ao trabalho, porque eu já observava melhor o que estava acontecendo e criando. Então, ela funciona meio como um guarda-chuva.
O EP é uma proposta de um contexto, de uma abordagem sobre temas muito amplos, tudo, nada, morte, vida. Coisas meio gigantescas. Com isso fez sentido agregar as pessoas que já passaram na minha timeline da vida de alguma forma, os músicos, os convidados, as pessoas que contribuíram na parte escrita, arte gráfica, assessoria. É um EP muito marcado pela colaboração, pela generosidade, pelo afeto. E tem pessoas com uma bagagem longa, como Nancy e Rebeca, Rowney Scott, Alexandre Vieira, Tadeu Mascarenhas, Marquinho Santos etc. E cada um contribuiu de uma maneira, tornando a coisa mais singular, uma tradução coletiva do que eu estava pensando. E mais precisa, por mais que eu tenha pensado os arranjos e a produção, tem o toque dessas pessoas que são referência pra mim e pra esse trabalho também.

PA: Você acha que seu disco é experimental dentro da ideia da canção?
IC: Existe um experimentalismo dentro da canção. A música, uma vez concebida a composição, a mensagem muitas vezes não chega de pronto, vai retornando pra você, e com o tempo você vai entendendo o que está ali. Pra mim funciona assim. Então, tanto um como outro processo, eles meio que reivindicam o lugar em que vão estar transitando. Às vezes faço uma música e penso se seria mais legal pro meu projeto autoral, se seria mais legal pra Pirombeira ou pra propor uma parceria, é nesse sentido que a obra reivindica um espaço. Assim, como existe uma ideia de poesia e de harmonia ali, como vou usar melodia ou a estrutura musical, isso vai forjando o tipo de arranjo que a música vai pedindo. E isso leva pro ambiente do experimental, de topar com um processo que está para além de você, que demanda outros níveis de abstração. Existe uma linguagem pop que esse trabalho se aproxima, com certeza, que eu adoro. Tem alguns elementos como a repetição, que são coisas que eu gosto, mas isso também não anula uma potência experimental dentro do processo de criação dos arranjos e da elaboração do produto final. Existe um grau de improvisação, sabe? Que vai desde o momento em você cria a situação, seu humor, o tipo de contexto que você está imerso naqueles momentos… E cada vez que você toca a música ela vem de uma maneira diferente. Isso tanto no que se relaciona à temática, que pra mim é algo desconhecido e vai ganhando significado ao longo do tempo, quanto na forma de tocar.

PA: Me fala também um pouco como foi a experiência com a Pirombeira, musical e pessoalmente.
IC: A Pirombeira pra mim é minha grande escola. A gente começou de uma maneira muito despretensiosa. Primeiro o encontro aconteceu, depois a banda surgiu desse encontro. Quem estava tocando mais, quem estava mais ali frequentando o Som de Zilda, todo mundo compositor, cada um com sua escola, por assim dizer, de criação. Foi ali que eu conheci mais sobre alguns ambientes musicais, do samba de roda ao jazz, a música popular brasileira. A Pirombeira surgiu desse encontro, tanto que todo mundo traz consigo essa bagagem e agora todo mundo está caminhando por si também, saindo desse laboratório. E foi minha maior experiência artística até hoje. Então é isso, musical nesse aspecto e pessoal no lance da produção. A gente sempre caminhou por uma trilha auto-gestionada até chegar ao primeiro disco.

UFBA. Foto: Pérola Mathias

PA: E, como a gente se conhece há muito tempo, não tenho como não perguntar: me fala um pouco da sua trajetória até chegar definitivamente na música, das Ciências Sociais ao Som de Zilda, da Pirombeira até tocar com Ronei Jorge e lançar Reina. Como foi esse processo de assumir de vez a música, mas por outro lado sem ter abandonado a academia?
IC: É muito doido esse negócio da trajetória, porque tudo está conectado, né? A gente vai caminhando nas coisas e outras coisas vão aparecendo a partir das coisas que te afligem. E tudo isso que você acompanhou bem e falou, está muito conectado. Porque claro, já tinha relação com a música há um tempo, com outras bandas de colégio e essa coisa toda. Aí eu entrei em Ciências Sociais e, quando eu estava no final do curso, João Gilberto [percussionista da Pirombeira] foi quem chamou a galera, ele foi o grande catalizador do primeiro Som de Zilda, ele que criou a iniciativa de começar a chamar o povo. E a gente se conheceu na faculdade, começou o Som de Zilda e eu digo que minha paixão, me ver mesmo trabalhando com música, veio a partir dali. A Ciências Sociais eram ali em São Lázaro [local em Salvador] onde tem o Som de Zilda e dali a Pirombeira surgiu. E tivemos uma caminhada. Nessa, Ronei Jorge me viu tocando com a Pirombeira, quando ele era jurado do prêmio Caymmi, e me convidou pra tocar com ele, pra ser parte do grupo dele. Ciências sociais, Som de Zilda, Pirombeira, Ronei… e o Reina não é diferente disso, né? Eu acho que eu só tive essa coragem pra lançar uma coisa solo porque eu consegui acumular uma experiência com essas coisas todas e ele é o passo seguinte disso tudo. A academia sempre foi secundária nesse processo todo. Não posso dizer que trabalho como cientista social, mas o curso me deu uma base, aquela quantidade de assuntos que a gente acessa me deu um baque. E talvez a densidade das reflexões também venham desse lugar que eu atravessei. E aí depois entrei na faculdade de música, pra fazer graduação em música popular na UFBA, e não concluí. Entrei direto no mestrado com a graduação de Ciências Sociais mesmo. E foi lá que eu consegui o suporte pra poder desenvolver o EP. Tá tudo conectado, bicho. Eu não me enxergo como acadêmico. Eu caminho por esse lado, mas tem sido secundário na trajetória. Mas agora eu quero aplicar um doutorado porque a academia é um ambiente interessante, te equipa, te instrumentaliza. Mas não é meu caminho principal, eu imagino, meu lance é mais produzir mesmo, tocar e tudo mais.

PA: Você acha que suas letras são influenciadas por esse pensamento sociológico ou pelo efeito que ele pode ter vindo a ter em você? Porque todas as questões tratadas, em forma de letra, poesia e som no disco têm uma densidade (filosófica, talvez?) — “acoisaalémdacoisa”, ainda mais escrito assim, tudo junto.
IC: As Ciências Sociais me influenciaram, foi um baque. Conheci muita coisa nova, teorias, saí de uma bolha e entrei em outra, ou ampliei as bolhas. Foi uma experiência baqueante no bom sentido. E minha trajetória musical profissional começou na faculdade de Ciência Sociais. “acoisaalémdacoisa” é um dos motes do EP, porque de alguma forma ela está querendo abordar e problematizar as não obviedades. Tipo, o que pode estar além da capacidade nossa de se comunicar em linguagem? O que eu estou dizendo pra você saiu de mim de uma maneira que não vai chegar em você necessariamente da mesma maneira que eu desejo ou quis que você interpretasse. “acoisaalémdacoisa” fala disso. É uma quantidade de símbolos que nos conectam para além daquele símbolo material ou figura de linguagem e tudo mais. Aí eu grafei tudo junto pra tensionar um pouco mais isso, ser uma palavra só. A gente está falando de duas coisas, que é a coisa que está além da coisa, só que está tudo junto ali.

PA: E tem muito a ver com o conto do Elã de Javé, que foi parte do seu processo do mestrado, né? A ressaca, as questões existenciais, o mamão, o carnaval, tudo ali flutuando na cabeça, no ouvido, no corpo…
IC: Bem lembrado, velho. E que massa, inclusive, que você já leu o “Elã de Javé”, porque tem tudo a ver. O “Elã de Javé”, retomando, é um memorial, a ideia era fazer com que aquele conto narrasse um pouco do meu processo, de como foi gravar esse EP. Na verdade, é o processo do mestrado que o EP está incluído. Esse conto meio que faz um resumo livre, onírico e ficcional para falar desse processo que eu vivi no mestrado. Tem vários momentos ali que estão meio que relacionados mesmo às coisas todas, tem trecho de “Reina” [a música] lá, de “O que será”, que fala do medo… Está tudo ali e tem tudo a ver mesmo por conta disso.

E o carnaval, esse EP fala muito dessas confusões, né? Dos problemas das definições. E o carnaval é onde isso acontece, onde está tudo misturado, aquela mistura de energias, vontades e verdades, carnalidades, corporalidades etc. As pessoas se submetem às contradições e querem investigar as contradições, talvez, dentro de si, e eu acho que isso é carnaval. E sobretudo isso está em “Caroço de mamão”. E fala de corpo, a relação com a memória, as cicatrizes que a gente leva. O presente como condensador de todos estes tempos.

PA: Me fala também um pouco das outras coisas que você fez em música. Tipo sua performance com Mab [irmã e dançarina]. Tem umas fotos que mostram que foi algo potente.
IC: Mab foi a pessoa que me apresentou esse contexto de interlinguagem, além de ter sido com ela que eu aprendi muitas coisas na minha vida, irmã mais velha tem disso. Eu sempre admirei muito a forma como ela lidava com a arte. E foi com ela meu primeiro trabalho de música com dança e a partir daí fomos desenvolvendo alguns. Fizemos algumas apresentações nos painéis performáticos da escola de dança, colaborei em trilhas dela, fizemos intervenções urbanas. E depois fizemos uma residência em Berlin, em que investigamos o que é isso: dois irmãos aprofundados em linguagens artísticas diferentes, questões de ancestralidade e termos que podem vir à tona entre dois seres que, além de tudo, escolhem ser irmãos.

E depois disso trabalhei com teatro também. Participei de uma remontagem de Romeu e Julieta com Márcio Meirelles no Teatro Vila Velha e depois fiz a direção musical de outros dois espetáculos na Universidade Livre. E esses trabalhos vieram a partir destes trabalhos que fiz com minha irmã.

Spotify: https://open.spotify.com/album/7kNqbudvZJeW7qqqJGDghd?si=RY5cCIXGQWy3OI9ACDqiZQ

Reina — Ian Cardoso
Ficha Técnica
Produzido por Ian Cardoso e Tadeu Mascarenhas
Gravado no estúdio Casa das Máquinas, Salvador-BA, por Tadeu Mascarenhas
Mixado no estúdio Submarino Fantástico, São Paulo-SP, por Otávio Carvalho
Masterizado no estúdio Red Traxxx Mastering, Miami-EUA, por Felipe Tichauer

Composições, arranjos de base, arranjos de sopro e direção artística por Ian Cardoso

Ian Cardoso: voz, guitarra, violão, viola caipira e synths.
Aline Falcão: vozes, Rhodes, Korg MS2000B e PADs. Arranjo vocal na faixa 1.
Alexandre Vieira: baixo elétrico e baixo acústico
Marcos Santos: bateria

Naipe de sopros:
Levy Maia: sax tenor (faixas 1 e 4)
Matheus Aleluia: trompete (faixas 1 e 4)
Matias Traut: trombone (faixas 1 e 4)

Participações especiais
Rebeca Matta: voz na faixa 1
Rowney Scott: sax soprano na faixa 3
Bruno Torres: leitura do texto incidental na faixa 3
Nancy Viégas e Mônica Freire: vozes na faixa 3

Arte: GRIS
press: Marcelo Argôlo

Ian Cardoso. Foto: Pérola Mathias

PoroAberto

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Por Pérola Mathias | www.poroaberto.com.br

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